A reinvenção da Lapa

Artigo retirado da Folha de São Paulo, 6 de Janeiro de 2008

Definida como uma "Babel ao contrário", bairro boêmio do Rio é embalado por boa música e atrações para todos os gostos, preços e gentes
Há pouco mais de dez anos, se alguém resolvesse fazer um passeio turístico pela Lapa carioca, seria como ir ao Père-Lachaise, o famoso cemitério de Paris: existe muita gente bacana lá, mas todos mortos.

Após cinco décadas de um ocaso que piscou para as trevas, refez-se a luz no bairro, graças a uma combinação de boa música, bons cariocas e nenhuma interferência marqueteira de instâncias governamentais.

Hoje, paulistas, mineiros, potiguares, franceses, japoneses, esquimós e cariocas -sim, muitos cariocas- lotam todas as noites as ruas, casas de samba e os bares da área mais mítica do centro do Rio.

"A Lapa é uma Torre de Babel ao contrário. Apesar das diferenças, todo mundo se entende. Quem vem aqui é o inteligente de cada classe: o rico que sabe das coisas e gosta de boa música, o pobre que faz a cabeça do pessoal em Belford Roxo [Baixada Fluminense]… A inteligência está aqui", afirma Perfeito Fortuna, responsável (se é que a palavra se aplica à sua incrível agitação) pela Fundição Progresso.

Fortuna é dos tempos do Père-Lachaise. No início dos anos 80, quando ele, sem fazer jus ao sobrenome, levantou a lona do Circo Voador sob os Arcos da Lapa -nos arredores só passava trem-fantasma. Pois o Circo virou o quartel-general do renascido rock brasileiro, a chapa da Lapa voltou a ficar quente, mas… a moda passou na virada para os 90 e a juventude se foi com ela.

Os comerciantes e abnegados interessados na região tiveram que pôr mãos à obra para que o bairro não caísse -literalmente, pois o estado dos sobrados era periclitante. Surgiu até, em 1996, uma Associação dos Comerciantes do Centro do Rio Antigo, que conseguiu umas parcerias com a prefeitura no fim da década passada e vem tentando pôr um pouco de ordem no caos.

"A Lapa é o nosso Pelourinho, mas com muito mais diversidade cultural. Convivem em harmonia estudantes, travestis, empresários, prostitutas. A gente só precisa melhorar trânsito e segurança", diz Plínio Fróes, presidente da associação e dono do Rio Scenarium, enorme misto de antiquário e casa de shows, pára-raio de turistas estrangeiros.

O último levantamento feito (pelo Data-UFF) na Lapa e nos arredores, em 2004, indicava 116 estabelecimentos dos segmentos musical, teatral, gastronômico e afins, atraindo 110 mil pessoas por semana, como registra o antropólogo Micael Herschmann no livro "Lapa -Cidade da Música". Mas são números sabidamente ultrapassados.

O Sebrae (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) informa que 39 empresas foram abertas na região nos últimos dois anos. E basta uma caminhada numa noite de sexta ou sábado para sentir na pele e nos ouvidos a profusão de boêmios e diletantes de várias idades e procedências.

"A Lapa é sempre uma surpresa, e quem chega é convidado a participar. Eu estava há duas semanas no Canadá, a -10ºC, e vim direto para cá. É um lugar de intensidade, onde se encontra de A a Z", exaltava, em madrugada recente, numa mesa do Nova Capela, a coreógrafa Deborah Colker.

No quadro que acompanha esta reportagem, o leitor pode tentar descobrir o(s) lugar(es) que combina(m) mais com seu estilo. Mas é bom saber de uma coisa: assim como os rios correm para o mar, os boêmios da Lapa desembocam no Capela.

A comida encareceu, fumar no recinto está proibido, mas, ainda assim, por atavismo ou inércia, é o tradicional restaurante -que se chama "Nova" porque existia o Capela diante do antigo largo da Lapa-, o palco principal das madrugadas, comandado por Manoel (22 anos de casa), Cícero (18) e outros garçons que sabem mais da sua vida do que você mesmo -porque eles se lembram do que você fez.

Na noite em que Colker se recuperava do frio canadense, o ministro dos Esportes, Orlando Silva Jr, tomava uísque em outra mesa. "Isso aqui é um clássico, com essa mistura de gentes diferentes", opinou.

Duas semanas antes, Mart’Nália e Luiz Melodia dividiam uma mesa grande e animada. E isto sem falar nos personagens habituais, como Cavalo, Chico da Curimba, Alfredo, Marechal, Mariozinho Lago e o gaúcho Sérgio Silveira, que há 38 anos tira fotos dos fregueses que o chamam (R$ 15 cada uma, em máquina polaróide).

Se for para resumir em uma palavra o que impulsionou o renascimento da Lapa nos últimos dez anos, ela é "samba". Tudo começou com um pagode sob os Arcos, feito por Marquinhos de Oswaldo Cruz, Ivan Milanez e poucos outros. Em seguida, o Semente, ali do lado, lançou Teresa Cristina e espalhou seu formato para outros endereços da avenida Mem de Sá, a principal do bairro.

Do lado da rua do Lavradio, o produtor Lefê Almeida inventou uma roda de samba num antiquário, o Empório 100, e criou um outro formato. Os dois foram se disseminando, e daí surgiram casas como o Carioca da Gema, o Sacrilégio e, mais recentemente, o Estrela da Lapa e o Bar da Ladeira.

Foram surgindo, ainda, os bares sem música ao vivo: Belmonte, Informal, Taberna do Juca, Brazooka, convivendo com históricos como o Bar Brasil e cultuados como o Arco-íris, que reunia os hippies em torno de cerveja barata.

"Isso aqui ficou cult demais. Agora as pessoas vêm aqui para ser vistas. O pessoal alternativo mesmo foi se escondendo e só usa o Arco-íris como ponto de encontro. Vamos para o Plano B, que tem música atonal, rock alternativo de verdade", pregava a artista plástica Jucilane Pires, antes de ensinar ao repórter como chegar ao Plano B.

No início de uma ladeira, é uma casa com LPs decorando a fachada, um informe de que ali se fazem tatuagens e, dentro, grafites, artes gráficas, tudo bem alternativo.

E não é preciso andar muito pela rua do Riachuelo para se chegar ao, digamos, "Plano A". É o Lapa 40º, casa de três andares e números maiúsculos aberta em 8 de novembro para atrair jogadores amadores de sinuca -são 26 mesas, o maior conjunto do país- e fregueses com mais dinheiro. Eles têm à disposição uma gafieira com shows diários e música ambiente bastante alta.

"Têm vindo deputados, vereadores, juízes, desembargadores, além de muita garotada", orgulha-se da freqüência Sérgio Machado, 32, um dos quatro sócios, certo do retorno do investimento de R$ 1,5 milhão.

"Lugar de sinuca, tradicionalmente, é lixão, só com gente feia, horrorosa. Aqui não, tem mulher bonita. Eu sou casado, mas posso olhar, né?", disse o publicitário Alberto Andrade, 32, enquanto apontava ao repórter uma morena.

Uma área que não se encaixa no plano de marketing de Andrade fica num quadrilátero que, assim como o Brasil na definição de Tom Jobim, não é para principiantes: Travessa do Mosquera (onde um homem foi morto a facadas em outubro num assalto) -entre o início da Mem de Sá, o final da Evaristo da Veiga e a Joaquim Silva.

A área é uma farândula de atrações culturais (hip hop, blocos afro, dance etc.) que pode ser segura dentro dos estabelecimentos, mas não é tanto do lado de fora, onde se vendem várias experimentações alcoólicas -as drogas são, supostamente, combatidas por policiais estacionados em duas patrulhas. Convém, no jargão carioca, não ficar dando mole por ali, porque é o parque temático de assaltos da região.

Mas é bem ali, na ladeirinha da Evaristo da Veiga, que fica o curioso Samba Villa Hostel, albergue cujo bar com música ao vivo abre toda noite e que recebe eventuais embriagados sem rumo -por R$ 19, arruma-se uma cama para despejar o esqueleto.

Boemia se estende aos arredores e compõe um circuito paralelo

É muito difícil estabelecer as fronteiras da Lapa. Ela pode começar na rua Moraes e Vale, onde Manuel Bandeira morou, diante do Beco das Carmelitas -o seu famoso beco-, e terminar em algum ponto da rua do Riachuelo.

Mas, como todo lugar mítico, o espírito importa mais do que a matéria -a de asfalto e cimento, no caso; não a outra.

No que se refere à sua atual fase boêmia, a Lapa vem estendendo seus tentáculos para áreas do entorno. Uma delas é a praça Tiradentes, onde fica um dos endereços mais importantes do samba feito no Rio: o Centro Cultural Carioca, num sobrado onde funcionou o célebre Dancing Eldorado. Teresa Cristina e o Grupo Semente são atrações todas as quintas-feiras e há outros bons shows.

A Tiradentes ainda conta com a tradicional gafieira Estudantina, os teatros Carlos Gomes e João Caetano, e vários de seus sobrados têm passado por reformas com fins culturais. Ainda surgiram hotéis novos na área.

Outra praça, a Cinelândia, não conta com grande movimento à noite, mas se vale do teatro Rival, um dos principais palcos de música brasileira do Rio, e do cine Odeon BR, sede do Festival do Rio de cinema. Há um projeto de transformar a rua Álvaro Alvim, a do Rival, em quarteirão cultural.

O bairro que tem procurado acompanhar a Lapa de modo mais semelhante é a Gamboa, na zona portuária. O Trapiche da Gamboa, ampla casa onde se toca samba de alta qualidade, tem o perfil cultural e de público das melhores casas da Lapa.

Na mesma rua, Sacadura Cabral, abriu o Sacadura, lugar com vários ambientes, inclusive um para shows, e há planos de novas inaugurações, vislumbrando-se um pólo "off-Lapa". É o local também da sede carioca de The Week, a boate GLS paulistana que se instalou também nos ares frescos do Rio.

Na sede da Ação da Cidadania, um grande armazém, têm acontecido festas, shows e exposições, movimentando ainda mais uma região que ficou abandonada com a perda de importância do porto do Rio. Também fica na Gamboa a Cidade do Samba, sede dos barracões das principais escolas do Carnaval carioca.