Cruz e Sousa

Dentro do aparato semiótico, a boca ocupa uma função semelhante à dos vulcões: ela serve à comunicação de modo tão implacável, que tudo que sai dela provoca estragos de se perder de vista. A boca é muito mais do que define a biologia; ela é mais do que a cavidade que inaugura o sistema digestivo e respiratório. A semiótica imprime à boca um sentido ainda mais rico. Nossa sociedade, inclusive, devota uma importância tamanha à boca; damos inteira atenção ao que dizem, muito mais do que ao que pensam de nós. Mas isso vale para o papel comunicante que ela desempenha. A boca sempre tem algo a dizer, mesmo fechada, por detrás de um sorriso. Por isso, ela é a fonte emissora mais cultuada entre os seres comunicantes. O poeta é o indivíduo que mais preza pela boca nesse sentido semiótico. Há tanta vida no peito do poeta; há tanta esperança flamejante em sua alma, que tal inquietação precisa mais do que intensificar experiências subjetivas; antes, o interior tem de se exteriorizar como uma espécie de petição de princípio para o trabalho da poesia. Por meio da boca é que o mundo da alma se torna sonoro para nós. Apalavra comum é um rebento indiferente da boca; enquanto a palavra poética é o rebento primogênito; aquele filho prodígio que esbanja vida espiritual.

A respeito do trabalho poético de PaulValéry, André Maurois dizia que a poesia é a arte cujo pendor natural é abstrair para evadir do concreto, permitindo que o “espírito” retome “o contato com uma realidade anterior aos monstros mecânicos” que engendramos pela linguagem ordinária e utilitária. A poesia fala fora do comum, indo em busca de nossa origem, nossa vida pré-linguística, pré-conceitual. A poesia retoma as “posições desacostumadas” do ato de falar. É como se, pelo poema, a boca pudesse reviver uma função perdida entre tantas convenções e formas da linguagem que empobreceram não só o ato de falar, como também nos afastou da palavra criadora e profunda.

A poesia precisa indenizar essa falta espiritual; reabilitar o que foi massacrado pela máquina de moer sentidos da linguagem conceitual. Comprimimos tanto a palavra, moemos tanto sua expressão, para só nos servirmos dela como sendo “clara”, “lógica” e “compreensível”, que apagamos sua verdade e sua relação direta com a vida; abrandamos seu fogo criador.

A palavra já foi símbolo, já foi um universo à parte, quando pela primeira vez nomeou as coisas emudecidas, ou seja, as coisas que não podem falar por si mesmas. O poeta, no entanto, nunca deixou de se enamorar pela palavra e de fazer um uso transcendente dela; e foi o que fez o catarinense João da Cruz e Sousa. Negro retinto, filho de escravos forros, Cruz e Sousa (1861-1898) é um exemplo surpreendente na história da literatura brasileira. O ousado logro desse poeta, o que espanta nele, foi ter feito a alquimia entre a forma literária europeia e o conteúdo filosófico de motivações afro-brasileiras. Assim nascia o Simbolismo no Brasil.

Cruz e Sousa recebia a alcunha de Cisne Negro entre o círculo literário e intelectual da época. Tal imagem me soa perfeitamente adequada ao seu papel metafórico enquanto artista; já que ele compôs uma unidade entre a linha sinuosa e delgada do cisne, desse símbolo da beleza e da graça e a alma do negro. O resultado dessa síntese é o enegrecer do cisne, quer dizer, a licença dada ao negro para também usar a boca como poeta, como o falante belo e gracioso da sociedade. O cisne branco tem a força para cantar; seu canto é sempre derradeiro, como um último suspiro. Mas o canto de um cisne negro é, não só derradeiro, como também oculto.

Valéry dizia que o poeta canta o oculto por meio de imagens claras. Em Cruz e Sousa ocorre o contrário: as imagens são negras, por meio de um canto claro, claríssimo. É evidente na poesia de Cruz e Sousa que ele não usa a boca apenas para falar, mas para cantar; que a métrica de seus poemas é uma música óbvia que o cisne faz ecoar nas águas da noite, mas que traduzem o fundo que suporta nossa existência. Diante do que Cruz e Sousa tem a dizer, nos assustamos, como igualmente nos encantamos. Sua boca é a negra e bendita boca do poeta, como ele mesmo diz no poema “Canção Negra”, publicado no emblemático livro Faróis (1900).

No coração da Babel moderna, o poeta negro se dá ao luxo de ser o cantor no lugar antes restrito e exclusivo ao branco europeu; sua afro voz também tem vez; assim, ele canta os males da existência como também na França fizeram Baudelaire, Rimbaud e Mallarmé. Mas canta não como Castro Alves, denunciando a vida oprimida do escravo negro; Cruz e Sousa não canta o negro – para o decepcionar de alguns; ele é o negro que canta, que tem a liberdade de usar a boca para transcender, superando os entraves históricos da corrente e da mordaça.

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Em “Canção Negra” ele arranca as vísceras pela boca: cospe injúrias para o Céu, para quaisquer autoritarismos e opressões possíveis. Essa boca “em chamas” torna a injúria um ato poético de uma voz “sinistra e negra”. Injuriar é clamar de forma cataclísmica e atroz aquilo que a vontade do oprimido exige: a libertação das “pragas”, das “vãs misérias desse mundo”. Cruz e Sousa é irresistivelmente patético e apela para o imponderável. Sua boca canta uma melodia histérica, plena de “uivos e pedradas” que enxerga o Mal existente na condição humana, mas não se cala, não consente com isso. É uma boca que, na revolta, fere; que ataca em um golpe certeiro, que nos remete ao que de original se perdeu em nós com a história dos conceitos.

Esse canto transcendental atravessa o tempo por meio de “rudes trovas”. Efeito nada romântico, aliás; a poesia, em Cruz e Sousa, não quer dizer amenidades; da boca “ideal” do poeta emergem versos que, cadenciados numa métrica movente, musical, arranjada, parecem “ventos inclementes de universais revoluções” que arrancam os telhados que protegem as verdades que queremos esconder.São versos que estavam entranhados nas nuvens pesadas que embalam o céu de nossa existência. A boca poética diz coisas malditas, enche os ouvidos de belezas pútridas, “cospe o fel” da vida, mas ciente de que do meio desse cenário convulsivo há um “facho a erguer da luz do Amor”, uma verdade submersa que vem “reflorir todas as covas”.

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