Andréa Nakane: O Luxo do Lixo

Colunista do DIÁRIO DO RIO fala sobre Oséias da Mata Santos, que em função como gari, despertou seu olhar na triagem do lixo com o intuito de transformar o que era desprezado em verdadeiras concepções artísticas

Oséias da Mata Santos, 50 anos, é natural de Nova Iguaçu, morador de Belford Roxo e em função de sua atividade profissional como gari, despertou seu olhar na triagem do lixo, com o intuito de transformar o que era desprezado em verdadeiras concepções artísticas, nas quais a beleza e sensibilidade imperam.

“O lixo pode ser nada para alguém que o descarta, porém para outra pessoa o mesmo pode ser um verdadeiro luxo. Eu mesmo, já coletei uma televisão, que estava danificada, encaminhei para uma assistência técnica e o aparelho voltou a funcionar, oferecendo muitas alegrias para minha família.”, declara Oséias da Mata.

Oséias da Mata sempre gostou de arte, desde criança, e dedicava seu tempo livre para desenhar, pintar, fazer peças de barro, entre outras atividades. Sua mãe ao perceber tal nato talento, até tentou inscrevê-lo em um curso, mas as condições financeiras da família não permitiram tal ação.

Ao crescer, Oséias da Mata, chegou a servir o exército e depois conseguiu uma oportunidade na Companhia Municipal de Limpeza Urbana – COMLURB – empresa que está vinculado há 17 anos.

E foi exatamente nesse local de trabalho que a atenção de Oséias da Mata, foi despertada para o reaproveitamento do lixo, tornando-o matéria prima de suas obras, principalmente após ter sofrido um acidente, que o impossibilitou de trabalhar nas ruas, passando, então, a integrar a equipe de serviços internos da companhia.

Nos fins de semana e feriados, Oséias da Mata aproveitava os materiais doados ou descartados na coleta seletiva para criar peças inusitadas, como um quadro de uma águia feito com penas formadas por pequenos retalhos de couro recortados, um autorretrato com tintas e barbante, todos com reaproveitamento de telas descartadas.

Oséias da Mata, já contabiliza cerca de 16 obras com a sua assinatura e seu principal propósito hoje é levar por meio de sua arte, a mensagem da sustentabilidade, da reciclagem e da maior consciência no trato com o meio ambiente.

Atualmente, Oséias da Mata, está expondo em um espaço cultural, gerido pela própria COMLURB, O Galpão das Artes, no projeto intitulado Resíduos Enquadrados, com entrada gratuita, e que pode ser visitado até o dia 10 de setembro.

O Galpão das Artes fica na Avenida Padre Leonel Franca, s/n, na Gávea, debaixo do Viaduto Lagoa-Barra. A exposição pode ser apreciada de segunda a sexta-feira, das 10h às 16h.

Oséias da Mata acredita que as autoridades precisam olhar de forma mais contundente para a cultura, trabalhando no fomento de atividades artísticas, sobretudo em regiões, nas quais há ainda uma maior dificuldade de acesso às práticas de entretenimento e lazer, já que ele acredita no potencial edificante que as artes de uma forma geral podem gerar na sociedade, colaborando para a formação de cidadãos mais sensíveis, solidários e éticos.

Sem dúvida alguma, cultura e sustentabilidade são elementos vitais para a plena existência humana, e toda e qualquer iniciativa que tenha esse foco, será sempre muito bem-vinda e merecerá sempre ter apoio e reconhecimento social.

Parabéns a Comlurb por acolher – de forma responsável e incentivadora – o trabalho do Oséias da Mata e por permitir que sua arte esteja disponível para contemplação e reflexão de todos nós.

Que tenhamos mais ações como essa em nossa cidade.

Andréa Nakane é carioca, apaixonada pela Cidade Maravilhosa, relações públicas, professora universitária, Doutora em Comunicação Social e Mestre em Hospitalidade.Embaixadora do RJ. Vive há 20 anos em Sampa e adora interagir com pessoas singulares que possam gerar memórias afetivas construtivas.
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