Polo Saara, no Centro do Rio / Reprodução: Internet

O Polo Saara (Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega), é o maior shopping a céu aberto da América do Sul, com mais de 900 lojas espalhadas por 11 ruas nas adjacências da Rua da Alfândega, a maioria voltada para o comércio popular.

A região surgiu no século XIX, como resultado da imigração de muçulmanos, judeus e cristãos maronitas provenientes do Império Otomano. A Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega foi criada por comerciantes locais, em 1962, para defender a manutenção das características urbanísticas da região. Com o tempo, a sigla da sociedade, “SAARA”, passou a ser utilizada pela população para se referir à região por ela abrangida.

O Dário do Rio conversou com Eduardo Blumberg, presidente do Polo Saara. Nascido no Rio de Janeiro, Blumberg é casado e filho mais velho de Seweryn Blumberg, judeu polonês dono de um forte espírito empreendedor. Foi de Seweryn e Sarina Blumberg, sua esposa e mãe de Eduardo, a iniciativa de criar a Dimona, empresa de malharia e estamparia, que atua na região do Saara há décadas e da qual, Eduardo Blumberg é também presidente.

Diário do Rio –  Há muito tempo o Centro da cidade do Rio de Janeiro vem sofrendo um processo de degradação. Quais são, na sua avaliação, as causas desse processo?

Eduardo Blumberg – A degradação do Centro da cidade piorou. O Centro não é um bairro residencial. Ele tem uma vida útil demarcada pelo horário comercial, das 9h às 18h, no mais tardar até às 20h. Isso limita as atividades locais. A vida do Centro, baseada só nas atividades comerciais, é muito restritiva. A região conta com algumas faculdades no seu entorno, o que gera um movimento extra, mas não é suficiente para dar mais vitalidade à área.  

Eduardo Blumberg, presidente do Polo Saara

D.R.- O senhor consegue identificar quando a degradação do Centro da cidade piorou?

E.B – A degradação do Centro se intensificou nos últimos 4 anos, ou seja, durante o governo do ex-prefeito, Marcelo Crivella (Republicanos). Crivella abandonou a região. Cada um podia montar uma barraca de camelô onde quisesse. As pessoas também podiam dormir onde bem entendessem. Ele não tentou recolher os moradores de rua aos abrigos já existentes ou construir novos. Isso, ao longo do tempo, piorou. Gerou uma grande degradação do espaço urbano local.

D.R. – Existe alguma saída a curto prazo?

E.B. – É claro que 4 anos de abandono não são resolvidos de uma hora para outra. As coisas vão levar um certo tempo para melhorar. Eduardo Paes (DEM), atual prefeito do Rio, promete dar ênfase à melhora do Centro da cidade. Estamos otimistas.

D.R. – Como a desordem urbana local interfere no desempenho do comércio do Centro do Rio?

E.B. – A desordem urbana é realmente muito ruim para o comércio estabelecido, pois cada um faz o que quer sem nenhum tipo de reprimenda ou fiscalização. Isso atrapalha muito o comércio. Se bem que nas nossas ruas do Polo Saara, especialmente as ruas internas, não enfrentamos problemas, como as presenças de moradores de rua ou de camelôs de forma ostensiva. Isso nos garante mais tranquilidade, uma vez que ficamos mais protegidos. No entorno, a situação ficou muito difícil, apesar da Operação Centro Presente, responsável coibir roubos e furtos, promover o ordenamento urbano, entre outras atribuições. Sem dúvida, a desordem urbana no Centro do Rio assusta e afugenta o consumidor local.

D.R. O Polo Saara é o maior shopping a céu aberto da América do Sul. Quais foram os estragos provocados pela pandemia ao Polo e o que foi feito para minimizá-los?

E.B. – Sem dúvida, a pandemia atrapalhou demais o comércio. Aliás, como no mundo inteiro. Mas teve um lado bom nisso tudo. Os comerciantes que não estavam trabalhando nas redes sociais, com venda online, foram forçados a se adaptar ao uso desses recursos para continuar comercializando os seus produtos. Esse foi um fator que acabou ajudando a todos. Hoje, somente a loja física ou apenas a loja na internet não darão sustento ao comerciante. Ele tem que abrir as duas frentes. Essa foi a principal mudança que nós conseguimos proporcionar aos comerciantes das lojas do Polo Saara.  

D.R. – O senhor já tem uma avaliação do prejuízo sofrido pelo Polo Saara durante esse período?

E.B. – O grande problema do Centro da cidade atualmente é o home office, Isso atrapalha muito. O cliente que costuma vir ao Saara, continua vindo e comprando produtos nas suas lojas de preferência. Nós, no entanto, estamos sentindo muita falta do cliente que trabalha no Centro. Os prédios do nosso entorno, como Petrobras e Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ), entre outros, estão todos em home office. Esse, portanto, é um grande problema que o Saara tem e terá pela frente. Por isso, o projeto do prefeito Eduardo Paes, de trazer moradias para o Centro da cidade, é muito importante. Não é um projeto de curto prazo. Vai levar algum tempo. Mas eu estou confiante que será um projeto bem sucedido.

D.R. – A vacinação contra a Covid-19 pode possibilitar, em breve, uma retomada da economia da cidade do Rio?

E.B. – Eu sou um otimista preocupado. Eu acredito que haverá uma retomada do crescimento econômico, mas o processo será demorado. Se vamos conseguir sobreviver é uma grande questão, pois a contribuições que o Governo Federal concedia às pessoas e empresas acabaram. Ele ajudava com a suspensão dos contratos de trabalho e com a redução da jornada de trabalho, entrando com uma parte do dinheiro e concedendo um auxílio financeiro às pessoas mais necessitadas. Como essas medidas foram suspensas, estou muito preocupado sobre o que pode acontecer nos próximos 6 meses. Mas eu acredito que no segundo semestre, com boa parte das pessoas vacinadas, o comércio registrará uma melhora nas suas atividades.

D.R. –  Qual mensagem o senhor deixaria para comerciantes e comerciários da cidade do Rio de Janeiro?

E.B. – A mensagem que eu posso deixar para o comerciante em geral é ser persistente e ir até onde conseguir. Como estratégia sugiro não colocar todos os ovos em uma cesta só. O comerciante deve diversificar, abrir frentes diferentes e ser persistente. Fazer um controle dos gastos é essencial. É preciso deixar as contas bem enxutas. Além de trabalhar nas frentes de lojas físicas e lojas na internet. Ele deve, pelo menos, fazer propaganda nas mídias sociais. Vamos aguardar o segundo semestre, pois o primeiro semestre será difícil. Eu sou um otimista. Mas sou um otimista preocupado.

8 COMENTÁRIOS

  1. Acompanho a tal buscada e por um momento fomos capaz de ver um certo andamento na “Revitalização do Centro do Rio de Janeiro”, alguns pontos foram mexidos graças alguns poucos vereadores como o Ricardo Maranhão quando esteve na ativa. Enfim, veio a revitalização da área portuária, mas não teve continuidade. Infelizmente, sempre que mudamos uma administração municipal, muda-se as regras, os objetivos, e no caso, foi um desastre com o Marcelo Crivella: as ruas centrais amontoaram de mendigos, latas de lixo arrancadas no entorno da área portuária, camelôs à vontade pelas ruas, cinelândia, etc., e desapareceram os guardas municipais, sumiram vigilância sanitária, o pessoal do parques de jardins, o pessoal do setor de buracos nas ruas (obras), — uma degradação geral. Veio a pandemia, e piorou — o comércio foi fechando, também por conta do e-commerce. Sem explicação, ainda o Centro do Rio mantém em pé hotéis e tem tido clientes. O Centro do Rio precisa ter sim continuidade em ocupação de pessoas, para que o comércio se anime, tenha mais grandes redes de supermercados, o turismo pode fluir muito na área central, portuária, etc. Isso vai gerar serviços, portanto, desenvolvimento e renda. O Centro do Rio, seu entorno como Santa Teresa, entre outros bairros pode ganhar com isso. Basta ter administração consciente e focada. A história do Brasil passa pelo Centro do Rio de Janeiro.

  2. Atualmente dou moradora do Centro RJ_
    Eu e minha família fizemos a mudança da zona Norte para o centro vem no meio da pandemia. Estamos bem felizes por não enfrentar transporte público para o trabalho.
    Já tenho visto uma certa mudança na rua Riachuelo em direção a Lapa, o
    Centro presente atuando.
    O centro da cidade é incrível.Prefefeito Eduardo Paes, tenho muita esperança no seu governo.

  3. O calçamento das ruas de pedestres no centro da cidade é uma armadilha para os mais velhos, como eu. Seria fundamental que o piso fosse, não apenas consertado, mas principalmente nivelado. As ruas do SAARA são armadilhas para velhos.

  4. Infelizmente aqui em SP acontece o mesmo, até pior: sujeira, urina, sem teto. Prefeitos das cidades brasileiras não respeitam os munícipes. É triste isso no Rio, porque é a única capital brasileira que tem um belíssimo centro da cidade, único no país.

  5. “Como estratégia sugiro não colocar todos os ovos em uma sesta só.” é de chorar! Como este povo que digita isso passou no ENEM e ainda posta o título de mestre no currículo?

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