Passado e futuro do Largo do Boticário - Diário do Rio de Janeiro

Passado e futuro do Largo do Boticário

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Largo do Botiticario po Fulviusbsas

Local histórico, marcante, simbólico, bem localizado e, apesar dos problemas, bonito, o Largo do Boticário tem uma vida digna de um grande enredo. Narrativa essa que teve auge e quedas, mas que hoje aponta para um final feliz.

A História do Largo do Boticário

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Tudo começou em 1831, Joaquim Luís da Silva Souto, boticário que tinha um estabelecimento na antiga Rua Direita (atual Primeiro de Março), teve muito sucesso profissional. A Família Imperial estava entre seus clientes. Ganhando bem, Joaquim resolveu investir na região onde ficam as casas do Largo do Boticário.

“A partir disso, aquela área do Cosme Velho, que hoje é próxima à subida para o Cristo Redentor, passou a se chamar Largo do Boticário, em referência à profissão de Joaquim Luís da Silva Souto”, conta o historiador Maurício Santos.

Ao longo dos anos, as casas que compõem o Largo foram palco de festas concorridas entre ricos, artistas e políticos brasileiros. Em 1846, o Marechal Joaquim Alberto de Souza Silveira, frequentador da Corte e padrinho de nascimento de Machado de Assis, morou em um dos imóveis do Largo do Boticário.

Edmundo Bittencourt

Edmundo Bittencourt

Já nos anos 1920, Edmundo Bittencourt, fundador do jornal Correio da Manhã, comprou o terreno e começou a construir casas em estilo neocolonial. Foi nessa época que a definitiva cara do Largo do Boticário começou a ser finalizada.

Algumas dessas reformas foram promovidas pelo diplomata e colecionador de arte, Rodolfo da Siqueira, (que era arquiteto amador e viveu no largo entre 1928 e 1941) e por Sylvia de Arruda Botelho Bittencourt e seu marido, Paulo, herdeiros do Correio da Manhã. Em determinadas obras realizadas no Largo nesse período, os famosos Lucio Costa e Gregori Warchavchik foram os arquitetos responsáveis.

As décadas foram passando, o Largo do Boticário foi perdendo um pouco do brilho de outras épocas, contudo, não era um final trise. Em 1973 foi gravada a chamada de Fim de Ano da Globo.

E em 1979, o Largo foi um dos cenários do filme “007 Contra o Foguete da Morte”. Em 1990 foi tombado pelo Inepac (Instituto Estadual do Patrimônio Artístico e Cultural).

A Deterioração do Largo do Boticário

Foto - Estadão

Foi então que veio o ponto de virada dessa bela história. A partir de meados dos anos 1990, as casas Largo do Boticário entraram em total processo de deterioração. Entre 2006 e 2008, um dos imóveis do Largo chegou a ser invadido e ocupado por um grupo de sem-teto.

Sybil Bittencourt, herdeira da família proprietária do Correio da Manhã, quando voltou da Europa, viu o Largo do Boticário abandonado, servindo de depósito de carros roubados e ponto de prostitutas.

No ano passado, Sybil, que estava morando em uma das casas, alegou, através do advogado, que não tinha dinheiro para fazer a manutenção da propriedade. “Na verdade, esperamos uma posição mais consistente do poder público, que não fez nenhuma proposta envolvendo as casas”, disse Bruno Siciliano, advogado da herdeira, ao site da revista Veja.

O Futuro do Largo do Boticário

Largo do Boticário, O Dia

Entretanto, o jogo começou a virar de forma positiva para o Largo do Boticário. Após seis meses de negociação, Sybil assinou contrato de exclusividade com a Sergio Castro Imóveis, que já procura investidores interessados. O negócio tende a impulsionar a revitalização do espaço, que poderá se tornar um polo gastronômico e cultural, embora sejam necessárias mudanças na legislação sobre bens tombados.

“As seis casas da nossa cliente – quatro que se vê por fora e duas, lindas, que são internas – têm problemas, realmente. Não correm risco de desabamento como vem se falando, e nem são ruínas, mas necessitam de restauro geral. Hidráulica, elétrica, telhados e forros de madeira são os principais problemas. Mas as casas são plenamente recuperáveis, sua beleza e a qualidade de sua arquitetura neocolonial são evidentes. Todos os detalhes continuam lá!

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O que tem de ser feito – e nós faremos – é encontrar um investidor pessoa física arrojado ou um dos fundos imobiliários que estão aproveitando a crise pra comprar imóveis por valores abaixo da avaliação no momento atual para adquirir as casas, negociar a flexibilização do uso delas com a Prefeitura, e iniciar um projeto que, com certeza, será um grande sucesso.

Semana passada, vendemos um apartamento de 500m2 em Ipanema por 18 milhões. É o preço que estamos pedindo por um cartão postal do Rio de Janeiro, com quase 3.000m2 construídos em um terreno enorme. Em janeiro, vendemos uma loja de 400m2 na Avenida Rio Branco por 17 milhões de reais. Você sabia que hoje, maltratado e sem divulgação nenhuma, sem acesso à parte interna das casas, o Largo recebe cerca de 200 visitantes por dia?”, afirmou Cláudio André de Castro, da Sergio Castro Imóveis.

Largo do Boticário

Cláudio ainda opinou sobre futuros investimentos no Largo:

“Pelo preço de uma loja de 400m2 no Centro do Rio, você pode comprar um cartão postal da cidade com 3.000m2 de construção, uma bela história por todos conhecida, junto ao Túnel Rebouças e ao acesso ao Corcovado, com facílima locomoção desde as zonas Centro, Sul e Norte. Uma certeza de absoluto sucesso para um polo gastronômico, hospedagem de alto luxo.

 O Hotel Santa Tereza, que também foi um negócio feito pela Sergio Castro, é um exemplo! E olha que o acesso ao Santa é muito difícil, ladeiras, trilhos de bonde, táxis se recusam a subir etc. Mesmo assim, o Santa Tereza hoje é um estrondoso sucesso que perde apenas pra o Copacabana Palace e o Fasano! Agora, imagine uma coisa como o Largo do Boticário, transformado em algo tipo o Santa Tereza, bem localizado como é, com acesso por ônibus, táxi, metrô, e com a logística boa assim? São, em síntese, vários atrativos: a localização privilegiada junto a vários cartões postais, o conjunto em si que é um patrimônio carioca e a logística super fácil para se locomover dentro das principais áreas do Rio (Centro, Z. Sul e Norte) e a metragem generosa! São quase 3.000m2 de área! Por fim, o preço. Você compra 6 casas, por 18 milhões de reais”.

Villa Aymoré Antes e Depois

Vale ressaltar que a Villa Aymoré, que estava até mais deteriorada que o Largo do Boticário também passou por uma super renovação e ano passado foi sede do CasaCor.

Agora, com essas novas possibilidades, a expectativa é de que o passado de glórias do Largo do Boticário volte.  que essa volta traga o tão esperado final feliz.

Felipe Lucena
Felipe Lucena é jornalista, roteirista e escritor. Filho de nordestinos, nasceu e foi criado na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Apesar da distância, sempre foi (e pretende continuar sendo) um assíduo frequentador das mais diversas regiões da Cidade Maravilhosa.
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