Autobol, um esporte brasileiro disputado por carros

É no mínimo inusitado imaginar uma partida de futebol contendo carros em vez de jogadores. Parece impossível, mas não só existiu essa modalidade, como ainda foi inventada, no início dos anos 1970, por um brasileiro, embora tenha persistido por pouco tempo. Foi o doutor Mário Marques Tourinho, fã de futebol e automobilismo, quem a concebeu e a pôs em prática, apoiado pelo produtor de TV, José Maria Adame. Na época, Mário era diretor do departamento médico do America e médico da Associação Carioca de Volantes de Competição. 

A ideia ganharia corpo e se tornaria uma verdadeira febre com direito a uma ampla cobertura de jornais e televisão. Após algumas experiências envolvendo amistosos no estádio Luso-Brasileiro, na Ilha do Governador, os organizadores resolveram, em 1973, organizar o primeiro Campeonato Carioca de Autobol no antigo estádio do America, na Rua Campos Sales, na Tijuca. Os disputantes foram America, Flamengo, Vasco e Fluminense. O campeão foi o Tricolor das Laranjeiras, o qual contava em seu elenco com o piloto Ivan Sant’Anna, hoje um famoso escritor, além de Alfredo, Fernando Davi e Paulo Jorge.

Os jogos eram disputados em campos de terra batida ou saibro contendo as mesmas dimensões de um gramado de futebol. A bola, de couro de búfalo com diâmetro de 1 metro e peso de 11 kg, era conduzida por carros, cujo número por times variou ao longo dos anos de três, quatro, cinco ou seis. Os escolhidos eram modelos baratos, como o Dauphine, que tinham câmbio de três marchas, facilitando bastante as manobras, pois a ré e a primeira marcha faziam parte do mesmo canal. Outros automóveis como o Volkswagen Fusca 1300, Volkswagen 1600, antecessor da  Brasília, Gordini, Renault RQ e o Kharman-Ghia também foram bastante utilizados. É interessante frisar que os carros com capô redondo, como o Fusca, eram utilizados para “chutar” a bola para o alto, possibilitando que os outros veículos a “cabeceassem” para o gol. Já os de capô quadrado executavam passes rasteiros e cobranças de falta.

Na edição seguinte, em 1974, o Botafogo, que entrara no lugar do America, sagrou-se vencedor. Alguns cotejos também passaram a ser disputados no Colégio Santo Inácio, em Botafogo, no campo dos Funcionários do Horto Florestal e até no gramado das Laranjeiras, o qual aguardava replantio.  Porém, a alegria durou pouco. O país, que vivia o auge da ditadura, experimentava outra de suas costumeiras e inúmeras adversidades econômicas que permearam a sua história. O estouro da crise mundial do petróleo, agravada pelo fim do transitório e ilusório Milagre Econômico culminaram em severas restrições à prática de competições automobilísticas no país, inviabilizando totalmente o Autobol, o qual permanece vivo apenas nas lembranças de alguns aficcionados e estudiosos do peculiar esporte cuja origem é totalmente brasileira.



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André Luiz Pereira Nunes

André Luiz Pereira Nunes é professor e jornalista. Na década de 90 já escrevia no Jornal do Futebol e colaborava com Almir Leite no Jornal dos Sports. Atuou como colunista, repórter e fotógrafo nos portais Papo Esportivo e Supergol. Foi diretor de comunicação do America.

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