Imaginem a seguinte situação. O príncipe de um pequeno país do Oriente Médio se rebela contra a decisão da arbitragem, abandona as tribunas onde assistia ao jogo e resolve invadir o campo juntamente com seus guarda-costas para pressionar o juiz e fazer com que o mesmo volte atrás e invalide um gol assinalado pela equipe adversária. O fato poderia ser retirado de um filme de comédia, mas aconteceu de verdade. E não foi em um torneio amador ou nas divisões inferiores do combalido Campeonato Estadual do Rio de Janeiro. O palco dessa cena pitoresca, impensável e bizarra abrigava simplesmente a maior competição futebolística do planeta: a Copa do Mundo.

Fahad Al Ahmad Al-Sabah, príncipe do Kuwait, realizou o impossível: anular um gol legítimo contra seu país em pleno Mundial de 1982. O acontecimento foi durante a partida entre França e Kuwait, em Valladolid, pela segunda rodada da fase de grupos. Os europeus já venciam por 3 a 1 quando, aos 27 minutos da segunda etapa, Giresse assinalou mais um. O lance, embora inteiramente normal, provocaria intensa revolta dos árabes, os quais alegaram que o atacante rival estaria em posição irregular, pois tinham escutado um apito. Uma grande confusão se formou dentro do campo. Al-Sabah então desautorizou que a seleção do Kuwait retornasse à partida, surpreendendo inclusive o próprio técnico, o brilhante Carlos Alberto Parreira.

O xeque, que assistia a tudo atentamente, era o presidente da federação de futebol, e levou a reclamação muito a sério. Imediatamente desceu ao campo para conversar pessoalmente com o árbitro Miroslav Stupar, da União Soviética. O dirigente argumentou que os jogadores de sua seleção desistiram da jogada que resultou no gol de Alan Giresse após ouvirem soar um apito, provavelmente proferido das arquibancadas e, por conta disso, seus jogadores acreditaram que se tratara de um impedimento. 

Irmão caçula do Emir do Kuwait, militar formado na Royal Military Academy Sandhurst, do Reino Unido, o polêmico Al-Sabah sempre amou o esporte. Fundara o Comitê Olímpico de seu país e presidira quase todas as associações esportivas de sua pequena nação como a de tae kwon do, boxe, caratê, handebol, esportes náuticos, remo e, obviamente, o futebol. Foi ainda dirigente da Federação nos Jogos Asiáticos, do Conselho Olímpico de seu continente, da União Esportiva Árabe, do COI e fundador da União Geral de Esportes da Ásia. Viajava o mundo comandando as delegações em quaisquer que fossem os esportes e competições. 

Mas foi realmente na Copa do Mundo da Espanha que ganhara fama mundial. A TV distribuiu a sua imagem para quase duzentos países quando, inadvertidamente, no melhor estilo Eurico Miranda, adentrou ao gramado e convenceu Miroslav Stupar a anular o tento contra o seu amado Kuwait. “Ou você invalida o gol, ou eu retiro o Kuwait da Copa do Mundo”, ameaçou. Curiosamente o juiz assentiu ao pedido e a marcação foi irremediavelmente anulada. A decisão, porém, seria fatal para o árbitro ucraniano, o qual jamais pôde continuar a apitar internacionalmente. Além de barrado dos quadros da FIFA, fôra suspenso da função pelo resto de sua vida. Coube, no entanto, ao príncipe, um dos homens mais ricos do mundo, apenas pagar uma módica multa de 8 mil dólares e ser perdoado. Contudo, desde então, o time do Oriente Médio jamais voltaria a se classificar para uma Copa do Mundo.

Vale ressaltar que o Kuwait, estreante na competição, dias antes havia empatado com a Tchecoslováquia e perdido apenas por 1 a 0 para a fortíssima Inglaterra. Por isso, o cotejo contra os franceses era de extrema importância e responsabilidade para o destino da equipe no torneio. 

Todavia, nem sempre o dinheiro salvaria a pele do poderoso dirigente invasor de gramados e anulador de assinalações. Oito anos mais tarde, sua roda da fortuna giraria para o lado oposto. De invasor, passaria a invadido. Em agosto de 1990, o vizinho Iraque, de Saddam Hussein, usurpou o Kuwait, no começo da chamada Guerra do Golfo. Apenas 100 mil soldados foram suficientes para subjugar 16 mil defensores. O irmão de Al-Sabah, dirigente máximo do país, deu logo no pé, deixando o príncipe, então com 45 anos, para defender o Palácio. Quis o destino que dessa vez o xeque não conseguisse convencer absolutamente mais ninguém. Acabaria impiedosamente morto a tiros e seu cadáver arrastado por um tanque T72 iraquiano. 

O seu legado, entretanto, não se extinguiu com ele. O filho mais velho, Ahmad, a maior autoridade do exército, foi ministro das Informações e do Petróleo, a maior renda da nação. Ainda é presidente do Conselho Olímpico da Ásia e já treinou a seleção de futebol. O segundo filho, Talal, dirige a Federação de basquete. O terceiro, Athbi, pratica tiro. O quarto, Khaled, é vice-presidente da Federação Nacional de Futebol. E finalmente o caçula, Dari, é o mandatário do Clube Hípico e de Caça. Não há, porém, registros de que qualquer deles tenha invadido uma praça esportiva para contestar qualquer decisão de arbitragem.



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