Há muito tempo que escrevo: futebol se ganha dentro e fora de campo. Toda e qualquer modalidade esportiva envolve um sem-número de interesses e maquinações de acordo com a realidade vigente. Quem vivencia principalmente os bastidores, está ciente de que o meio não é, nem nunca foi, composto e dirigido por virgens vestais. O futebol representa uma gigantesca indústria do entretenimento, à qual movimenta uma quantia incalculável de recursos e tudo isso desencadeia uma série de tentações. Por isso, existem enormes injustiças e discrepâncias, sobretudo no que tange à falta de reconhecimento oficial por parte das autoridades a títulos conquistados por clubes de menor prestígio e investimento.

A homologação da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Robertão, ao Campeonato Brasileiro causou polêmica na ocasião, mas foi muito bem-sucedida, haja vista que os vencedores são reconhecidamente times de massa, como Santos, Palmeiras e Bahia, cujas influências junto a órgãos federativos são bastante expressivas. Nota-se, entretanto, que o mesmo tipo de tratamento não é aplicado, por exemplo, aos detentores da extinta Copa dos Campeões Estaduais, disputada entre 1920 e 1937. Não seria válido considerarmos Paulistano e Atlético Mineiro os legítimos e primeiros donos de troféus nacionais? Não, para os cartolas do futebol brasileiro. Na verdade, os critérios de inclusão ou exclusão são meramente subjetivos, atendendo logicamente a interesses comerciais. No caso em questão, serve de justificativa o argumento furado de que aquele torneio era organizado pela hoje inexistente e, portanto inexpressiva, Federação Brasileira de Futebol (FBF). Seguindo essa premissa, determinadas competições foram rebaixadas a torneios  experimentais, isto é, uma categoria de caráter inferior que compromete qualquer tipo de validação. A situação é análoga à ocorrida ao pequenino, distante e escuro planeta Plutão, o qual em 2006 seria rebaixado pelos cientistas a planeta-anão, fato que provocou uma ira tão intensa, sobretudo dos astrólogos de plantão, que a decisão anos depois foi reconsiderada. 

Alguns vencedores de âmbito nacional, como o Grêmio Maringá, campeão inconteste do Torneio dos Campeões da CBD, em 1969, também aguardam sentados o reconhecimento. Para quem não sabe, esse certame foi composto pelos detentores da Taça Brasil, Robertão, Torneio do Norte-Nordeste e do Centro Sul. Tal competição inclusive visava vaga à Libertadores de 1970. Porém, a CBD optou posteriormente por não indicar clubes, alegando que poderia prejudicar a preparação da Seleção Brasileira para a Copa do México e assim, de quebra, arruinou o torneio. Vale frisar que a Libertadores não tinha o mesmo peso que hoje para os brasileiros. O país já boicotara duas edições, em 1966 e 1969, devido à discordâncias com relação ao regulamento, além dos costumeiros conflitos de datas. Portanto, não havia um critério classificatório definido, de modo que a organizadora buscava soluções criativas para nomear clubes para o tradicional torneio da Conmebol.

Dois importantes certames de importância nacional ocorriam quase que concomitantemente: a Taça Brasil, de 1968, fora decidida apenas em outubro de 1969, com vitória do Botafogo sobre o Fortaleza. Dois meses depois, o Roberto Gomes Pedrosa, o Robertão, foi vencido pelo Palmeiras. A CBF, herdeira da CBD, reconhece as duas competições como de envergadura similar a do Campeonato Brasileiro, embora nenhum dos regulamentos previsse classificação para a Libertadores. A solução foi então criar o Torneio dos Campeões da CBD, voltado para definir o representante brasileiro na competição sul-americana. Nada parecia ser realmente muito lógico naquele tempo. Tanto que os participantes eram todos vencedores de campeonatos referentes ao ano anterior.

O Grêmio Maringá, então campeão do Centro-Sul, se credenciaria a enfrentar o Santos, vencedor do Robertão, na semifinal. O primeiro jogo foi marcado para 10 de maio de 1969, cujo escore terminou em 1 a 1. Por falta de calendário por parte da equipe da Vila Belmiro, o cotejo de volta foi literalmente empurrado para 4 de abril do ano seguinte, havendo novamente a igualdade em 2 a 2. Como não houve vencedor, não restou à CBD outra alternativa, senão agendar uma partida extra para definir o adversário do Botafogo na decisão da competição. Como o time da Vila Belmiro estava com a agenda lotada, declinou do jogo extra, deixando ao Galo Paranaense o direito de enfrentar o Botafogo, que por ser o vencedor da Taça Brasil de 1968, tinha o direito de disputar a final da competição. No entanto, a CBD decidiu não enviar representantes para a Libertadores de 1970, alegando que o calendário da competição prejudicava a preparação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo. Os dirigentes de General Severiano, ao tomarem conhecimento desse lamentável episódio, perderam o interesse na briga pelo título, cabendo então à CBD reconhecer o time de Maringá vencedor por WO dos jogos finais e, por conseguinte, detentor do Torneio dos Campeões. 

Em resumo, o campeonato criado para dar vaga na Libertadores foi esvaziado a partir do momento em que a CBD decidiu boicotar a competição sul-americana. Sem o Santos, para decidir a semifinal, e o Botafogo, o qual seria o rival da finalíssima, o título, sem a mesma importância, cairia de bandeja no colo do Grêmio de Esportes Maringá, hoje ausente da esfera profissional. Lamentavelmente, em 2010, a CBF unificaria os títulos brasileiros desde 1959, mas excluiu totalmente o feito da equipe paranaense. Os dirigentes do Galo até ensaiaram entrar na justiça para reivindicar a conquista, a meu ver legítima, mas a ideia não encontraria eco nem mesmo entre os seus próprios dirigentes.

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