...do amor e do ódio: o amódio!

O ser humano é sensível a sentimentos desencontrados que nem ele é capaz de reconhecer em si mesmo. Muito menos de se dar conta das consequências de seus atos que são, via de regra, comandados por tais sentimentos.

Se alguém vier lhe pedir ajuda, não ofereça uma cama muito macia. Isso por si só ilustra os impasses que conduzem as relações afetivas entre os indivíduos. Nietzsche, o grande filósofo alemão, já nos ensinava sobre esses disparates.

As loucuras e as barbáries que temos presenciado em nosso cotidiano nos levam a pensar nas relações conflitantes do amor e do ódio que os indivíduos mantêm consigo e com os seus semelhantes.

O amor não é algo puro, nunca caminha sozinho, ele tem a sua alma gêmea, que é o ódio: eles têm uma relação mesclada, “amodiosa”, que pode promover uma série de distúrbios desastrosos na vida de alguém.

Uma mistura, um entrelaçado que, dependendo das circunstâncias, é possível tornar uma vida mais amorosa ou mais odienta. O amor não caminha sem o ódio. Mas o ódio, este sim, segue sozinho. Jacques Lacan, o célebre psicanalista francês, forjou o termo “amódio” para ilustrar a mescla dos sentimentos de amor e de ódio. As relações amorosas são atravessadas por sentimentos imprevisíveis, de algo não esperado, podendo temperar e alimentar um processo de um modo que muitas vezes foge ao controle dos amantes.

...do amor e do ódio: o amódio!

Pode ser que eu resolva, digamos, te ajudar. Vou trata-lo com muito carinho, cuidados, acolher o seu sofrimento e, se for o caso, lhe emprestar dinheiro. Na minha santa inocência, o que eu poderia esperar de um retorno da sua parte? No mínimo, um gesto de gratidão. Algumas vezes, se eu sou um pouco mais neurótico, crédulo, desses que querem ser amados às últimas consequências, espero, como retribuição, o seu amor. Isso seria lógico. Mas, não! O que vem é ódio, rancor, inveja, ciúmes, raiva. Você poderia pensar tratar-se de uma loucura, mas não é.

Onde se esperaria um gesto de gratidão, veio o ódio! “Respondo à generosidade e acolhimento com minha dor do que não recebi na minha origem. Portanto, odeio o seu gesto de amor, porque me faz lembra a ferida de um abandono”!

O ato de terrorismo na Maratona de Boston fez retornar, uma vez mais, a pergunta sobre o que uma pessoa é capaz de fazer, do mal que ela pode provocar para si mesma e para tantos outros. Isso soa como uma voz a ser escutada pelos pais e pela sociedade. Todos temos um lado obscuro de nossa vida que é habitado por emoções desencontradas, loucas, que pode nos levar a cometer loucuras, que só nos damos conta depois.

Trata-se de um acontecimento que subverte toda a ordem lógica das relações humanas. Os dois irmãos que cometeram tamanha insanidade, por exemplo, foram amorosamente acolhidos pelo país que atacaram.

Isso pode parecer estranho, paradoxal, até mesmo uma loucura. Mas, acreditem, esta é uma das facetas do ser humano, o cerne de uma verdade que pode emergir de dentro de todos nós!

...do amor e do ódio: o amódio!

Essa é mais uma evidência de que temos que cuidar – e aqui, em todas as conotações dessa palavra – melhor daqueles que apresentam, de uma maneira direta ou indireta, sinais que apontam para sofrimentos psíquicos mais acentuados.

O ser humano, mergulhado numa profunda solidão, pode fazer coisas por vezes muito desagradáveis. Ele pode se mostrar saudável nas aparências de seu cotidiano. Sim, ele pode se comunicar com os próximos, realizar as suas tarefas da vida, fazer o que todos fazem. Um homem comum! Mas, temos que levar em conta, e isso se processa ao mesmo tempo, que pode existir um amargor, algo odiento dentro dele, que o acompanha não sem deixar, nas entrelinhas de suas realizações, algumas notas destoantes. Uma vida que corre ao lado, como um rio de tristezas e de magoas descabidas, em que a solidão o acompanha e o leva a criar um mundo obscuro, que vive à sombra de um silêncio, como se fosse uma vida paralela. O fato de ter um inconsciente, isso o torna vulnerável à repetição de erros que podem desgraçar sua vida e a de tantos outros. Ninguém escapa à mordida do lobo. O sujeito se vê possuído por emoções desencontradas de si mesmo.

A psicanálise opera sobre esse viés de desacordo em relação aos seus propósitos no sentido de construir uma certa coerência entre suas ações. Você vai passar a agir de acordo com o seu desejo verdadeiro, livre das amarras da sua história, dos pecados familiares que você se vê condenado a repetir. Entretanto, os embates e os conflitos que o atormentam, não é certo e seguro que você queira se livrar deles, pois nossas loucuras cotidianas nos levam a gozar num sofrimento que às vezes amamos mais que a nós mesmos.

Médico, Psiquiatra e Psicanalista. Especialização e Mestrado em Psiquiatria (UFRJ); Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Brasília, Rio de Janeiro e Vitória; Membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP); Editor-chefe da Companhia de Freud Editora

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