Jorge Roberto da Costa Machado, 35 anos, atualmente morador da Rocinha, nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, mas tem batalhado sua sobrevivência no Rio de Janeiro desde o ano de 2016.

Convidado por um empresário do ramo de residenciais, que conheceu trabalhando como garçom no parador de praias P12 em Jurerê Internacional (SC), Jorge Machado, chegou na cidade com a oferta de um emprego garantido em um dos empreendimentos de propriedade desse contato, em Santa Teresa, porém, logo após os jogos olímpicos, o número de turistas diminuiu e ele acabou tendo dificuldades financeiras alavancadas por atrasos em sua remuneração.

Nesse momento, Jorge Machado resgatou em sua memória afetiva uma referência que lhe foi apresentada por Dona Erani, sua mãe, e que lhe proporcionou desde cedo uma grande satisfação: o trabalho em confeitaria.

Jorge Machado, então decidiu fazer os doces que aprendeu em sua cidade natal, ainda quando criança e com a cara e a coragem dirigiu-se aos Arcos da Lapa e, logo, conquistou o paladar dos clientes. Pesquisando a cidade, acabou por decidir, ter o bairro do Leblon como seu local para faturar, já que conseguiu também por lá uma excelente aceitação de suas guloseimas.

Nesse período, sua ex-companheira acabou também transferindo-se para o Rio de Janeiro, acompanhada do filho, fruto da união com Jorge Machado. Feliz com o rumo que sua vida tomava, ele chegou a fazer planos de aumentar a produção de seus doces, com a ajuda de sua ex-mulher. Porém, os mesmos não foram adiante, tendo em vista que não estavam alinhados com o pensamento de sua parceira do passado.

Jorge Machado acabou por entregar a ela suas economias para que retornasse ao sul, acreditando que conseguiria repor essa receita, porém as vendas não foram as esperadas e sem dinheiro, ele acabou tendo que entregar o imóvel alugado e acabou por ter que viver nas ruas da cidade.

Nessa amarga realidade, vivenciada por dois anos, Jorge Machado intensificou sua fé e graças a compaixão e a dedicação de muitos abnegados que atuam em diversos programas sociais, ele conseguiu apoio financeiro para alugar um espaço para morar e trabalhar, assim como a doação de insumos para produção de seus doces e até maquinários próprios para essa ação.

Dessa forma, Jorge Machado se reencontrou com a dignidade de ser um cidadão ativo e respeitado na sociedade, retirando do seu trabalho a força transformadora.

Bombom de uva, morango com leite de condensado, brigadeiro de churros, brigadeiro tradicional, quindim tradicional e de nozes, copinhos de chocolate recheados, tortinha de limão, trouxinha de nozes, são algumas opções elaboradas por Jorge Machado que vem conquistando cada vez mais consumidores, que sem medo de ser feliz, degustam essas delícias, o que fez, inclusive durante a pandemia, que sua produção aumentasse consideravelmente.

“Como as pessoas estavam em casa, em quarentena e a ansiedade era muito maior, isso acabou levando as pessoas a comerem mais… então, para quem trabalha com alimentos foi uma oportunidade mais aquecida… quando uma cliente postou fotos dos meus doces em um grupo do condomínio que morava, aí os pedidos não pararam.”, conta Jorge Machado.

Com os impedimentos de restrição às praias, Jorge Machado, acabou intensificando sua comercialização on line, por encomendas pelas redes (@bondicome). Porém quando é possível, ele também marca presença com suas vendas pelo trajeto dos postos 10 a 12, no Leblon, onde é conhecido como “pikchocolate”.

Os clientes do Jorge Machado, ainda recebem, além de doces saborosos, rimas musicadas, raps contagiantes, que animam o ambiente, que tanto aprecia, emoldurado pela beleza natural que oferece aos seus moradores e visitantes e dos próprios cariocas, que ele admira por sua externalização da paixão pela cidade.

Para seu futuro, ele pensa em expandir seu negócio e criar uma verdadeira rede do bondicome, inclusive com um espaço físico no Largo da Carioca, usando como meio de exposição para vendas – em formato de bondinho – um dispositivo elétrico, já em conformidade com os preceitos da sustentabilidade.

A escolha inicial do Largo do Carioca se justifica por concentrar um grande grupo de moradores de rua, pois sabe que sua presença pode servir de inspiração e estímulos para que outras pessoas sigam seus passos.

 A expansão do seu negócio visa, também, um caráter social, já que ele pretende dar oportunidades de trabalho a essas pessoas, assim como um local seguro e digno de morada.

Além disso, Jorge Machado, avisa: “vou acostumar meu público a usar álcool gel pra receber o doce direto na mão!! Assim vou conseguir retirar o plástico e embalagens que agridem a natureza.”

Jorge Machado venceu a invisibilidade e hoje faz do seu próprio exemplo vitrine para que tantas outras pessoas consigam derrubar essas cortinas que acabam por impedir enxergar as mazelas de milhares de pessoas que estão ali, à nossa frente, mas que em muitas vezes não avistamos, de forma mais generosa e solidária.

Já que cada um, que está nessa situação de vulnerabilidade, tem histórias, motivos e angústias, e o que precisa é justamente uma oportunidade, uma mão que os acolha e lhes permita um novo recomeço.



Toda manhã o resumo do Rio de Janeiro

Andréa Nakane
Andréa Nakane é carioca, apaixonada pela Cidade Maravilhosa, relações públicas, professora universitária, Doutora em Comunicação Social e Mestre em Hospitalidade.Embaixadora do RJ. Vive há 20 anos em Sampa e adora interagir com pessoas singulares que possam gerar memórias afetivas construtivas.

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