Não é totalmente falsa, tampouco totalmente verdadeira a premissa de que o Vasco, em 1923, encampou uma cruzada contra o racismo no futebol carioca. Em realidade, a luta dos cruzmaltinos foi a favor dos pequenos clubes contra as regras vigentes da Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) que impediam que os jogadores exercessem outra atividade que não fosse o futebol. É necessário frisar que o esporte nesse tempo era exercido pela aristocracia. Portanto, a profissionalização ainda não era aceita pelos dirigentes. Consequentemente, essa restrição atingia os mais pobres, notadamente os negros, que precisavam trabalhar em outras atividades para garantir a sobrevivência diária.

Na famosa Assembléia Geral, que culminou com a cisão do futebol carioca, o discurso de Barbosa Júnior, representante do Sport Club Mackenzie, provando o racismo dos clubes grandes, desmoralizou os dissidentes. Como então salvar a situação perante os revoltados desportistas? Durante o encontro, Mário Pólo, do Fluminense, confabulou com Ari Franco, esse mesmo que hoje dá nome ao presídio, e que era representante do Bangu. Ambos se retiraram para uma sala ao lado. Quando retornaram, Mário Pólo pediu a palavra e disse:

São falsas as insinuações do representante do SC Mackenzie, Barbosa Júnior, declarando que os grandes clubes têm o propósito de afastar os homens de cor da Liga. Agora mesmo o representante do Bangu acaba de aderir ao nosso movimento e se trata de um clube proletário que contém homens de cor.”

Ninguém acreditou nas palavras do representante tricolor, pois antes dos entendimentos com Ari Franco os chamados jogadores de cor do Bangu também estavam na lista negra da Liga. Portanto, em 7 de abril de 1924, o presidente do Vasco, José Augusto Prestes, dirigiu um ofício a Arnaldo Guinle, do Fluminense, declarando com grande elevação e respeito que seu clube não tinha interesse em pertencer à Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA), pois acima de tudo colocava a dignidade de seus jogadores, jovens brasileiros, no começo de sua carreira esportiva, campeões da cidade, que com sacrifício e brilho, honraram o pavilhão vascaíno.

Em 1924, a cidade então contou com duas ligas. Pela entidade oficial, a Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT), o Vasco sagrou-se campeão, cabendo a última posição ao Palmeiras. Na entidade dissidente o campeão foi o Fluminense e o último colocado foi o SC Brasil. Essa cisão durou apenas um ano. Em 1925, através da intervenção de Oscar da Costa, diretor do Jornal do Comércio, formou-se a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA), constituída por dez clubes: Flamengo (campeão), Fluminense (vice-campeão), Vasco, Botafogo, America, São Cristóvão, Bangu, Sírio e Libanês, Helênico e Brasil.

A atitude do Vasco, assumida pelo presidente José Augusto Prestes, acabou com esse tipo de racismo e outros preconceitos. Em 1924, o Gigante da Colina detinha uma modesta praça de esportes localizada na Rua Morais e Silva, próxima ao Colégio Militar, na Tijuca. No mesmo ano os cruzmaltinos iniciaram a campanha financeira para a construção do estádio de São Januário e, em 1926, foi iniciada a grande praça de esportes, inaugurada no ano seguinte.

André Luiz Pereira Nunes é professor e jornalista. Na década de 90 já escrevia no Jornal do Futebol e colaborava com Almir Leite no Jornal dos Sports. Atuou como colunista, repórter e fotógrafo nos portais Papo Esportivo e Supergol. Foi diretor de comunicação do America.

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