Um menino pobre, negro e criado numa comunidade da cidade do Rio de Janeiro que sonhou em se tornar jogador de futebol. Essa é uma realidade recorrente de nove entre dez personagens que vivem nas favelas cariocas. Porém, um deles é real e chegou até a vestir a camisa da Seleção Brasileira. Seu nome: Paulo dos Santos Fernandes Filho, o Mongol.

Nascido no Jacarezinho, em 5 de fevereiro de 1968, tentou a sorte nas categorias de base do Botafogo, em 1984. Talentoso e de boa altura, o quarto-zagueiro logo foi convocado para seleções brasileiras amadoras.

Contudo, desde cedo, problemas familiares o atormentavam. O pai, alcoólatra, diariamente espancava as suas irmãs.

Após uma breve passagem pela Seleção Brasileira sub 20, em 1987, no Campeonato Sul Americano, na Colômbia, fez parte do memorável elenco do Botafogo, campeão estadual em 1989. A memorável conquista findou com o incômodo jejum de 21 anos sem títulos.

A situação, todavia, começou a mudar, quando numa excursão à Europa, foi acusado pelo vice de futebol Emil Pinheiro e por outros membros da comissão técnica de roubar pares de tênis de uma loja na Alemanha. A partir daí o relacionamento com o bicheiro acabou.

“Como se fosse só isso. Só aparecia para treinar quando seu contrato se aproximava do fim”, acusava o dirigente na época.

Sem ambiente no clube, acabaria emprestado ao América de Três Rios. Após jogar quatro partidas, sofreu um acidente de automóvel. A mais de 120km por hora, bateu numa mureta e caiu num barranco na BR 116, que por pouco não lhe custou a vida.

“Quase acabei com o mongomóvel (o Monza que ganhou de presente de Emil)”, declarou.

Os constantes sumiços de Mongol nos treinos fizeram os dirigentes do Alvirrubro Trirriense devolvê-lo ao Botafogo.

“Aqui ele não joga mais. Já lhe dei mais de 10 oportunidades. Quem quiser seu passe, é só depositar Cr$ 2 milhões na Federação”, ratificou, na ocasião, Emil à imprensa.

Sem saber das intenções do patrão, Mongol, que ficou quatro meses sem receber salários, ainda tentou, em vão, sensibilizar o treinador Valdir Espinoza ou reduzir o preço de seu passe para que ele próprio pudesse comprá-lo.

“Está colhendo tudo o que plantou. Arrume um clube para treinar e ainda poderá se recuperar.” Foi o máximo que ouviu do amigo e auxiliar-técnico Gil.

Bem mais magro, mas, como sempre, impecavelmente vestido, Mongol tentou novo contato com Emil Pinheiro, porém foi proibido até de entrar no vestiário do Maracanã.

Estou com fome. Um dente meu já caiu, vendi o carro e o dinheiro acabou. Tenho vivido com o apoio da família, mas confesso que já penso seriamente em viver de outras paradas fora da lei, fazendo uns ganhos.”

De fato, fora despejado do apartamento que Emil alugara no Cachambi. Para Mongol, a vida teria que recomeçar do zero, mas não foi bem isso o que aconteceu.

Sua vida nunca foi fácil. As dificuldades do dia a dia nunca lhe permitiram terminar a sexta série do primeiro grau. Na infância foi lixador de cadeiras. Sempre desejou ser jogador de futebol. Treinou no America e na Portuguesa, mas foi por intermédio de Ferreti, que chegou ao Botafogo. Passou um ano no juniores até ser promovido pelo técnico Joel Martins. Na época de sua promoção houve uma tragédia familiar. Sua mãe havia se suicidado.

Sem a menor esperança de retorno aos gramados, seu destino enveredou, de fato, para a criminalidade. Em 1997, o ex-zagueiro, grande promessa da base do Botafogo e da Seleção Brasileira, foi assassinado no Jacarezinho em circunstâncias até hoje não esclarecidas.

O pesadelo de Mongol é similar ao de milhões de crianças desestruturadas, sem qualquer apoio estrutural e psicológico para lidar com as questões mais práticas da vida. Essa dura conjuntura, altamente excludente, representa um imenso manancial de desperdício humano que sempre vigorou no Brasil.

Mongol pode não ter deixado muitas saudades no torcedor alvinegro, mas ninguém o apagará da história e nem do poster do Glorioso, campeão estadual em 1989. Seu legado ainda revive no desejo diário de milhões de meninos que almejam se tornar ídolos do futebol.

André Luiz Pereira Nunes é professor e jornalista. Na década de 90 já escrevia no Jornal do Futebol e colaborava com Almir Leite no Jornal dos Sports. Atuou como colunista, repórter e fotógrafo nos portais Papo Esportivo e Supergol. Foi diretor de comunicação do America.

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