Chapéu do Sol no Corcovado e construção do Cristo Redentor - Diário do Rio de Janeiro

Chapéu do Sol no Corcovado e construção do Cristo Redentor

3

Chapéu do Sol Hoje o pré-candidato do Democratas ao Senado, Cesar Maia, colocou em seu Twitter uma imagem do Corcovado com o Chapéu do Sol, construção anterior ao Cristo Redentor, e que eu não conhecia. Curioso fui procurar mais sobre o Corcovado.

 

Na verdade mesmo hoje contendo o Cristo Redentor, o Corcovado se chamou de 1502 (quando) até a mudança de nome no século XVII de Pináculo da Tentação, nome dado por Américo Vespúcio, em referência a passagem bíblica em que o Diabo tenta Jesus Cristo com riquezas no alto de uma rocha.

Já o Chapéu do Sol, que foi demolido em 1942m que pode ser visto nas fotos aqui, o site de Reinaldo Leal fala o seguinte:

…em 1882, os engenheiros Pereira Passos e Teixeira Soares conseguiram a concessão para construir um ramal ferroviário do Cosme Velho ao alto do Corcovado, sob o sistema Riggenbach, com cremalheira denteada sobre um trilho central para dar maior segurança à composição. Inaugurada em outubro de 1884, logo tornou-se a grande atração da cidade, sendo a primeira ferrovia turística das Américas. Com uma extensão de 3.775m, uma locomotiva a vapor conduzia até dois vagões ao topo. No meio do caminho, nas Paineiras, foi construído um hotel turístico, onde, neste século, se hospedaria o bailarino russo Wlasclaw Nijinski. No pico, a 704m de altitude, foi construído um mirante de ferro, logo batizado para “Chapéu de Sol”. Em 1910 esta ferrovia foi eletrificada, aliás, a primeira experiência do gênero no país.

Chapéu do Sol PostalOutra curiosidade do Corcovado interessante é que o Imperador Dom Pedro I atingiu seu cume, 704 metros, e deixou lá seu monograma em uma árvore.

 

Já a história da construção do Cristo Redentor contada por Reinaldo Leal é ótima:

A mania de se erguer monumentos no alto de penhascos vinha do mundo clássico e tornara-se algo muito desejado no Romantismo, onde a paisagem conferia às estátuas emoções que a frieza da pedra ou metal nos impedia de passar. Já em 1894, houve quem sugerisse o erguimento de um monumento à Cristóvão Colombo no Pão de Açúcar. Em 1912, com a construção do bondinho da Companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar, voltou-se à idéia, agora não mais de Colombo, e sim de uma enorme imagem de Cristo. A idéia arrefeceu, mas não morreu. Em 1918, sugeriram novamente a ereção de uma imagem à Cristo, para as comemorações do Centenário da Independência do Brasil, que seria levantada no morro de Santo Antônio. A idéia foi comprada pelo Governo, só que optou-se mais corretamente pelo Corcovado, tendo o Presidente Epitácio Pessoa entrado em acordo com a Arquidiocese do Rio de Janeiro para a consecução da idéia. Em 1920, Pessoa transferiu para o domínio da Arquidiocese o pico do Corcovado, comprometendo-se a colaborar com a obra melhorando os acessos e fornecendo uma série de subsídios. Foi então realizado um concurso público de projetos, vencido pelo arquiteto brasileiro Heitor da Silva Costa. O projeto vencedor, de um Cristo carregando a Cruz, era bastante calcado no Cristo de Mendoza, na Argentina. Motivos financeiros retardaram a iniciativa por alguns anos. Em 1922, o Governo instalou uma enorme antena de rádio, a primeira do país, em forma de cruz, no alto do Corcovado, para proceder à primeira experiência com radiofonia durante a Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil. Silva Costa, ao observar a dita cruz, pensou em alterar seu projeto, dando ao próprio Cristo uma forma cruciforme, bem mais legível à distância que o projeto original.

 

Chapéu do Sol Postal 2 Aprovados os desenhos preliminares, foram feitos vários esboços da imagem, no que muito colaborou o artista Carlos Oswald, que desenhou a imagem em vários ângulos e insolações possíveis. A idéia original era fundi-lo em bronze, no que foram logo dissuadidos, temerosos de que acontecesse no Brasil o mesmo que ocorrera na Rússia, quando o governo soviético após a Revolução Bolchevique mandou fundir todas as estátuas metálicas de santos para reaproveitar os metais. Decidiu-se então que a imagem, com 30m de altura, seria feita em concreto armado. Em 1923, os planos foram levados à Europa, onde, na França, foram calculados pelo escritório de engenharia de Victor Caquot, famoso engenheiro, especializado em estruturas de grande porte. O Cristo teria doze pavimentos internos e estrutura suficientemente resistente para suportar um tufão de 250km/h, o que não ocorre no clima do Rio de Janeiro.

 

Aproveitou-se a ida de Silva Costa à França, para que o mesmo escolhesse e contratasse um grande escultor para confeccionar as mãos e o rosto da imagem. A escolha recaiu no artista francês Paul Landowski, escultor muito renomado em França, que utilizou como modelo para a estátua as formas da brasileira Margarida Lopes de Almeida, ela mesma artista plástica e tida como possuidora das mais belas mãos do Brasil. Silva Costa igualmente aproveitou para se inteirar das novas tendências estéticas européias. Homem inteligente, tomou conhecimento do estilo art-déco, surgido oficialmente em 1925, em Paris, na grande Exposition des Arts Decoratifs, cujo nome serviu de base ao batismo do novo estilo, o qual propunha uma linguagem geométrica, apropriada para as formas de concreto armado. Foi a estátua de Cristo alterada para absorver as novas tendências, o que Silva Costa realizou com rara felicidade.

 

O dinheiro para toda a obra foi obtido integralmente no Brasil através de doações voluntárias coletadas em todo o território nacional, em enorme campanha promovida pela Arquidiocese do Rio de Janeiro. Cada brasileiro podia contribuir com mil réis, quantia propositalmente baixa para que todos, ricos e pobres, pudessem participar dessa obra. A coleta durou dez anos e conseguiu-se dinheiro mais que suficiente para todos os trabalhos.

 

Enormes formas em gesso e concreto foram levadas à Niterói, onde foram feitas as partes em concreto armado, que deveriam subir por bocados ao Corcovado, aproveitando-se ao máximo o trem existente. Foram encarregados da obra os engenheiros Pedro Vianna da Silva e Heitor Levy. Este último, cedeu sua chácara para os trabalhos de moldagem. Levy, que era judeu, ficou tão envolvido com a obra que converteu-se ao cristianismo e colocou os nomes seu e de sua família num vidrinho que misturou com a massa de concreto do coração da imagem. A montagem durou de 1926 a fins de 1931, não ocorrendo acidente algum durante as obras. Primeiro montou-se a estrutura de concreto armado, colocando-se sobre ela as partes artísticas com a forma da imagem. Foi montada da cabeça para os pés. Só a cabeça foi formada com cinqüenta pedaços distintos. Sobre esta forma, colocou-se uma malha metálica onde posteriormente se cobriu com pedaços triangulares de 03cm de lado em pedra esteatita verde (pedra sabão), numa homenagem às obras de Aleijadinho feitas com este material em Congonhas do Campo.

 

CHapéu do Sol Postal 3A Revolução de 1930 atrasou a inauguração da obra, finalmente ocorrida com grandes festas a 12 de outubro de 1931, dia da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Contou a solenidade com a presença do Presidente Getúlio Vargas (que era ateu), ministros, autoridades civis e militares, representantes do Papa e o Cardeal-Arcebispo D. Sebastião Leme, que fez virulento discurso político, bastante ríspido, quase provocando incidente com o Presidente Vargas, que se sentiu ofendido. Na mesma noite foi inaugurada a iluminação. Foi montado no Corcovado aparatoso equipamento de rádio para tal, pois o inventor Guglielmo Marconi ofereceu-se para ligar as luzes da estátua acionando uma chave de poderoso equipamento de rádio situado em Gênova, na Itália, onde se encontrava. Na hora aprazada, o equipamento falhou e a estátua foi acionada por um suboficial do Exército, o futuro escritor católico Gustavo Corção.

 

Algumas das dimensões da estátua ficaram conhecidas e muitos ainda hoje as sabem de cor e salteado. De altura, o Cristo possui 30 metros e três centímetros. Com a base, que mede 08 metros e abriga a capela de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, fica a imagem com 38m e três centímetros. De envergadura, possui o Cristo 29, 60m, sendo que o braço esquerdo é imperceptivelmente menor 40cm, para dar maior estabilidade à imagem. A cabeça de Cristo está inclinada 33cm para a frente e sua coroa servia como pára-raios. Em 1942, remodelaram os acessos à imagem, surgindo uma estrada de cimento que permitiu o acesso por automóvel ao alto do Corcovado. Demoliu-se na ocasião o mirante Chapéu de Sol, por estar já todo enferrujado e refez-se a escadaria de acesso, que passou a ter 220 degraus, do trem à imagem. Por cinqüenta anos a estátua nunca foi lavada integralmente, o que lhe conferiu uma tonalidade cinzenta, até que uma restauração em 1980 devolveu-lhe a cor primitiva. Em 1965, o Papa Paulo VI inaugurou a nova iluminação, desta vez realmente acionada por uma onda de rádio oriunda de um equipamento na Itália.

Quintino Gomes Freire
Diretor de mídias sociais na Agência B5, palestrante, publicitário, Defensor do Carioca Way of Life e Embaixador do Rio. Começou o Diário do Rio em 2007 e está a frente dele até hoje o levando ser um dos principais portais sobre o Rio de Janeiro.
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Comente