A violência e a reação do carioca

Não é de hoje que convivemos com uma extrema violência no Rio de Janeiro. Essa situação gera um comportamento, muitas vezes, assustador: muitos de nós achamos esse caos normal. Estamos acostumados, somos do Rio.

Recentemente, acompanhamos casos de violência que ganharam destaque na imprensa e nas redes sociais. Contudo, esse cenário, infelizmente, é muito mais comum do que aparenta. Em maio de 2016, de acordo com uma pesquisa do Instituto de Segurança Pública (ISP), foi constatado que 16 pessoas morreram assassinadas por dia no estado Rio de Janeiro.

Ainda de acordo com o ISP, o número de roubos de celulares no estado do Rio, por exemplo, aumentou 63% em 2017 – em relação ao ano anterior. Isso sem contar outros crimes, que geram outros números e reflexões.

São muitas as formas de violências e motivos e motivações que culminam nesses crimes. Esse problema é antigo e, de acordo com estudos de especialistas, esses números negativos não vão baixar nos próximos anos.

Segundo uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgada no final de 2015, a tendência é que o Brasil continue tendo altas taxas de violência até o ano de 2023.

Secretário de Segurança Pública do Estado do Rio

Roberto Sá, Secretário de Segurança Pública do Estado Rio de Janeiro, anunciou que vai criar protocolos e uma estratégia articulada entre as polícias para melhorar as ações de segurança. Além disso, ele comentou a atual situação do Rio:

A polícia tem sangrado, a apreensão de armas aumenta, apreensão de fuzis aumenta e a violência não tem diminuído. O Brasil vive uma crise na segurança pública e o estado vive uma crise econômica e isso se reverte na segurança pública. Obviamente, um cenário como esse não é trivial, em que a polícia apreende, por dia, 24 armas de fogo e um fuzil, uma arma de fogo por hora, em que temos sete policiais mortos em serviço, 44 policiais mortos em três meses [fora de serviço], 180 policiais baleados”, disse Roberto Sá, afirmando que a diminuição da letalidade violenta é o principal compromisso de sua gestão à frente da Secretária de Segurança Pública.

No último dia 05/04, a prefeitura do Rio instalou o Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGIM), que reúne órgãos municipais e forças de segurança de todas as esferas para definir e colocar em prática ações para reduzir os índices de criminalidade na cidade do Rio de Janeiro.

Todo mês, obrigatoriamente, nos reuniremos para debater sobre algum tema escolhido na reunião anterior. Caso haja necessidade convocaremos reuniões extraordinárias. Hoje nada foi decidido, apenas foi o primeiro encontro, mas as Forças Armadas, por exemplo, já se dispuseram a treinar agentes da Guarda Municipal e ajudar em operações policiais de forma pontual, quando for necessário. É um grande coletivo que busca somar forças para diminuir este triste cenário de violência contra o povo carioca”, afirmou Paulo Amendola, Secretário de Ordem Pública da cidade.

Até março deste ano, morreram 45 policiais. No mês de fevereiro, a Polícia matou, oficialmente, 80 pessoas. Todos sentem a violência. Inclusive pessoas que não estão ligadas a atividades policiais ou criminais e que, em alguns casos, agem com certa naturalidade em relação a essa situação.

Renato Lincoln Patricio, 52, que testemunhou sobre o ataque ao Parlamento Inglês, ocorrido no último mês de março, declarou: “Estou apenas surpreso. Mas não, não estou com medo. Sou do Rio”. Renato estava próximo ao local quando aconteceram os disparos na capital inglesa.

No final do mesmo mês de março, durante um tiroteio na Linha Amarela, altura da Maré, na cidade do Rio de Janeiro, o desenhista Jack Artes, de 42 anos, fez uma selfie enquanto os carros estavam parados na Via, esperando tudo se acalmar. A imagem viralizou. O homem disse, ao site do jornal Extra, que estava acostumado com esse tipo de situação.

Ficar nervoso não resolve nada. O dia segue, o trabalho continua. Não dá para parar a vida por tiroteio. Foi assim que fui criado”, afirmou o desenhista.

Jack faz foto em meio ao tiroteio

Nos comentários desta notícia, a maioria das pessoas fazia coro ao pensamento de Jack Artes. De modo geral, as opiniões diziam que não adianta se desesperar e que é melhor levar essas situações com bom humor.

De acordo com a opinião do sociólogo Claudio de Souza, não é questão de costume e sim de adaptar-se à realidade.

A cidade do Rio de Janeiro é violenta há muito tempo. Evidente que a maioria das pessoas vive com medo, mas, por outro lado, precisam viver, sair na rua, ir ao trabalho, estudar, pegar transporte público. Muita gente passa essa impressão de naturalidade diante de uma extrema violência, mas nem sempre é assim, isso se acontece mais porque as pessoas precisam seguir suas vidas, mesmo com medo. Sim, devem existir casos de pessoas que encaram essa realidade violenta com menos receio, mas de modo geral, saímos às ruas com medo e não porque não temos medo”, explica.

Acostumados ou não, nós, que somos do Rio, necessitamos, o mais rápido possível, soluções amplas para esse problema da violência, que é bem mais complexo do que parece para muita gente.

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Felipe Lucena479 Posts

Felipe Lucena é jornalista, roteirista e escritor. Filho de nordestinos, nasceu e foi criado na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Apesar da distância, sempre foi (e pretende continuar sendo) um assíduo frequentador das mais diversas regiões da Cidade Maravilhosa.

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