Entre 2009 e 2014, pela primeira vez, tive o imenso prazer de conciliar as minhas atividades jornalística e docente em uma simbiose, que só não era perfeita porque os dois lados sempre competiam para ver quem se saía melhor financeiramente.


Estando lotado pelas manhãs em uma escola pública do então recém-emancipado município de Mesquita, aproveitava o restante do dia para percorrer campos de futebol na imensidão da Baixada Fluminense.


Inúmeras missões empreendi a diversos bairros e localidades na cobertura de jogos e eventos, chegando mesmo às paragens mais recônditas.

 
Certa feita, enquanto me destinava ao campo do Tomazinho Futebol Clube, em São João de Meriti, fui interpelado no caminho por dois sujeitos que me indagaram aonde pretendia me dirigir. Respondi-lhes que desejava chegar à praça de esporte mencionada e que o presidente da agremiação então me aguardava. Um deles, portanto, me indicou, sem que eu necessitasse, a direção correta, não sem antes me advertir que tomasse cuidado. O local era perigoso. Entendi perfeitamente que se tratava de uma ameaça velada. Ambos me assaltariam se eu não tivesse conhecidos na área. Minha impressão foi corroborada pelo presidente do clube, um policial, ao tomar conhecimento do meu relato. 


Findado o encontro, aproveitei a deixa para conhecer outra praça de esportes, localizada em Vila Tiradentes, a do Coqueiros Futebol Clube, associação muito tradicional na cidade. Lá chegando, me deparei com um grupo que bebia e fazia churrasco. Me apresentei como jornalista e pesquisador, sendo logo convidado a me juntar a eles. Logo reparei que havia exposta nas dependências uma imagem da entidade afro-brasileira Zé Pelintra. Apesar da visão me ser familiar, pois tenho sólidas raízes na umbanda e no candomblé, inclusive com trabalhos publicados na área, considerei exótica, ou no mínimo insólita, aquela exposição. Obviamente, perguntei aos circunstantes o porquê daquela imagem estar presente e me responderam que pertencia a um dos diretores que se encontrava preso naquele momento.


As coberturas esportivas em Japeri eram as que me despertavam mais adrenalina. A verdade é que ia aonde ninguém desejava e isso sobremaneira me motivava. Nesse local específico só se podia chegar através de moto-táxi, o qual percorria uma estrada de terra totalmente esburacada. Foi a minha primeira experiência na garupa de uma motocicleta. Me senti realmente em um rali.


A via ainda servia para desova de carros e cadáveres. Após percorrê-la praticamente por inteiro, enfim aportei em meu destino. Porém, não demoraria para que descobrisse algo bastante interessante. Quando algum jogador, obviamente, sem nenhum talento, isolava a bola para fora do estádio, esta ia parar num pântano repleto de jacarés. Já havia inclusive um gandula indicado para a arriscada tarefa do recolhimento. Ao perguntá-lo se não sentia medo de lidar com esse perigo, o rapaz foi extremamente taxativo ao responder-me que os répteis já o conheciam. Estavam habituados a ele. Portanto, não havia o menor perigo.


Uma outra estranha situação vivenciei na localidade de Austin, em Nova Iguaçu. O local também era inóspito e de difícil acesso. Apesar disso, fui extremamente bem recepcionado pelos anfitriões, pois geralmente minhas visitas já eram previstas. Ao sentar-me para conversar com alguns conhecidos, entre os quais, o árbitro do jogo, ouvimos um sujeito atrás de nós dizer a um outro que “quase tinha matado mais um naquele dia.”


Em se tratando de Brasil, o jornalista esportivo necessita ser tão destemido quanto o repórter policial. Por sorte, jamais tive subtraídos os meus equipamentos, apesar de percorrer os locais mais remotos e perigosos. O compromisso com a notícia e seus leitores é algo que sempre norteou o meu trabalho.

André Luiz Pereira Nunes é professor e jornalista. Na década de 90 já escrevia no Jornal do Futebol e colaborava com Almir Leite no Jornal dos Sports. Atuou como colunista, repórter e fotógrafo nos portais Papo Esportivo e Supergol. Foi diretor de comunicação do America.

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