Foto: Reprodução/Internet

Na década de 1970, o arquiteto carioca Sérgio Bernardes, que teria completado 100 anos em 2019, projetou os 24 postos de salvamento da orla que vai do Leme ao Pontal. Da idealização de Sérgio, sobrou a forma, de certa forma ‘indefinida’, que visava intervir o mínimo possível na paisagem.

Durante 40 anos de funcionamento, esses equipamentos foram cercados, pintados de branco (o projeto original previa que fossem revestidos por chapas de aço) e perderam detalhes criados por Bernardes, como os 4 globos vermelhos usados como refletores e alto-falantes.

”Pareciam uns olhinhos de maria-farinha”, conta Thiago Bernardes, neto de Sérgio, sobre essas particularidades perdidas.

Atualmente, fora as mudanças ocorridas, a manutenção em parte dos postos é alvo de reclamações. A insatisfação principal dos usuários é com a limpeza dos banheiros, cuja utilização sai a R$ 2,60.

Porém, na semana passada, no Posto 11 do Leblon, era cobrada a quantia de R$ 3 para usar um dos que tinha infiltrações no teto. Do lado de fora, o problema mais visível era a falta da cobertura nos postos 10 de Ipanema e do Recreio, onde bombeiros ficam à mercê do tempo. Na Barra da Tijuca e no Recreio, na Zona Oeste, tinham estruturas enferrujadas.

Posto 11, no Leblon – Foto: Reprodução/Internet

Esse descaso levou 2 arquitetos a propor a restauração dos postos, com adaptações às necessidades.

”A situação deles não é animadora. Perdeu-se o entendimento do posto enquanto patrimônio. Ele é tratado como uma edificação qualquer. E, para mim, eles são como pequenas catedrais na orla: verdadeiras joias modernistas”, conta Rodrigo Azevedo, que começou a tocar o projeto com Rafael Patalano.

Pela ideia, apresentada à Prefeitura e à Orla Rio, concessionária responsável pelos postos, os banheiros passariam a ser subterrâneos, os globos-refletores reapareceriam, assim como o design do número, em vermelho. As construções seriam cobertas por chapas de aço não reflexivas e as escadas e os deques ganhariam versão em madeira, como queria Bernardes. Os arquitetos também projetaram 2 pequenos espaços para uso comercial e 1 banheiro para portadores de deficiência no local dos atuais.

Modelo de restauração proposto – Foto: Divulgação

A ideia é que ao menos 1 posto fique pronto até o Congresso Mundial de Arquitetos, em julho de 2020. O subsolo, antes de receber banheiros, seria usado durante o evento como espaço de exposição das obras de Bernardes, autor, entre outras obras, do Pavilhão de São Cristóvão.

Posto 7, localizado no Arpoador, na Zona Sul – Foto: Reprodução/Internet

O neto de Bernardes critica as alterações, as quais julga como ‘toscas’.

”Toda área pública que sofre no Rio, acham que deve ser murada. É o contrário do que temos que fazer. O projeto dele tinha uma genialidade, que era não tirar a vista de ninguém, numa época em que os salva-vidas precisavam de um espaço”, diz Thiago, crítico da cobrança nos banheiros.

”Os postos são exemplos da não valorização da arquitetura brasileira. É como se tivessem colocado uma porta nos pilotis do MAM”, finaliza.

Sobre o projeto de reparação, a Subsecretaria Municipal de Patrimônio Imobiliário disse que depende de análise de viabilidade da Orla Rio. Em contrapartida, o CEO da concessionária, João Marcello Barreto, afirmou que a proposta depende da Prefeitura e que qualquer projeto que modifique as características atuais esbarraria numa ação civil pública do MPRJ. A ação, na 10ª Vara de Fazenda Pública, questiona, entre outros pontos, a instalação de terminais bancários em troca da obrigação de cuidar dos postos (hoje, 3 em Copacabana têm caixas eletrônicos).

2 COMENTÁRIOS

  1. Concordo com Daniel. Acredito que qualquer carioca que passe pela palavra “chapa de aço” entenderá na hora que não será uma boa ideia, visto o Rio ser uma cidade tão quente. Imagina o pobre do salva-vidas ali o dia inteiro? Melhor criar uma alternativa sustentável, utilizando o que já existe. Menos gastos é o que precisamos.

  2. Prefiro o atual – bastando uma reforma e uma ação de conservação permanente.
    O modelo de chapa de aço (embora o modelo não reflita) pode absorver calor, possivelmente esquentar mais o que exigirá mais do aparelho de ar e consumo de energia – nada sustentável…

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