Tartaruga Vermelha por Alvaro Tallarico
Há poesia no mundo (foto: Alvaro Tallarico)

Comecei a conhecer e passei a achar intrigante a cultura japonesa a partir de suas animações. Os famosos animes. Nesse contexto, o Studio Ghibli é referência em nos presentear com boas obras como ‘A Viagem de Chihiro’ (2001), o único filme de língua não-inglesa a ter ganhado o Oscar de melhor filme de animação. Em uma terça-feira qualquer, parado no tempo, durante o isolamento requerido pela pandemia, em um fim de tarde, senti fome.

Primeiramente, acendi o fogão e joguei o azeite na frigideira. Peguei uma cebola na geladeira, menor que uma média. Ainda estava mais para verde. Descasquei e, com cuidado e carinho, cortei metade em pequenos pedaços na tábua rosa. Joguei na frigideira e ouvi os estalidos. Com uma colher de pau, mexi para lá e para cá. Abri o armário acima e peguei o curry, logo após, salpiquei na cebola e mexi mais um pouco. Aliás, tinha macarrão pronto de ontem na geladeira, o bastante para um prato, já com alguns pedaços de tomate cortado. Puxei com a colher de pau para a frigideira e mexi tudo mais um pouco. Da geladeira veio o molho de tomate, pus uma dose, e , inclusive, uma colher de sal.

La tortue rouge

Quis sentar para comer assistindo algo, sabia que o prato cheio ia pesar e meu corpo focaria em digerir, então fui em um streaming procurar através de meu companheiro de isolamento: o notebook. Demorei alguns minutos, queria algo agradável. Em meio a tantas opções, saltou aos meus olhos um título: ‘A Tartaruga Vermelha‘ (La tortue rouge). Uma animação. Mas, apesar do símbolo do Studio Ghibli aparecer, depois descobri que não era japonesa. Em verdade, era francesa dirigida por um holandês, Michaël Dudok de Wit. Logo no início lembrei de Tintin pelo estilo.

Um náufrago isolado. É, digamos que tinha um pouco a ver com meu momento. Cenários lindos e detalhados de um mar infinito e uma ilha. Eu também estava ilhado. Durante aproximadamente uma hora e quinze minutos acompanhei aquela estória sem diálogos, contada através de uma belíssima animação. Pensei sobre solidão e sobrevivência entre sonhos e devaneios. Apesar de não ter diálogos, era recheado pelos sons da natureza e uma bela trilha sonora no estilo clássica, nunca exagerada. Fiquei imerso naquela ilha junto com aqueles seres vendo poesia em forma de imagens.

Em ‘A Tartaruga Vermelha‘ vi chegadas e partidas, cresci com os personagens, dormi e acordei com eles, vendo o sol de pondo e a lua brilhando em cima do mar. Não foi um tsunami de emoções, mas sutis reflexões e sensações que brotaram na minha jangada. Ao final, só queria virar uma tartaruga e viver cem anos navegando pelas profundezas de um amor.

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