Baía de Guanabara perdeu 92% da população de botos-cinza em 40 anos

A população atual de botos-cinza é "vestiginal" em decorrência da degradação causada pela interferência humana

Os Botos-cinza lutam contra várias adversidades na Baía de Guanabara, entre elas poluição sonora e rejeitos industriais / Reprodução: Internet

Uma das espécies símbolo da região costeira do Rio de Janeiro, o boto-cinza, sofreu 92% de decréscimo na sua população. Em 1980, a Baía de Guanabara contava com mais de 400 animais dessa espécie. Atualmente, restam apenas 30 vivendo na região. Os dados fazem parte de um acompanhamento realizado pelo Projeto Maqua, do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Segundo os estudiosos, os mamíferos estão em estado de extrema vulnerabilidade ambiental. As informações são da CNN Brasil.

O professor José Laílson, integrante do Projeto Maqua, afirmou que a população atual de botos-cinza é “vestigial”. Isso se dá por uma série de processos de interferência humana no habitat desses animais, o que acaba refletindo nas condições de saúde e reprodução deles.

“É uma população praticamente vestigial. Para se ter ideia, outras baías costeiras, que também têm o mesmo boto, como a Baía de Sepetiba e a Baía de Ilha Grande, hoje, são cerca de 1.500 animais em Sepetiba e mais de 2 mil na Baía de Ilha Grande”, disse o pesquisador à CNN.

A falta de tratamento de esgoto e coleta de resíduos sólidos é um dos principais inimigos da espécie. De acordo com o último Boletim de Saúde Ambiental do Instituto Estadual de Ambiente (Inea), apenas a cidade de Niterói, na região metropolita do Estado, apresenta um bom tratamento de esgoto. Ainda de acordo com o boletim, somente 35% do esgoto é tratado na média geral da área, sendo que 4 das 5 região da Baía de Guanabara registram índices de qualidade entre moderada e muito ruim.

Como se não bastassem os problemas com o tratamento de esgoto e a coleta de resíduos sólidos, os botos-cinza ainda enfrentam uma ameaça muito mais agressiva: o despejo industrial. São jogados na Baía de Guanabara, segundo os pesquisadores da Uerj, componentes altamente tóxicos, como o ascarel, produto usado como isolante em transformadores e capacitores. A toxidade de tais substâncias degradam a qualidade das águas e interferem no ciclo biológico dos mamíferos.

 “O que chega na Baía Guanabara não é só esgoto, não é só matéria orgânica. Chega muito mais coisa de origem industrial. Muitos desse compostos mexem com duas coisas fundamentais: o sistema imune e o sistema reprodutivo. E com o acúmulo desses poluentes, os animais morrem em decorrência de doenças, ficam mais suscetíveis a doenças das mais variadas. A gente sabe que eles estão entre os animais mais contaminados do mundo”, disse o professor ao veículo.

A redução dos manguezais, na orla da Baía de Guanabara, também é outro problema enfrentado pelos botos, segundo os estudos do Projeto Maqua. Tal redução resulta da construção de aterros e construções de vias rápidas para fazerem a ligação entre a região metropolitana do Rio e outros municípios do Estado. O problema é que os manguezais, que estiveram presentes em boa parte da Baía de Guanabara, são um ambiente de sobrevivência desses animais e outros espécies.

Além disso, o aumento do trânsito de embarcações na região também contribui para a degradação da vida marinha local, uma vez que o vai e vem de barcos e navios produz não somente poluição sonora, mas também vários tipos de rejeitos resultantes da própria atividade. Os botos-cinza, atualmente, contam apenas com as áreas protegidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), na cidade de Guapimirim, como filtro biológico.

“A Baía de Guanabara perdeu o espelho d’água, perdeu áreas de manguezal, que são áreas para a reprodução de peixes, que fazem parte da dieta dos botos. Houve um aumento abusivo do trânsito de embarcações, que gera uma poluição acústica sobre a vida aquática também muito importante. Isso gera estresse nos animais, dificuldade para fugir das presas e interfere na comunicação dos botos. Eles não conseguem enxergar às vezes mais do que um palmo na sua frente porque a água é muito turva. E eles usam na navegação, para monitorar filhotes, interagir, pescar. Então é muito importante essa questão acústica”, informou professor José Laílson.

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