Graças aos notáveis esforços de Mário Calderaro, então presidente do Engenho de Dentro Atlético Clube, em 24 de agosto de 1936, foi fundada a Federação Atlética Suburbana em conferência realizada na sede da mencionada agremiação alvi-anil, campeã carioca, em 1925, pela Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT).

O projeto foi corroborado pelo experiente desportista Benedito Sarmento, o qual tivera marcantes atuações na crônica esportiva e como representante da Associação Atlética Suburbana, Liga Brasileira, Liga Metropolitana e outras entidades que impulsionaram o esporte menor na cidade do Rio de Janeiro. Sarmento, que granjeara grande simpatia nas rodas esportivas, morreria a 25 de junho de 1938.

Já o dinâmico Calderaro, residente à Rua Dr. Bulhões 77, tinha a intenção de reunir e valorizar os pequenos times, notadamente os do subúrbio da Central, que eram costumeiramente desprezados e excluídos pelas ligas que organizavam o futebol carioca. Seu clube, o Engenho de Dentro, sofria essa mesma segregação. Mesmo tendo se sagrado campeão da Sub Liga Carioca, em 1935, fora preterido no ano seguinte do certame principal da Liga Carioca de Football, criada dois anos antes, e precursora da profissionalização do esporte no Brasil.

“O meu clube sentiu-se ferido nos seus direitos a partir da escolha do Jequiá e da Portuguesa para figurarem no campeonato da Liga Carioca, visto que fomos campeões, em 1935, da Sub Liga, declarou na ocasião ao jornal O Imparcial”.

Engenho de Dentro AC, Del Castilho FC, Modesto FC (Quintino), CA Central (Engenho Novo), Adélia FC (Engenho de Dentro), Mavílis FC (Caju), Ríver FC (Piedade), SC Abolição, Magno FC (Madureira) e SC América (Lins de Vasconcelos) estiveram presentes na convenção inaugural. O Ramos FC também compareceu, mas por conta da repercussão do encontro, passou a fazer restrições quanto a sua participação. Segundo o seu presidente, Vitório Caruso, a adesão definitiva não se concretizaria, pois considerava que a reunião tinha apenas caráter preparatório. O motivo, no entanto, era bem outro. Por ser filiado à Liga Carioca, temia uma punição e a sua consequente desfiliação.

A assembléia, presidida por Calderaro, proclamou presidente da nova entidade Manoel de Oliveira Brandão Sobrinho, então mandatário e principal esteio do Del Castilho, falecido a 15 de julho de 1947. Entre os dirigentes fundadores, se encontravam presentes, além dos já mencionados, Victor Paolino, José Carvalho Barbosa, Manoel Afonso Lisboa, João Machado, Mário Natividade, Oscar Jacques, entre outros.

Participaram do certame: Ríver, Adélia, SC Oposição, Abolição, Del Castilho, Central, Magno, Modesto, Mavílis, Engenho de Dentro, SC Mackenzie e Argentino FC (Cascadura). O Modesto sagrou-se campeão do Torneio Início, disputado no campo do Ríver, na Avenida João Pinheiro, enquanto o Del Castilho foi o vice-campeão. Pelo Campeonato Suburbano, o SC Mackenzie, do Méier, foi o vencedor inaugural, enquanto o SC Abolição, o qual possuía campo na Rua Cantídia Maciel, no Largo da Abolição, por onde passavam os bondes de Cascadura e Engenho de Dentro, o segundo colocado.

Mário Calderaro era uma figura muito conhecida no subúrbio carioca. Além do Engenho de Dentro, presidira a Associação Comercial Suburbana e fora sócio do Vasco da Gama. Contava com apenas 39 anos, quando em 28 de janeiro de 1940, menos de um mês após assumir a presidência da Federação Atlética Suburbana, se encontrava presente ao campo da Rua Henrique Scheid para assistir a partida entre Adélia e Ideal, de Parada de Lucas. No momento em que o Adélia consignava o segundo tento, Calderaro deixou-se contagiar pela emoção, o que foi fatal para seu coração cansado de vibrar durante as competições esportivas. Socorrido imediatamente, foi levado a um automóvel, o qual rumou rapidamente para o posto de assistência do Méier, mas durante a viagem sobreveio a morte.

Quando planejava quatro anos antes fundar uma entidade nos moldes da Federação Suburbana, poucos foram os que acreditaram na sua realização. Mas contra todos os entraves, desavenças e descrenças, enfrentando os obstáculos que lhe antepunham, conseguiu tornar realidade o que constituiu um motivo de orgulho para o esporte carioca. Quis o destino que falecesse justamente em seu posto de honra e no mesmo local onde seu clube tivera seus maiores dias de glória.

Desfrutando de um largo círculo de relações, se impusera à admiração de todos pela sua dedicação e abnegação à causa das pequenas agremiações dos subúrbios. Com a sua morte, perdeu o esporte menor um dos seus mais abnegados defensores, um verdadeiro benemérito de sua causa. Hoje seu nome batiza uma rua no bairro no qual viveu e devotou a sua maior paixão: o futebol.

Quando assumiu a presidência do Engenho de Dentro encontrou a agremiação com 93 sócios. Deixou-a com mais de 400. Sobre a criação de uma entidade suburbana independente, Mário declarou ao Imparcial, em 14 de agosto de 1936:

“Sempre pensei na possibilidade, e porque não dizer francamente, na conveniência dos clubes menores se congregarem em uma entidade independente. Na minha opinião uma liga suburbana com clubes eficientes, disciplinados e bem dirigidos seria o ideal para o esporte menor. Regulamentos facilmente compreensíveis, 11 medalhas de ouro para os jogadores campeões e 11 de prata para os do segundo colocado. Taça de posse temporária ao vencedor e de posse definitiva para o clube que fosse tricampeão fariam sucesso”, ressaltou.

A existência da Federação Atlética Suburbana perduraria por apenas seis anos. O motivo de sua dissolução, em março de 1943, tinha relação com os critérios adotados pelo Conselho Nacional de Desportos (CND), os quais estabeleciam que apenas uma entidade deveria congregar clubes. Portanto, as equipes tiveram que solicitar adesão à segunda e terceira categorias da Federação Metropolitana de Futebol (FMF), presidida por Manuel do Nascimento Vargas Netto. O então presidente da Federação Suburbana, João Carlos Machado, figura proeminente do Ríver, passou a presidir a Segunda e Terceira Categorias de Amadores da supracitada entidade, sendo um dos artífices, em 1949, do histórico Departamento Autônomo, que congregou importantes equipes, como Campo Grande e Portuguesa, e revelou inúmeros talentos para o futebol brasileiro

André Luiz Pereira Nunes
André Luiz Pereira Nunes é professor e jornalista. Na década de 90 já escrevia no Jornal do Futebol e colaborava com Almir Leite no Jornal dos Sports. Atuou como colunista, repórter e fotógrafo nos portais Papo Esportivo e Supergol. Foi diretor de comunicação do America.

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