Bar Urca - Rio de Janeiro - Foto: Alexandre Macieira | Riotur

Texto de Alvaro Tallarico

Saiu no Diário do Rio o que o carioca mais sente falta nesse momento de isolamento social devido ao coronavírus. E é da socialização. Ou seja, essa agitada vida social carioca, a alma do movimentado Rio de Janeiro. Muitos chutariam que seria a praia. Mas não, o carioca sente falta de sentar num bar e estar com os amigos, trocar aquela ideia, sorrir e cantar. As pessoas que moram na Cidade Maravilhosa sentem falta do cotidiano desse local que sempre convida para um passeio.

A fama do carioca é essa e continua, um povo hospitaleiro, que gosta de conversar, é receptivo – e adora um bom bar. Ah, aquele chope gelado saindo da serpentina é como um troféu para o carioca. E desce mais um. Mais dois. Solta aquele petisco esperto. Puxando o “s”, aquele sotaque que todo o mundo conhece e reconhece.

A pequisa foi feita pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), e cada um poderia responder o que quisesse. Então 84% das pessoas respondeu “do abraço dos amigos e parentes”, em segundo lugar veio “do afago das mãos de pais e avós” (69%), em seguida, “do verde da natureza abundante” (62%), “do aroma do pão da padaria” (52%), “do chope gelado” (48%), “do movimento alegre dos bares” (45%) e “do aroma de pipoca no cinema” (41%).

Veja só se o carioca não é um romântico por natureza – e pela natureza. A gente quer respeitar o isolamento porque queremos sobreviver para voltar a viver em plenitude. Sair pelas ruas e apreciar esse verde abundante, ir a pé até a padaria mais próxima sendo levado pelo cheiro daquele pão quentinho, flutuando como um desenho animado. Que saudade daquele aroma. O chope já citei, mas faltou falar dessa frase, presta atenção: “do movimento alegre dos bares”. Olha que coisa linda. O carioca sente muita falta de sentar e sorrir nos bares e restaurantes, ouvindo todo mundo falando alto e gargalhando. Ah, somos um povo que adora a gargalhada. Enquanto temos países onde rir alto é falta de educação e atrai olhares tortos, no Rio de Janeiro é diferente, aqui a alegria é louvada e está tatuada no nosso coração.

Além do aroma do pão, sentimos saudades do cheirinho de pipoca no cinema. Ver filmes pelo streaming quebra um galho, mas nada se compara a experiência do ritual de ir ao cinema e vivenciar aquela tela gigante, uma imersão em outros mundos, salve a sétima arte! Na entrada, as boas vindas surgem através do tal aroma de pipoca. Parece instantâneo, provoca lembranças e memórias de infância. Eu, ainda por cima, sou daqueles que pede pipoca salgada. Pipoqueiro, quero com leite condensado por cima.

Estamos agora em um cenário de cinema, de filme dramárico, quiçá de terror. Quantos filmes você já não viu que tratam de alguma epidemia que atrapalha o mundo? São muitos e sempre parecia algo meio distante. Nesse momento, está batendo nas nossas portas. Calma, calma, não criemos pânico. Não esqueça que o carioca é um sobrevivente. Sim, temos problemas, muitos. A insegurança, a saúde, e segue uma lista longa. Todavia, que essa situação gravíssima que estamos passando possa fortalecer ainda mais o nosso poder de socialização e de solidariedade. Cariocas, uni-vos. Opa, entretanto, agora, sem aglomeração. Primeiramente, vamos manter o isolamento devido sempre que possível, evitando que essa doença se espalhe, e, após vencermos mais esse desafio, sigamos firmes espalhando um vírus que vale a pena: o compartilhar de sorrisos e estórias.

Agora estamos pelas redes sociais, dividindo piadas e memes, só no treinamento para o reencontro com olhos nos olhos e aquele calorão. Não, não estou falando do sol ardente, mas sim desse calor humano que só a gente tem. E aquele tradicional papo de bar. Chefia, desce mais um.

Alvaro Tallarico é carioca, jornalista especializado em Jornalismo Cultural pela UERJ.

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