Confiança Atlético Clube - Foto: Reprodução

Graças à bela iniciativa do professor Kléber Monteiro, autor da obra “Da Lama à Grama”, de 2019, que versa sobre os bastidores do Campeonato Estadual da Terceira Divisão do Rio de Janeiro, a camisa de um dos clubes mais icônicos da região da Grande Tijuca, infelizmente extinto em 1993, está sendo revivida através de um belo modelo retrô. O empreendimento visa reunir fundos para a publicação de um livro sobre a história do Andaraí Atlético Clube, outra agremiação que honrou com galhardia a história do futebol carioca e da região da qual nasci e vivi por mais de 40 anos de minha existência.

O Confiança Atlético Clube foi fundado em 26 de abril de 1915 por divergência entre os membros do antigo Republicano FC, que mais tarde passou a se chamar Clube Dramático Progresso. Dada a continuidade das diferenças entre seus pares, finalmente foi criado o Confiança, tendo como figuras de destaque Archete Portela, Adelino Sousa e Manuel Gouveia, que representavam a velha guarda.

A iniciativa do nome adveio por conta de uma homenagem à antiga fábrica de tecidos, fundada em 1898. A primeira reunião ocorreu na residência de Archete Portela, situada na Rua Maxwell. A fundação do clube foi encarada pelos dirigentes da fábrica mais como uma recreação para o elevado número de operários. Porém, não tardou para que o apoio oficial ocorresse através do Dr. Antonio Lacerda Menezes, que entusiasmado com esse acontecimento, deu tudo de si pelo progresso do novo clube.

Também não podemos deixar de citar outro importante baluarte que lutou em favor do Confiança em seus anos iniciais. O Doutor Braga, pai do aclamado compositor Braguinha, que veio a ser primo do meu avô materno, e cunhado do compositor e parceiro de Noel Rosa, Almirante, também amigo de meu avô até o fim de sua vida.

A sua primeira sede foi instalada na Rua Maxwell, 104, mudando-se posteriormente para a Rua General Silva Teles, 104, na qual permaneceu até a data fatídica de sua extinção. Na fase inicial de poucos recursos figuras de destaque deram a sua decisiva colaboração ao clube como o Sr. Mesquita, Avelino Tomás Pinto, José dos Santos Rodrigues, Archete Portela, Oscar Trindade, Paulo Roquete Pinto, Oscar Narciso da Silva, Aurélio Moisés Rossi e Valdemiro Luís Terra. Até jóias foram empenhadas por esses valentes e abnegados desportistas para fazer frente às inúmeras despesas.

Para quem não sabe, foi o Confiança quem inaugurou o Estádio do Pacaembu, em São Paulo. Além disso, foi o primeiro campeão da Liga Suburbana, em 1918. No ano anterior vencera a Segunda Divisão da mencionada liga. Em 1924 e 1933 disputou a Primeira Divisão do Campeonato Carioca na fase do amadorismo. Em 1946, obteve outra conquista de reconhecimento, quando atuando na Primeira Divisão da Segunda Categoria da Zona Sul, arrebatou o título. Isso após a extinção da saudosa Federação Atlética Suburbana (FAS), antecessora do histórico Departamento Autônomo (DA), fundado em 1949. Ainda na mesma temporada, já houvera vencido a disputa do Torneio Início.

Foi ainda campeão da Taça Disciplina em 1958 e 1959 na categoria infanto-juvenil. Em 1964, foi o vencedor da Série Almir dos Santos, graças a outra ótima campanha. Em 1966, sob o comando do técnico Joaquim, se sagrou campeão do Departamento Autônomo. Após ser vice em 1979 e 1981, perdeu a decisão, em 1983, para o Oriente por 1 a 0, na prorrogação. Finalmente, em 1987, sob o comando do presidente Edgar Felipe dos Santos e do treinador Erinaldo Felipe dos Santos (Mimão), conquistou o seu último título, o de Supercampeão do Departamento de Futebol Amador da Capital (DFAC) ao bater, em Figueira de Melo, o temível Francisco Xavier Imóveis, comandado pelo célebre e veterano treinador Manuel de Almeida.

Em 1990, finalmente se profissionalizou, passando a disputar o Campeonato Estadual da Terceira Divisão. Acabou precocemente eliminado na primeira fase ao ficar em sexto lugar, entre oito participantes. No ano seguinte, passou a integrar a Segunda Divisão, visto que a verdadeira segundona se tornara Módulo “B” da Primeira Divisão. Portanto, a Terceira passou a se auto intitular Segunda Divisão numa das muitas mudanças de nomenclatura feitas até hoje de maneira atabalhoada e incompetente pela Federação. Também foi eliminado na primeira fase ao ficar na quinta posição em sua chave.

Em 1956, a antiga fábrica já havia sido adquirida por uma construtora e os novos donos não tinham o menor interesse na manutenção do clube. Portanto, uma disputa judicial entre o Confiança e os empresários se arrastou por quase 40 anos. Nesse ínterim, a quadra passou a ser alugada à escola de samba Acadêmicos do Salgueiro.

Aos poucos, com o crescimento do samba e a decadência do Confiança, a sede foi passando para as mãos do Salgueiro. No fim, a questão só foi resolvida, em 1993, quando o prefeito César Maia, em decreto, estabeleceu uma Área de Proteção Cultural alternativa ao tombamento. O Confiança, em crise, acabou extinto ao ceder sua filiação na Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro ao também já finado Barra da Tijuca Futebol Clube. A sua antiga sede atualmente abriga a Vila Olímpica do Salgueiro e a quadra da escola de samba. A arquibancada de madeira, construída em 1915, uma das primeiras do país, ainda permanece de pé.

A quem desejar obter a camisa do Confiança, inclusive no modelo de mangas compridas, pode contatar o Kléber através do whatszap 21 99791-5589. Graças a ele e a outros abnegados, o legado de históricas agremiações do passado se mantém vivo.

André Luiz Pereira Nunes é professor e jornalista. Na década de 90 já escrevia no Jornal do Futebol e colaborava com Almir Leite no Jornal dos Sports. Atuou como colunista, repórter e fotógrafo nos portais Papo Esportivo e Supergol. Foi diretor de comunicação do America.

Comente

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui