Ser Carioca por Vinicius de Moraes

As Ondas de Copacabana por Xavier Donat

O poetinha, Vinicius de Moraes, foi um dos maiores cariocas não há dúvidas. E como poeta e bom carioca Vinicius escreveu sobre o Rio de Janeiro. Em seu texto Estado da Guanabara ele fala sobre a mudança da Capital Federal do Rio para Brasília e se o Rio deveria ser incorporado ao Estado do Rio ou virar o Estado da Guanabara.

Leiam:

Estado da Guanabara

Vinicius de Moraes

Niños de Rio de Janeiro por alobos Life

Um repórter me telefona, eu ainda meio tonto de sono, para saber se eu achava melhor que o Distrito Federal fosse incorporado ao Estado do Rio, consideradas todas as razões óbvias, ou se preferia sua transformação no novo Estado da Guanabara. Sem hesitação optei pela segunda alternativa, não só porque me parece que o Distrito Federal constitui uma unidade muito peculiar dentro da Federação, como porque vai ser muito difícil a um carioca dizer que é fluminense, sem que isso importe em qualquer desdouro para com o simpático estado limítrofe. O negócio é mesmo chamar o Distrito Federal de Estado da Guanabara, que não é um mau nome, e dar-lhe como capital o Rio de Janeiro, continuando os seus filhos a se chamarem cariocas. Imaginem só chegarem para a pessoa e perguntarem de onde ela é, o ela ter de dizer: “Sou guanabarino, ou guanabarense”… Não é de morte? Um carioca que se preza nunca vai abdicar de sua cidadania. Ninguém é carioca em vão. Um carioca é um carioca. Ele não pode ser nem um pernambucano, nem um mineiro, nem um paulista, nem um baiano, nem um amazonense, nem um gaúcho. Enquanto que, inversamente, qualquer uma dessas cidadanias, sem diminuição de capacidade, pode transformar-se também em carioca; pois a verdade é que ser carioca é antes de mais nada um estado de espírito. Eu tenho visto muito homem do Norte, Centro e Sul do país acordar de repente carioca, porque se deixou envolver pelo clima da cidade e quando foi ver… kaput! Aí não há mais nada a fazer. Quando o sujeito dá por si está torcendo pelo Botafogo, está batendo samba em mesa de bar, está se arriscando no lotação a um deslocamento de retina em cima de Nélson Rodrigues, Antônio Maria, Rubem Braga ou Stanislaw Ponte Preta, está trabalhando em TV, está sintonizando para Elizete.

Pois ser carioca, mais que ter nascido no Rio, é ter aderido à cidade e só se sentir completamente em casa, em meio à sua adorável desorganização. Ser carioca é não gostar de levantar cedo, mesmo tendo obrigatoriamente de fazê-lo; é amar a noite acima de todas as coisas, porque s noite induz ao bate-papo ágil e descontínuo; é trabalhar com um ar de ócio, com um olho no ofício e outro no telefone, de onde sempre pode surgir um programa; é ter como único programa o não tê-lo; é estar mais feliz de caixa baixa do que alta; é dar mais importância ao amor que ao dinheiro. Ser carioca é ser Di Cavalcanti.

Copacabana por Christina Andrada

Que outra criatura no mundo acorda para a labuta diária como um carioca? Até que a mãe, a irmã, a empregada ou o amigo o tirem do seu plúmbeo letargo, três edifícios são erguidos em São Paulo. Depois ele senta-se na cama e coça-se por um quarto de hora, a considerar com o maior nojo a perspectiva de mais um dia de trabalho; feito o quê, escova furiosamente os dentes e toma a sua divina chuveirada.

Ah, essa chuveirada! Pode-se dizer que constitui um ritual sagrado no seu cotidiano e faz do carioca um dos seres mais limpos da criação. Praticada de comum com uma quantidade de sabão suficiente para apagar uma mancha mongólica, tremendos pigarreios, palavrões homéricos, trechos de samba e abundante perda de cabelo, essa chuveirada — instituição carioquíssima restitui-lhe a sua euforia típica e inexplicável: pois poucos cidadãos poderão ser mais marretados pela cidade a que ama acima de tudo. Em seguida, metido em sua beca de estilo, que o torna reconhecível por um outro carioca em qualquer parte do mundo (não importa quão bom ou medíocre o alfaiate, de vez que se trata de uma misteriosa associação do homem com a roupa que o veste), penteia ele longamente o cabelo, com gomina, brilhantina ou o tônico mais em voga (pois tem sempre a cisma de que está ficando careca) e, integrado no metabolismo de sua cidade, vai a vida, seja para o trabalho, seja para a flanação em que tanto se compraz.

Pode-se lá chamar um cara assim de guanabarino?

Deixe seu comentário

Quintino Gomes Freire8911 Posts

Diretor de mídias sociais na Agência B5, palestrante, publicitário, Defensor do Carioca Way of Life e Embaixador do Rio. Começou o Diário do Rio em 2007 e está a frente dele até hoje o levando ser um dos principais portais sobre o Rio de Janeiro.

18 Comentários

  • Pablo Moon Reply

    2 de setembro de 2015 at 19:07

    maravilhosas suas palavras Andrea !!

  • Adriana Mendes Sobrino-Curtinhas Reply

    24 de Abril de 2015 at 18:37

    amo ser carioca.

  • Bel Scarmin Reply

    28 de agosto de 2013 at 14:42

    "Cariocas são bonitos
    Cariocas são bacanas
    Cariocas são sacanas
    Cariocas são dourados
    Cariocas são modernos
    Cariocas são espertos
    Cariocas são diretos
    Cariocas não gostam de dias nublados

    Cariocas nascem bambas
    Cariocas nascem craques
    Cariocas tem sotaque
    Cariocas são alegres
    Cariocas são atentos
    Cariocas são tão sexys
    Cariocas são tão claros
    Cariocas não gostam de sinal fechado." 🙂

  • Andréa Toci Reply

    28 de agosto de 2013 at 13:05

    Ler o Vinicius é sempre como receber no rosto a brisa carioca!! Sendo carioca da gema, fui morar longe do Rio há muitos anos, sempre que volto sinto uma estranha sensação, quase física, é como se um botão de emergência se desligasse dentro de mim…. me fazendo respirar de verdade!!

  • Paulo Henrique Reply

    28 de agosto de 2013 at 12:07

    Jamais poderá chamar uma cara assim de guanabarino. rs'

  • Carol Nery Reply

    28 de agosto de 2013 at 12:05

    HÁ TANTOS ANOS VIVENDO LONGE DESSA TERRA MAIS QUE MARAVILHOSA, AINDA A SINTO COMO SENDO PARTE IMPORTANTE E INTEGRANTE DE MIM!!!!! SAUDADES SEMPRE!!!!!!

  • Sidnei Silva de Souza Reply

    1 de Janeiro de 2013 at 20:38

    Basta dizer que era CARIOCA

  • Aline Carneiro Reply

    21 de Maio de 2012 at 20:35

    Poeta/Poetinha Vagabundo/Quem dera todo mundo fosse assim/Feito você

  • Sidinho Latrel Reply

    9 de Maio de 2012 at 22:25

    kkkkkkkkk

  • Vera L Jesus Furtado Reply

    1 de Março de 2012 at 11:28

    SOU CARIOCA DO RIO MESMO .NASCIDA NO DIA DA FUNDAÇÃO DA CIDADE MARAVILHOSA Q MESMO C/ TODOS OS PROBLEMAS É O MAIS LINDO LUGAR DO MUNDO

  • Vera L Jesus Furtado Reply

    1 de Março de 2012 at 11:27

    eu sou carioca do rio de janeiro mesmo! nasci no dia mais lindo do ano 1º de março dia da fundação da cidade maravilhosa chamada de rio de janeiro .parabéns pra nós rioooooooooooooo

  • Leandro Lima Reply

    16 de Maio de 2011 at 15:36

     Caramba! Acredita que no final da última semana li esse texto pela primeira vez também?

    Excelente. Realmente, um carioca jamais  abdica de sua cidadania. Meu apartamento é praticamente uma embaixada carioca em São Paulo, das fotos na parede da sala aos livros no nicho sobre a TV, passando por diversas outras referências (como um quadro de azulejos compondo o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor em pequenos pedaços de azulejos multicoloridos). E não foi algo pensado, premeditado. Esses elementos vão simplesmente acontecendo, prazerosamente.

    Embora, para o desespero de nosso Poetinha, eu precise confessar: acho a palavra “guanabarino” um charme! #ProntoFalei 

    =P

  • Leandro Lima Reply

    16 de Maio de 2011 at 15:36

     Caramba! Acredita que no final da última semana li esse texto pela primeira vez também?

    Excelente. Realmente, um carioca jamais  abdica de sua cidadania. Meu apartamento é praticamente uma embaixada carioca em São Paulo, das fotos na parede da sala aos livros no nicho sobre a TV, passando por diversas outras referências (como um quadro de azulejos compondo o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor em pequenos pedaços de azulejos multicoloridos). E não foi algo pensado, premeditado. Esses elementos vão simplesmente acontecendo, prazerosamente.

    Embora, para o desespero de nosso Poetinha, eu precise confessar: acho a palavra “guanabarino” um charme! #ProntoFalei 

    =P

  • Andre Reply

    16 de Maio de 2011 at 13:04

    Sou carioca e com frequencia me auto-denomino de carioca não praticante. Estou em SP, tenho que acordar na hora, cumprir minhas tarefas nas metas deles, no rítimo deles, para poder ganhar o salário deles. Então sou um carioca de prática paulistana. Mas esse trecho do vinícius salvou minha pele: “Que outra criatura no mundo acorda para a labuta diária como um
    carioca? Até que a mãe, a irmã, a empregada ou o amigo o tirem do seu
    plúmbeo letargo, três edifícios são erguidos em São Paulo. Depois ele
    senta-se na cama e coça-se por um quarto de hora, a considerar com o
    maior nojo a perspectiva de mais um dia de trabalho; feito o quê,
    escova furiosamente os dentes e toma a sua divina chuveirada.” Sim, vínicius…. sou mesmo carioca. Andre Bressan.

  • Andre Reply

    16 de Maio de 2011 at 13:04

    Sou carioca e com frequencia me auto-denomino de carioca não praticante. Estou em SP, tenho que acordar na hora, cumprir minhas tarefas nas metas deles, no rítimo deles, para poder ganhar o salário deles. Então sou um carioca de prática paulistana. Mas esse trecho do vinícius salvou minha pele: “Que outra criatura no mundo acorda para a labuta diária como um
    carioca? Até que a mãe, a irmã, a empregada ou o amigo o tirem do seu
    plúmbeo letargo, três edifícios são erguidos em São Paulo. Depois ele
    senta-se na cama e coça-se por um quarto de hora, a considerar com o
    maior nojo a perspectiva de mais um dia de trabalho; feito o quê,
    escova furiosamente os dentes e toma a sua divina chuveirada.” Sim, vínicius…. sou mesmo carioca. Andre Bressan.

Deixar um comentário

Login

Welcome! Login in to your account

Remember me Lost your password?

Lost Password