Lupercínio Sérgio Lima de Oliveira nos tempos de Botafogo (Foto: Reprodução)

Quem é paraense se lembra muito bem dos dois ponteiros do Paysandu nos anos 70 e 80: Evandro e Lupercínio. Entortavam qualquer lateral que se apresentasse. O futebol brasileiro ainda vivenciava o apogeu da alegria, criatividade e ofensividade. A retirada dos pontas representou o fim da mágica desse majestoso e popular esporte.

A morte precoce de Lupercínio Sérgio Lima de Oliveira, um dos grandes expoentes da história do Pará, em 2 de junho de 2010, aos 51 anos, vítima de cirrose hepática, entristeceu familiares, amigos e atletas que tiveram o prazer de desfrutar da sua convivência.

Lupa, como era conhecido entre os mais chegados, era veloz, exímio driblador e de cruzamentos precisos. Jogador leve e ofensivo, fizera enorme sucesso no Paysandu e Náutico, chegando ao Botafogo, em 1983, com status de ídolo e salvador da pátria. A própria negociação envolvendo a compra de seu passe, além de ter tido várias tentativas durante três anos, acabaria concretizada de forma polêmica. O atleta aparentemente havia acertado com o Vasco e vinha treinando em São Januário quando o Botafogo deu o bote e o levou para reforçar suas fileiras.

O Clube da Estrela Solitária, presidido pelo folclórico Charles Borer, vivenciava um longo e incômodo jejum de títulos que só findaria, em 1989, através do antológico gol de Maurício. Apesar de dispor de um bom elenco, em comparação com os dias de hoje, a época era conturbada e de vacas magras. A equipe, então comandada pelo experiente Zé Mário, contava com nomes como Nunes, o artilheiro das decisões, vindo por empréstimo do Flamengo, o meia Jérson, que retornara do Vasco, o goleiro Paulo Sérgio, que integrara a Seleção Brasileira, na Copa de 1982, e o volante Demétrio, campeão mundial de juniores, adquirido junto ao Campo Grande. Portanto, a aguardada chegada de Lupercínio gerava enorme expectativa por conta da torcida e dirigentes a ponto do Botafogo ter cedido ao Náutico os passes do zagueiro Zé Eduardo, do meia Ademir Lobo e do atacante Mirandinha, que anos depois se destacaria a ponto de chegar à Seleção Brasileira e ser o primeiro brasileiro a ser negociado ao futebol inglês.

Curiosamente, Lupercínio não conseguiu reeditar no Glorioso as ótimas atuações que tivera nos clubes antecessores. Em um ano, esquentou mais o banco do que atuou nas quatro linhas. Em determinadas ocasiões, chegaria a ser o terceiro reserva, abaixo do improvisado Té e do deslocado Édson. As contusões também atrapalharam bastante o seu rendimento. Para o técnico Zé Mário, faltou tempo para que o jogador se adaptasse a fim de render o que se esperava no futebol carioca.

Lupercínio em partida contra o Flamengo (Foto: Reprodução)

Ele tinha uma deficiência física muito grande para a posição. Além disso, o Botafogo não estava numa situação boa. Não havia quem pudesse ajudá-lo em campo e ele precisava desse suporte. Pensaram que ele iria resolver tudo, mas não era bem assim. Era muito talentoso, bom tecnicamente, mas em alguns aspectos deixava a desejar. Foi meu jogador também no Ceará, mas lá as coisas foram bem diferentes. O time era muito bom e as jogadas com ele fluíam de maneira muito melhor. O time do Botafogo era muito irregular. As coisas eram bagunçadas. Tive muito trabalho na organização e na disciplina”, declarou.

De acordo com o ex-meia Jérson, o fracasso adveio por conta das contusões que o impediram de se firmar entre os titulares. Com Sebastião Leônidas, o ponta até teve mais oportunidades do que com o comandante antecessor, mas as atuações não tiveram constância.

Após quase um ano de Botafogo e, já bem mais desvalorizado, Lupercínio se transferiria ao Fortaleza. Ainda passaria por times como Ceará, Ferroviário, Tuna Luso e o também cearense Tiradentes. Em alguns até conseguiu reviver grandes atuações, visto que é considerado até hoje um dos maiores ídolos da cruzmaltina paraense Tuna Luso, mas infelizmente jamais voltaria a atuar em um grande centro.

Seu fim infelizmente foi trágico, mas não muito diferente de uma grande parcela de atletas, que ao encerrarem a carreira, encontram na bebida uma espécie de compensação pelo fim dos pretéritos tempos de glória.

André Luiz Pereira Nunes é professor e jornalista. Na década de 90 já escrevia no Jornal do Futebol e colaborava com Almir Leite no Jornal dos Sports. Atuou como colunista, repórter e fotógrafo nos portais Papo Esportivo e Supergol. Foi diretor de comunicação do America.

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