A decadência dos clubes de bairro nos subúrbios da cidade do Rio

Tradicionais, esses locais estão em crise, sendo fechados com frequência

Localizado na Rua 28 de Setembro, a Associação Atlética Vila Isabel já foi um importante centro esportivo do Rio de Janeiro

Sair de casa para encontrar amigos, parentes, vizinhos e conhecidos nos clubes de bairro já foi um hábito muito comum entre os cariocas. Contudo, a visita para atividades esportivas e sociais está cada vez menos presente na rotina dos moradores do Rio de Janeiro. Isso porque esses tradicionais espaços de convivência vêm passando por muitos problemas que acabam culminando no fechamento.

Estudiosos do tema estimam que a decadência dos clubes de bairro vem acontecendo desde a década de 1970. Segundo o professor Victor Melo, especialista no assunto, são alguns os fatores que culminam na situação: a “domesticação das experiências” (pessoas cada vez mais em casa, muito por conta das tecnologias); dificuldades financeiras da classe média; especulação imobiliária e a construção de condomínios residenciais que têm quase tudo o que um  clube pode oferecer.

“A conjunção de tudo isso leva os clubes a não conseguirem pagar as dívidas, a manter os espaços, e a estrutura. Alguns clubes tentaram fazer festas, bailes, mas não é o suficiente para todos”, destaca o professor Victor Melo.

Um dos casos mais recentes de fechamento de um clube histórico para a cidade foi a Associação Atlética Vila Isabel. O local, que por um bom tempo passou por dificuldades, encerrou as atividades para virar um empreendimento imobiliário.

“A maior parte dos clubes que não resistem e fecham as portas viram empreendimentos imobiliários”, frisa Victor Melo.

A situação se espalha por outros bairros e clubes. No ano passado, o jornal O Dia publicou que o Olaria Atlético Clube devia, aproximadamente, R$ 100 mil reais à Ligth. Na mesma reportagem, o clube do Bonsucesso é citado em um débito de mais de R$ 224 mil com a Cedae. Há alguns anos, o Olaria chegou a tentar vender seu estádio para pagar dívidas. Em 2020, o Bonsucesso transformou o hall de entrada do clube em um estacionamento para tentar arrecadar algum dinheiro neste período de crise.

“A consequência desse problema é a perda de espaço de referência. Os clubes foram mais que espaços só de diversão ou só de esporte. Grande parte da vida politica, social, cultural, passaram pelos clubes. Os clubes são importantes agentes de identidade local. Em geral, envolviam uma elite local, mas também havia espaço de contato com os populares dos bairros. Importantes políticos da cidade vieram dos clubes, os clubes sempre foram centros sociais. Os clubes foram referenciais para a vida pública, comunitária. Quando você perde esse espaço, você perde espaço de convenção comunitária. Essa perda é relevante para entender os movimentos de construção dos cotidianos das cidades”, afirma o professor Melo.

Muitos dos clubes em crise ficam na Zona Norte, nos subúrbios do Rio de Janeiro. Enquanto na parte de maior poder aquisitivo da cidade, a Zona Sul, espaços históricos de convivência e prática esportiva, como Clube Monte Líbano e Caiçaras seguem firmes com suas atividades.

“É muito triste assistir a depreciação dos subúrbios sendo refletida nos clubes e agremiações de nossos bairros. O impacto é direto não só na autoestima, como também na identidade e na memória do local, que vão perdendo vida cada vez que os clubes vão encontrando a falência”, opina o historiador Vitor Almeida, criador da página Suburbano da Depressão.

Diante do problema, algumas soluções são apontadas por especialistas: “Estamos reconfigurando os espaços públicos. Hoje temos outros grupos que de alguma maneira têm uma atuação parecida com as dos clubes. ONGs, grupos culturais, que tentam ter seus espaços físicos ou usam espaços públicos, governamentais. Mas a dinâmica é diferente do funcionamento dos clubes, que tinham essa coisa da base associativa comunitária. Eu acho que era possível recuperar os clubes em crise se o Poder Púbico investisse nesses espaços. Em áreas, bairros que têm poucas opções de lazer e clubes estão em situação difícil, a Prefeitura poderia, ao invés de construir praças, vilas olímpicas, investir nesses clubes e torná-los públicos, em uma parceria entre o público e o privado. O fim dos clubes não significa o fim dos espaços de lazer, eles só se reconfiguraram e estão diferentes do passado, mas faz falta o espaço, a dinâmica dos clubes. Eles são muito importantes e mereciam mais cuidado para ou se manterem ou voltarem a ter o papel que já tiveram no passado”, declara o professor Victor Melo.

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21 COMENTÁRIOS

  1. Sou contra pegar dinheiro público pra pagar dívidas de administradores incompetentes.
    Esse é o real motivo da decadência dos clubes de bairro. Incompetência,corrupção e má gestão!
    Dinheiro público é pra ser investido em saúde,educação,emprego etc..

  2. A degradação E imensa , os clubes de Santa Cruz , estão se acabando quem não lembra dos grandes bailes do dom Oton Mota , vila dos sargento , grêmio Procopio ferreira, alvi Negro , campestre , vila Nova acadêmico de St cruz só ficaram na lembrança. E na mão dos malandroes .

  3. E o Luso Brasileiro, que já foi tudo em Campo Grande e agora virou um condomínio?
    As maiores festas da Zona Oeste
    Os maiores shows. Dinheiro tenho certeza que entrava,um espaço enorme com grandes eventos inclusive ao ar livre. Era nosso Rock in Rio daquela época. Porém má administração da em falência.

  4. Discordo da proposta do Professor VICTOR MELO! A Prefeitura Municipal não tem que investir nenhum centavo nestes Clubes falidos. Os recursos públicos devem ser investidos na Educação, na Saúde, no Transporte e nas Obras de Infraestrutura urbana. A decadência desses Clubes faz parte da evolução socioeconômica da Cidade, onde novos espaços de convivência e recreação são criados, gerando mais empregos e arrecadação tributária.ç

  5. Acho que os clubes poderiam ser ocupados principalmente por alunos da rede pública. São poucas às escolas que formam atletas. Temos alunos potencialmente maravilhosos! O que vemos nas escolas, são áreas esportivas que não existem! Obviamente, com grande participação do poder público.

  6. Madureira já teve 3 clubes sociais. Depois da fusão um grupo dominou o atual Madureira, e acabou com toda a parte social. O único interesse dos atuais “donos” do clube é negociar jogadores…

  7. Colocar dinheiro publico pra ser roubado igual fizeram com o dinheiro dos clubes q hj estão falindo. Os clubes tem q ter pessoas(administradores) q não tem o intuito de enriquecer com o dinheiro do msm.

  8. Eu morei em Nilópolis e joguei no juvenil do Santa Rita onde hoje é a quadra da beija flor mas tinha o XV de novembro, Flamenguinho, Legionário, Frigorífico e o Nova Cidade que de todo é o único até hoje, tinha também o Brasil do Cabral.

  9. Eu morei em Nilópolis e joguei no juvenil do Santa Rita onde hoje é a quadra da beija flor mas tinha o XV de novembro, Flamenguinho, Legionário, Frigorífico e o Nova Cidade que de todo é o único até hoje.

  10. Um reflexo também da gestão pública , causa e efeito , o Rio de Janeiro não se sustenta mais pelas belezas naturais , réveillon em Copacabana um marketing da enganação da rede hoteleira para turistas , que hoje de fato vem conhece e não fica mais fixo, no máximo 2 dois dias e vai para o nordeste finalizar suas férias , Violência em geral e gestões dos Clubes com extensão política de interesses próprios de famílias , Logo estamos numa Cidade que a cada dia se degrada mais , Bairros tradicionais : Olaria , Bonsucesso, Vila da Penha , Pavuna , Irajá , Benfica , São Cristóvão , Cordovil , Quintino , Madureira etc tc colocados a margem da organização urbana , logo Continuamos na degradação , logo infelizmente o Título de Cidade Maravilhosa o que já era nostalgia pura, agora se ratificou de vez e não se recupera isso da noite para o dia , uma cidade degradada na década 70/80 New York – USA , graças a uma política pública de tolerância zero do ex prefeito Rudolf Giuliane precisou 10 anos para virada e transformação e reivencao da principal Cidade Americana.

  11. Eu moro em São João de Meriti, e quando e vi acabar 2 clubes importantes : Pavunense , e em Eden o Grêmio de Eden. Eden e um bairro de São João de Meriti. Pra ter uma idéia até Roberto Carlos já cantou no Grêmio de Eden e muitos outros já se apresentaram. E hoje a violência ñ permite vc frequentar um clube principalmente na baixada.E outra dependendo da atração acaba em Tiro, porrada e bomba.

    • A culpa é da má Administração permamente, pessoas que querem apenas se promover, visando simplesmente seus interesses políticos e interesses pessoais, tem que ter uma lei que puna severamente Presidente, e todos envolvidos na gerência dos clubes , ter que pagar todas as dívidas contraida em sua administração , não passar para o próxima gestão, assina um termo de compromiss caso saia da adm. Pagar as dividas do proprio bolso , não tirar do combalido cofre do clube, isso valia para todos , clubes profissionais, amadores e até escolas de samba.

  12. Comentou-se na zona Norte. Na zona Oeste, clubes como o antigo Luso Brasileiro Tennis Clube entre outros com um passado notável viraram condomínios de apartamentos. O descaso, a roubalheira e as péssimas gestões do passado, em muitos dos casos, resultaram nesse triste presente destes espaços. O Rio de Janeiro é um “campeão ” de tragédias históricas não só em clubes, mas em diversos setores econômicos e sociais…

  13. Sempre o Estado tendo que ser a babá da população…

    Os clubes estão acabando pois se tornaram obsoletos, foram mal administrados por décadas, dinheiro foi desviado/roubado, as infras são péssimas, etc.

    Quem quiser que se junte com outras pessoas e recuperem os clubes falidos, ou simplesmente criem um novo.

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