Andréa Nakane: Ele é paulistano, mas seu coração o fez carioca

Colunista do DIÁRIO DO RIO conta a história do icônico e saboroso biscoito Globo

Biscoito Globo, 67 anos, paulistano, mas cresceu e vive como patrimônio do Rio de Janeiro, tornando-se há muito um verdadeiro atrativo da cidade. No imaginário dos turistas, visitar o RIO e não degustar um pacote de biscoito Globo, acompanhado de seu fiel parceiro, um chá erva-mate geladinho, seria como ir ao Vaticano e não visitar a sacada do Papa na Praça São Pedro.

A história do biscoito Globo por si só evoca o empreendedorismo sagaz e ele posiciona-se como uma das mais tradicionais marcas alimentícias nascida em solos cariocas, porém com inspiração em Sampa, já que sua receita veio diretamente do tradicional bairro da zona sul de São Paulo, o Ipiranga.

O ano de sua criação foi 1954, com a iniciativa dos irmãos Milton, Jaime e João Ponce, que trouxeram a ideia para a cidade após aprenderem todo o processo de elaboração dos biscoitos com parte de seus familiares, proprietários de uma padaria na capital paulista.

Os irmãos ao retornarem ao RIO aproveitaram da realização de um evento cristão na cidade para testarem se a receita simples de polvilho salgado atrairia o gosto da população. Ao perceberem que a aceitação foi muito boa, os irmãos decidiram investir, ainda como empregados de uma padaria, chamada Globo, sendo a mesma a inspiração para o batismo dos biscoitos que logo tornaram-se alvos de consumo, inicialmente somente nos pontos de vendas pertencentes ao proprietário do estabelecimento no qual eram funcionários. E a data de inserção desse produto no cotidiano carioca foi o ano de 1955.

A demanda foi aumentando e em 1963, os irmãos Ponce se aliaram ao português Francisco Nunes Torrão, especializado em panificação, surgindo, então, a empresa Panificação Mandarino, que até hoje, mantém toda a produção e distribuição do produto pelo Rio e até, mais recentemente para outros estados. Hoje, o Globo está até mesmo inserido na gama de comercialização do empório Casa Santa Luzia, em São Paulo, um dos locais de maior prestígio no que diz respeito a venda de produtos alimentícios, nacionais e importados, ao preço de R$ 5,50.

Nesse caso, a embalagem é de plástico, para manter a característica crocante do produto por maior tempo, o que aumentou o prazo de validade do produto de 4 quatro dias para três meses, e assim, podendo ficar disponíveis em mercados, além dos seus tradicionais pontos de venda, mais longe da localização de sua distribuição.

A venda diária dos biscoitos Globo em sua embalagem de papel, de 30 gramas, na baixa temporada, alcança números entre 5.000 e 7.000 unidades, sendo que no auge do verão esse número chega a dobrar. Seu crescimento tem como um dos principais pilares a venda direta para ambulantes que fazem diariamente fila na porta da padaria no centro da cidade, para adquirir os pacotes com produção fresquinha, já que os biscoitos não tem nenhum tipo de conservante, corante ou antioxidante. Estes ambulantes acabaram tornando-se verdadeiros embaixadores da marca.

Em 2020, a empresa viu seu faturamento despencar em função da pandemia do coronavírus, sobretudo porque seu principal mercado consumidor, localizado nas praias cariocas, manteve-se fechado à circulação e usufruto da população. A fábrica foi inclusive ameaçada de fechamento total, o que na época gerou uma verdadeira comoção, já que rumores de uma possível descontinuidade do produto símbolo da cidade ganhou força nas redes.

Em 66 anos de existência, foi a primeira vez que tivemos que diminuir drasticamente a produção, já que nosso carro-chefe é o biscoito vendido nas embalagens de papel, revendido nas ruas e nas praias. Como ninguém saía de casa e a praia estava proibida, não tivemos para onde correr”, disse Marcelo Ponce, herdeiro da família proprietária da marca.

A AMBEV, por meio de sua marca Antarctica, inclusive realizou uma ação colaborativa para ajudar a sobrevivência dos vendedores do Biscoito Globo, por meio de compras de lotes do produto disponibilizando-o na sua plataforma própria de entregas, a Zé Delivery. Como parte da ação da cervejeira, todo o lucro que foi arrecadado foi revertido para os ambulantes cariocas e ampliou a percepção da marca, já tão carinhosamente presente por tantas gerações. Foram adquiridas 15.000 embalagens, fato que realmente ajudou a toda a cadeia de comercialização do biscoito Globo.

Muitos perguntam-se, até hoje, o que que o biscoito Globo tem para tanto e longevo sucesso. Afinal é um biscoito de polvilho azedo, à base de ovos, leite, água e gordura de coco,  sem glúten, com apenas 135 calorias, disponível nas versões, salgada – com maior saída –  e doce, que não guarda mistério, mas que até hoje tem sua receita guardada a sete chaves.

Seu rótulo não está apenas em suas embalagens próprias, mas também está estampado em bolsas, camisetas, cangas, chaveiros e outras lembranças que são vendidas por toda parte, pois é também um ícone pop e fashion da cidade, fato que envaidece muito a gestão familiar que mantém o prumo da empresa. O biscoito Globo tem até biografia, intitulada “Ó, o Globo! – A história de um biscoito”, de Ana Beatriz Manie.

Além disso, desde 2012, o biscoito, foi declarado como patrimônio cultural e imaterial do Rio, demonstrando toda a sua ligação com a cidade.

Em 2016, uma reportagem do The New York Times criticou essa nossa iguaria típica e os internautas não perdoaram e demonstraram todo seu apoio e afeto ao biscoito Globo, fazendo a hashtag #somostodosbiscoitoglobo alcançar uma audiência mundial.

O biscoito Globo, mesmo tendo sua origem paulistana, encontrou nas ambiências cariocas um acolhimento perfeito, um verdadeiro match de características, que reforçou o carioca way of life, que engloba simplicidade, tradição, descontração e muita bossa.

Vocês topam um desafio?

Segundo a empresa, seus funcionários levam cerca de 8 segundos para colocar nove biscoitos dentro do saquinho de papel e dar a dobradinha nas laterais.

Em quantos minutos você devora um saco de biscoito Globo?

Eu não cronometrei… mas é rapidinho… já de olho no próximo saquinho… já que um é salgado…e  outro é doce.

Assim como é difícil para turistas visitarem o RIO uma só vez… é também árduo se contentar com uma só embalagem do biscoito Globo, tão carioca quanto qualquer um de nós, que ama nossa cidade.

Biscoito Globo é coisa boa e nossa, sim!!!!

Andréa Nakane é carioca, apaixonada pela Cidade Maravilhosa, relações públicas, professora universitária, Doutora em Comunicação Social e Mestre em Hospitalidade.Embaixadora do RJ. Vive há 20 anos em Sampa e adora interagir com pessoas singulares que possam gerar memórias afetivas construtivas.
Advertisement

3 COMENTÁRIOS

  1. História maravilhosa! Só tenho uma crítica a fazer. O site ao lermos o conteúdo toda hora sobe e muda de posição, saindo de onde você estava lendo, ou seja, o layout do mesmo ou algum BUG está tornando a leitura desagradável, de modo que vc tem que corrigir a posição da página e isso há todo momento. Vou ser sincero, não li toda a matéria por ser cansativo e desagradável a experiência. Procurem alguém especializado nisso, pois está horrível ler as matérias dessa forma.

  2. Só falou lembrar que a panificação ficava na rua são clemente em Botafogo próximo a esquina da Nelson Mandela com o crescimento a produção foi pra uma fábrica no centro do Rio… A demanda era tanta nos anos 2000 que os abulantes faziam filas intermináveis na madrugada pra poder comprar no atacado…..

Comente

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui