E se o Brasil fosse uma monarquia?

Da série de artigos, reportagens e entrevistas que a Folha de São Paulo fez em 26 de novembro de 2007 sobre os 200 anos da vinda da Família Real de Portugal para o Brasil. Acompanhe o índice aqui.

Originalmente publicado aqui.

E se o Brasil fosse uma monarquia?

Para Fábio Wanderley Reis, pouco mudaria: o Poder Moderador seria mais um atrativo para a corrupção

DA REDAÇÃO

Se o Brasil tivesse continuado a ser uma monarquia até hoje, pouca coisa seria diferente: o Poder Moderador representaria custos a mais para o país, encenaria um papel apenas simbólico para a sociedade e haveria mais uma frente para a corrupção, na opinião do cientista político Fábio Wanderley Reis.

Para ele, mesmo se não houvesse a instauração da República, em 1889, a monarquia não duraria muito mais: "A monarquia era candidata perene a ser vítima das turbulências sociais e econômicas".

O professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais brinca com aqueles que acenam com o Reino Unido como exemplo de que a monarquia pode criar uma boa democracia: "Se me dessem a Inglaterra, eu não precisaria de monarquia nem de rei para fazer uma democracia". (ERNANE GUIMARÃES NETO)

FOLHA - Como seria o Brasil se tivesse permanecido monárquico?

FÁBIO WANDERLEY REIS - Não acredito que haveria grande diferença. Certamente os fatores que fazem a dinâmica econômica e social da vida brasileira não seriam afetados de modo importante. O que aconteceu na Proclamação da República, a monarquia pagando as conseqüências do fim da escravidão, provavelmente ocorreria em outras circunstâncias.

Quando houve [em 1993] o plebiscito para escolher monarquia, de um lado, e de outro a disputa entre presidencialismo e parlamentarismo, havia gente defendendo a sério a monarquia, apontando o caso britânico como exemplo de democracia. Eu respondia: "Se me dessem a Inglaterra, não precisaria de monarquia nem de rei para fazer uma democracia". Com o legado complicado que temos, em particular o escravista, dificilmente teríamos um fator benigno na manutenção da monarquia.

FOLHA - Há quem a defenda argumentando que a nobreza não tem interesse em corrupção. Ficaram exemplos disso?

REIS - Não acredito que a nobreza não seja corrupta por definição. Ser nobreza é garantia de uma condição socioeconômica, mas isso não a isenta. Eles não são feitos de outra massa, o sangue não é realmente azul. É uma questão de oportunidade.

FOLHA - E houve aqueles que, não sendo da nobreza, tentaram chegar a ela pelos meios mais variados…

REIS - Nesse sentido, seria um estímulo à corrupção.

FOLHA - E a relação entre massa e elite? Na monarquia, a elite já é privilegiada e não precisa competir com as massas, portanto o capitalismo funciona diferentemente, não?

REIS - Esse pressuposto só é válido se, além de monárquico, o regime for absolutista. Com o regime constitucional, democrático, há competição entre elites. Tem-se a figura do monarca exercendo um papel simbólico, enquanto a liderança efetiva está no Parlamento. Portanto, há competição.
É interessante que as elites sejam porosas, no sentido da mobilidade social, de um país dinâmico com uma elite autêntica -não simplesmente um traço socioeconômico, no sentido em que se usa a palavra hoje. Não há razão para imaginar que teríamos uma sociedade mais parecida com esse modelo por causa da monarquia.

FOLHA - O que seria diferente?

REIS - Teríamos um aparato estatal envolvendo a monarquia. A família real seria mantida pelo erário público, com alguma função simbólica. Mas a suposição de que duraria até hoje é precária; a monarquia era candidata perene a ser vítima das turbulências sociais e econômicas do período e posteriores.

Há apenas atualmente um comentário para “E se o Brasil fosse uma monarquia?”

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  1. 1 Em 10 de February de 2008, Waldir Henrique Bene disse:

    Se formos condenar o Brasil por toda eternidade sobre seu passado escravagista, então os EUA também estaria em condições parecidas, já que sua escravidão durante o período de sua independência durou mais do que no Brasil.

    Se não ocorresse o golpe de Estado de 1889, com certeza o Império consolidaria o parlamentarismo e hoje o Brasil seria uma Monarquia parlamentarista como qualquer outra da Europa Ocidental.

    Se ao menos tivesse um pouco de seriedade sobre o assunto Monarquia no Plebiscito de 1993, seria natural que a Monarquia parlamentarista acabasse sendo aceita pelo Povo.

    O senhor Fábio Wanderley Reis fala dos custos da Monarquia como se não houvesse custos com a presidência da república. Veja senhor Reis o quanto custa a Família Real Britânica para os britânicos e o quanto custa o presidente e os ex-presidentes para os brasileiros. O senhor ficará surpreso.

    As monarquias modernas não privilegiam classe social alguma,a única exceção é a monarquia britânica que ainda mantém o cargo dos Lordes, mas não uma Nobreza em si, coisa dos tempos absolutistas.

    Eu imagino o quanto teríamos de bom se o Brasil mantivesse o ritmo natural de industrialização, de construção de ferrovias (10 mil km por década), a inflação média durante todo o 2º reinado era de 1,58%, o Brasil tinha a 3ª frota mercante do mundo, eliminou gradativametne a escravidão, incentivou a imigração de mão de obra livre, não houve um momento de censura à imprensa ou de perseguição política, havia liberade de fé e todas as garantias individuais que temos hoje, a integridade nacional foi garantida, tínhamo uma Marinha e um Exército formidáveis, o Brasil era uma nação respeitada, o Parlamento não era uma praça de negócios, tínhamos estadistas de verdade, o Parlamento nunca foi fechado e nenhum político foi perseguido. Até os defensores da república tinha um partido político, enquanto os monarquistas levaram 98 anos para poder defender de monarquia.

    Bom, já falei demais, só peço para se dedicarem a pesquisar a Monarquia através de documentos e livros sobre formas e sistemas de governo. O Brasil precisa de fatos e não de mais achismos.

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