Papo de Talarico: Um mergulho com o guerreiro do oceano

Um navio na Marina da Glória, o Ahab do bem e o velho poeta nadador

Ocean Warrior e o mar
Tartaruga gigante e mergulhadores em Fernando de Noronha (foto: acervo pessoal)

O mar é fascinante. Sou nascido e criado no Rio de Janeiro, e, apesar de ser da zona norte, o mar sempre esteve presente na minha vida. Lembro de uma tia que tinha casa em Jaconé e do medo de meus pais das ondas fortes que por lá existem. Uma vez, inclusive, eu e um primo estávamos na areia brincando quando o mar tentou nos levar. Um senhor magro de barba negra, um Ahab do bem, amigo da família, nos pegou pelos braços enquanto a água salgada nos arrastava. Recordo que ficou doendo. Mas foi melhor a dor no braço do que a morte por afogamento, sem dúvidas. E olha que desde os seis meses de idade meu pai me colocou na natação. Talvez porque ele não soubesse nadar.

Até a pré-adolescência cheguei a competir. Sem grandes vitórias. Acordava cedo e ia para o clube em Madureira. Não vou dizer que era divertido. Mas segue sendo útil. Na adolescência, aprendi a pegar jacaré, ou seja, descer na onda usando o próprio corpo. Ainda lembro a emoção da primeira vez. O amigo de uma amigo que me ensinou. Foi como voar. Antes era mais fácil tomar o famoso caixote, ou seja, aquela pancada que a onda dá e te deixa embaixo da água rolando até você conseguir subir com a cabeça cheia de areia. Porém, depois daquele professor, que vi poucas vezes na vida, passei a me sentir um verdadeiro surfista de peito.

Guerreiro do Oceano

Essas recordações atingiram minha mente após a visita que fiz a um navio que percorre o mundo pesquisando e defendendo a vida marinha. É o Ocean Warrior, da ONG internacional Sea Shepherd. Depois de enfrentar uma frente fria e tempestade para poder atracar na Marina da Glória, finalmente conseguiu. Enquanto caminhava até o navio, vi um rapaz passar com uma blusa, onde estava escrita a palavra Iemanjá. Sim, a divindade/orixá feminino das religiões de matriz africana e afro-indígenas e do sincretismo brasileiro. Estaria me dando as boas vindas?

Antes de subir no navio, boiava ali perto uma rosa branca. Ao meu lado uma profissional de Relações Internacionais, que também seguia para a visita, admirava o trabalho da Sea Shepherd: “Eles resistem e lutam pelo que acreditam. Num mundo que só consome demasiadamente ainda tem gente que está nadando contra a corrente. E quando a gente se identifica tenta unir esforços”. Ela pretende ser voluntária futuramente, assim que terminar seu atual contrato de trabalho.

Eu estava como jornalista e como um amante do mar. Um alguém que pulou sete ondas em muitas passagens de ano fazendo pedidos. Um homem que já mergulhou tanto de cilindro quanto de snorkel e teve a oportunidade de ver tubarões, arraias, grande tartarugas e moreias assustadoras. Um dia, antes de um mergulho desses, um senhor me disse: “O mar é como uma selva, tome cuidado”.

É selva e perigo, que tantas vezes segurou meu grito, lavou minhas feridas, levou amores perdidos.

É balanço na rede, voo submerso, universo transverso.

É poesia salgada em boca salobra, brisa sonhada.

O oceano é uma entidade que permeia o planeta Terra. Fica de olho enquanto a gente erra.

Jamais cansa de ir e vir, espuma ao vento, sobe e desce.

Da areia, em sua humilde pequenez; o amor do poeta, simplesmente, cresce.

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1 COMENTÁRIO

  1. Interessante como o veganismo e a conscientização sobre proteger o meio ambiente tem ganhado mais notoriedade…
    Navio protetor dos mares causou um mergulho nas memórias…

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