Francisco de Canindé Gentil Vieira, conhecido como Chicão, 77 anos,  não nasceu em terras cariocas, tinha sangue amazônico, mas precisamente oriundo de Santarém, no Pará, mas seu coração pulsava freneticamente pela cidade do Rio de Janeiro.

Conheceu a cidade ainda jovem, moleque, e se apaixonou pela atmosfera vibrante que o RIO emana. Com familiares, moradores da cidade, suas férias com frequência eram seduzidas para desembarcar em Copacabana, local que unia, em um ambiente cosmopolita,  praia, sol e gente bonita.

Foi amigo do lendário showman, Carlos Miele, e com ele conheceu o mundo artístico do RIO, transitando pela cultura em seu auge dourado. Aliás, Chicão era um dos homens mais cultos que conheci, sem arrogâncias e prepotências. Era despojadamente virtuoso no piano, profundo conhecedor e apreciador de Artes, além de ter o dom de lidar com maestria com as palavras. Poderia – sem dúvida alguma – ter enveredado pela carreira artística.

Chegou a ter uma experiência meteórica como modelo nas décadas de 60/70, sendo batizado de um dos meninos do RIO, fato que o envaidecia e o deixava com um certo orgulho por ter dito seus cinco minutos de fama como um pseudo carioca… no seu caso… parioca, assim como Leila Pinheiro e Milton Cunha, que por aqui já apareceram!

Chicão formou-se em biologia, porém, por agradáveis surpresas da vida, despertou seu interesse pela área de Turismo, quando ingressou na primeira turma do curso de turismo da antiga Faculdade Anhembi Morumbi, tornando-se assim um dos profissionais pioneiros com formação específica na área, no início da década de 1971.

Chicão abandonou os laboratórios e dedicou-se exclusivamente ao turismo de negócios, por meio da realização de grandes eventos técnicos, científicos, culturais e corporativos. Tal fato o fez ser proprietário de duas empresas conceituadas na área, com sede em São Paulo.

Durante anos, Chicão conciliou sua carreira entre o mercado e a educação superior. Porém a partir do início do século XXI, decidiu integralmente vivenciar a vida acadêmica e ampliou sua horas de docência e posteriormente assumiu a coordenação do curso superior de hotelaria e depois do curso de tecnologia superior em eventos, na mesma instituição, que há mais de 40 anos foi aluno.

Paralelamente, Chicão, continuava oferecendo consultoria em diversos eventos e sua figura carismática e agregadora a todos conquistava e brindando o mercado com livros sobre temas relacionados ao Turismo, a Hotelaria, aos Eventos, Hospitalidade e Etiqueta Contemporânea.

Sua postura de lorde, sem exibicionismo, com uma face de muita simplicidade, era um encanto. A gentileza era sua marca registrada, e isso era tão marcante, que um dos seus sobrenomes carregada essa sua qualidade.

Os anos passaram, e mesmo com seu passaporte repleto de carimbos internacionais,  o Rio continuava ser sua paixão, seu destino incomparável de atração… bastava um feriado, um trabalho a ser desenvolvido na cidade que o sorriso se estampava em seu rosto e lá partia Chicão rumo ao aeroporto de Santos Dumont.

Tinha plena convicção que os áureos tempos vividos por ele na cidade, há muito ficaram para trás… mas, como todo apaixonado, não desistia e só enaltecia as belezas, a malemolência, o espírito contagiante que observava e sobretudo, sentia pelo RIO.

Era um defensor nato e não podia ouvir ninguém tecer comentários degradantes sobre a cidade, que comprava a briga e com sua oratória perfeita, repleta de muita argumentação e fundamentação, externava discursos passionais e contundentes à favor do RIO.

Há quase dois anos, em função da pandemia do Covid-19, Chicão não namorava com sua paixão territorial. Mas recentemente, já sinalizava que em breve voltaria a curtir com sua amada companheira de vida, a TITA, a cidade maravilhosa e seus encantos mil.

Porém, no último dia 06 de Novembro, em um amanhecer cinzento, na capital de São Paulo, Chicão sucumbiu aos problemas recorrentes do Covid-19, que o contagiou no início de outubro e demandou sua internação.

Mesmo com a imunização completa com duas doses e já preparado para a dose de reforço, Chicão não conseguiu vencer essa doença, que já ceifou a vida de mais de 610.000 brasileiros.

Ele manteve sua cautela, mesmo com a vacinação completa, evitava aglomerações e continha-se nos prazeres que durante toda a sua vida experenciou e buscava com muita resiliência passar pelas adversidades oriundas do período, com fé e esperança.

Chicão não voltou e não voltará ao RIO… não presencialmente, mas percebo que ele sempre deve em si o estilo do Carioca Way of Life.

Ele era um dos meus mais assíduos leitores. A cada novo texto, publicado às sextas-feiras, ele tecia comentários, vibrava com os personagens que apresentava semanalmente e confabulava como o Rio era especial, justamente porque tinha em sua formação social, a beleza e diversidade de seu povo.

Hoje, ele é o meu personagem… uma pessoa que amava o RIO e expressava sempre que possível seu afeto e sentimentos pela cidade, sem deixar de ter seu olhar crítico, pois justamente queria melhorar em todos os pontos de vista, a qualidade de vida para seus moradores e maior exuberância para seus visitantes.

Não foi à toa que ao conhecê-lo, como boa carioca, logo o identifiquei como um dos nossos e desenvolvemos uma amizade, singular, repleta de cumplicidade, admiração e carinho.

Meu coração está destroçado com sua partida, não mais terei suas considerações à cerca dos meus textos, não mais visitarei seus lugares preferidos no RIO em sua companhia. Mas sei que a cada contemplação que tiver na cidade, ele estará por perto, com seu sorriso e olhar embasbacado dizendo:

“Que coisa linda… o RIO é lindo… O Cristo Redentor é maravilhoso. A cidade é maravilhosa. Que ELE nos abençoe sempre e nos abrace com seu amor e paz!”, comentou Chicão em outubro passado nos 90 anos do Redentor.

Que Chicão esteja ao lado dele, deslumbrantemente acarinhando toda à cidade e nos deixando a sensação que jamais estaremos sós… mesmo não tendo mais a sua presença!

Ósculos, Chicão meu amigão!

Andréa Nakane é carioca, apaixonada pela Cidade Maravilhosa, relações públicas, professora universitária, Doutora em Comunicação Social e Mestre em Hospitalidade.Embaixadora do RJ. Vive há 20 anos em Sampa e adora interagir com pessoas singulares que possam gerar memórias afetivas construtivas.

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