Crônicas Cariocas: no embalo do sono

Eu e um grande amigo estávamos em um bar perto de casa, na Zona Oeste. Saímos do local umas quatro da manhã, quase sóbrios. Pegamos um ônibus. Como era perto de casa e fomos para beber, nada de sair de carro.  Iriamos pedir um Uber, mas o ônibus surgiu assim que passávamos pelo ponto. Percurso curto, umas três paradas. Com um pouco de disposição e menos álcool – combustível caro -, dava até para ir andando.

Chego ao meu ponto e aviso para ele ficar ligado, pois ele teria que descer logo na parada seguinte e sei que ele dorme pesado quando para em um ônibus, carro ou qualquer outro veículo na volta para casa depois de uma noitada de muito álcool. Nessas situações, ele dorme pesado. Pesado mesmo. Vocês vão entender até o final desta Crônica Carioca.

Fui para casa. Dormi. Acordei com uma ligação às sete da manhã. Era meu amigo. Com a voz pastosa, ele disse:

Cara, não sei o que aconteceu. Vim parar no Centro da cidade”.

Respondi: “Eu sei o que aconteceu: você dormiu. Fica acordado, cara. Volte no mesmo ônibus. Qualquer coisa, me liga”.

De acordo com o Google Maps, de onde estávamos até o Centro da cidade são quase quarenta quilômetros.

Às onze da manhã, outra ligação.

Cara, agora eu tô na Barra”. Era ele, o meu amigo.

Achando muita graça da situação, eu falei para ele ir para o Terminal Alvorada, que fica próximo de onde ele estava e pegar uma condução para casa. No caso, um BRT.

O BRT avisa as estações, não é possível que você não vá ouvir e descer no lugar errado outra vez”, eu falei para o soneca.

Do Centro até o trecho da Barra da Tijuca onde meu amigo se encontrava e se perdia, ele havia dormido mais uns 30 km.

Uma da tarde. Eu estava almoçando, curando a ressaca. Chegou uma mensagem: “Tô na Penha”.

Dei uma gargalhada, quase engasguei com a comida, mas, naquele momento, passei a me preocupar. Liguei para ele. Na ligação, ele aparentava estar sóbrio.  Aconselhei com veemência: “Não dorme mais, porra!”.  Ele disse que a mãe estava na outra linha e paramos de conversar.

Duas da tarde, ele me ligou e disse que estava em casa. Confessou que só conseguiu porque a mãe ficou conversando com ele o caminho todo. Só assim para ele não apagar outra vez e parar em outra região da cidade.

Detalhe, tínhamos um compromisso na Penha, às 15h30 daquele mesmo dia. Ele mal chegou em casa e já teve de sair outra vez. Dessa vez, sem sono algum.

Há quem sonhe conhecer o Rio de Janeiro.  Meu amigo fez isso sonhando.

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Felipe Lucena477 Posts

<p>Felipe Lucena é jornalista, roteirista e escritor. Filho de nordestinos, nasceu e foi criado na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Apesar da distância, sempre foi (e pretende continuar sendo) um assíduo frequentador das mais diversas regiões da Cidade Maravilhosa.</p>

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