No domingo do dia 1º de março, o Fantástico fez uma reportagem sobre a marginalização das mulheres transsexuais presas.



Drauzio Varella, médico que realiza trabalho voluntário em penitenciárias, apresentou a “ala das trans”, onde entrevistou algumas pessoas, entre elas Suzy de Oliveira. Suzy não foi questionada do porquê ter sido presa. Drauzio perguntou à presidiária há quanto tempo não recebia visitas, ela respondeu “entre 7 e 8 anos”. Após ter pintado a figura de abandono da prisioneira, o médico perguntou se poderia abraçá-la. Surpresa, a condenada disse: “nossa, nunca me pediram isso!”. Não era à toa.

O Brasil é um país de notória impunidade. É comum uma pessoa ser condenada a 10 anos de prisão e sair com 3 e meio. Isso me fez estranhar, na hora, o fato da condenada estar presa há, pelo menos, 8 anos. Nesse momento, para mim, a reportagem tinha se tornado aquele tupperware da geladeira, que já manifestava cheiro duvidoso. Era só abrir a tampa para o negócio feder de vez.

O Antagonista confirmou que Suzy de Oliveira, batizada como Rafael Tadeu de Oliveira dos Santos, está presa desde 2010 por ter estuprado, assassinado e ocultado o corpo de uma criança de 9 anos de idade. A assassina e estupradora sabia os horários em que o menino ficava sozinho em casa, pois era sua vizinha. Esperou a mãe sair de casa, invadiu a residência, cometeu todo o seu repertório de crueldades. Suzy ocultou o corpo e, quando já apresentava estágios de decomposição, deixou ele na porta da casa da mãe, que vê hoje com indignação a pessoa que destruiu sua vida receber centenas de cartas de apoio e acalento.

A vileza de Suzy não para por aí: foi acusada de abusar de uma criança de 3 anos, flagrada tentando estuprar o próprio sobrinho de 5 anos e praticava roubo a mão armada. A rejeição da família foi tanta que a própria mãe depôs contra Suzy.

A sociedade exigiu manifestação da Rede Globo, que disse não ter informado tamanha monstruosidade da condenada por “esse não ser o objetivo da reportagem”, e de Drauzio, que não quis se desculpar, dizendo ser “médico e não juiz”. Não sei vocês, mas eu não vou ao médico para ser abraçado.



Siga nossas redes e assine nossa newsletter, de graça

Jornalismo sério, voltado ao Rio de Janeiro. Com sua redação e colunistas, o DIÁRIO DO RIO trabalha para sempre levar o melhor conteúdo para os leitores do site, espectadores dos nossos programas audiovisuais e ouvintes dos nossos podcasts. O jornal 100% carioca faz a diferença.



Para falar a verdade, eu não coloco a mão no fogo pela declaração de Drauzio Varella. Há 2 anos e meio o médico escreveu um artigo para a Folha com o seguinte título: “Estupradores despertam em mim ímpetos de violência, a custo contidos”. No texto em que o doutor expõe toda a monstruosidade dos estupradores, chega a dizer que “O estuprador pratica um crime hediondo que não merece condescendência e exige punição exemplar. Uma sociedade que cala diante de tamanha violência é negligente e covarde.”.

Ainda que Drauzio tenha virado sua opinião do avesso e trocou a “punição exemplar” de estupradores por abraço piedoso, não é questão de julgamento, mas de exercício da empatia, tanto com as trans que são vítimas REAIS de abandono e marginalização quanto às vítimas de agressores e predadores sexuais. Ainda que óbvio, vale lembrar que para exercer a empatia a magistratura não é requisito.

A Rede Globo, por sua vez, foi irresponsável em ter apresentado uma pessoa que foi abandonada por amigos e família por ser pedófila e estupradora, e ignorar as reais vítimas dessa marginalização.

O médico e, principalmente, a emissora falharam de forma grave ao tentar passar uma imagem falsa da condenada. É triste ver que ambos seguem insistindo no erro que cometeram. Errar é humano, reconhecer os desacertos e pedir desculpas é sinal de caráter e humildade.

2 COMENTÁRIOS

  1. Meus parabéns pelo artigo. Mas o que aconteceu pode ser explicado. A sociedade mundial se tornou extremamente materialista de 50 anos até o prezado momento. Mas infelizmente a sociedade brasileira foi uma que mais ficou materialista no atual contexto mundial. No Brasil se faz qualquer coisa por dinheiro. Por isto somos umas das sociedades mais corruptas do mundo.

Comente

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui