Uma familia em quarentena. 
Convivências e desgastes em nível máximo.
Excesso de presente e falta de futuro – assim se encontrava a vida de margarina de Fábio e Joana.
O casal, até então feliz de carne-e-osso, vivia agora momentos de decepção, desnude e, sobretudo, de descobertas (ou redescobertas).

Para quem está chegando agora: Joana e Fábio tem dois filhos pequenos e vivem com conforto na cidade do Rio de Janeiro – passeios, viagens, clube, praia e vida cultural intensa. Com a pandemia, se viram obrigados a conviver 24/7, cuidar de casa, de vida escolar de filhos, do trabalho e da vida a dois. 

Desgastados e irritadiços um com o outro, se encontram hoje numa situação bastante dura e desconfortável para ambos: Joana pegou Fábio no celular recebendo fotos de outra mulher. Semi-nudes!

E mais um dia raiou.
Joana pulou da cama num misto de excitação, medo e angústia. Olhou no espelho e disse a si mesma: Essa quarentena ainda vai me matar de ansiedade. 
Mas nós, do lado de cá, bem sabemos que esse frio na barriga que ela sente não é somente por conta da pandemia. Ela também sabe.

-Tomzinho! Olga meu amor! Tá na hora de levantar!

Joana tem mania de beijar muito os pés dos filhos na hora de acordá-los. Assim eles já acordam rindo, segundo ela.
Beijos pra lá, risadas pra cá, os pequenos levantaram e trocaram de roupa enquanto Joana fazia as camas.

Vamos brincar na varanda depois do café?
Eu quero brincar também! Vamos caçar um tesouro? 
Obaaa! Papai vai brincar com a gente.
Joana amarrou a cara e foi pra cozinha adiantar as coisas.

Fábio tentou uma aproximação:
-Jô, já é o terceiro dia que tô dormindo no escritório. Daqui a pouco as crianças vão sacar que tem algo errado. Você já olhou as minhas redes e viu que não tem nada demais por lá. Eu sei que dei mole, que errei, mas quem nunca? Você quer comparar o que construímos com um dia infeliz no meio de um caos?
– Fábio, a questão não é o horror do que vi aquela noite e que me dói até o fundo do peito. Arde! Arde!
A questão é o que isso representa. Dizer que não tem nada com a loira da foto é o que qualquer um faria: negar. Mas claro que há algo e a única saída é você me contar tudo. Mas tudo.
– Não acho que vá ajudar. Não basta eu dizer a você que foi uma brincadeira? Uma diversão besta no final do dia? 
– Não. Não basta. Perdi a confiança em você. Olha, nem sei mais quem você é. Seu nome é Fábio mesmo? Ou aquela ID é falsa? É assim que tô sentindo tudo…
– Pai, pai, vamos pra varanda brincar?
– Vamos, Olga.

O casal teve que encerrar por ali. Joana com os olhos cheios d´água e Fábio com cara de cachorro que fez xixi no tapete. Ambos mal.

Joana deixou as crianças com o pai na varanda e foi se arrumar pra primeira reunião do dia. Pegou pela primeira vez naquela manhã o seu celular e avistou muitas notificações no celular: sua mãe, a Márcia, seu chefe, sua colega de trabalho, grupos de mães, seu pai e…um número desconhecido.

Oi, Jô. Aqui é o Marco, do aplicativo. Salva meu número e me conta de você. Fiquei curioso. =)

O coração de Joana disparou e lembrou a ela os seus 17 anos. E teve um gosto bom, mesmo com culpa.

Ela não respondeu nada. Disse a si mesma que se comportaria como uma adulta que é e tocou a sua vida atribulada em casa. Foi no escritório  buscar seu estojo e se deparou com o celular de Fábio. Pegou, ficou olhando praquele visor (Fábio configurou seu aparelho para não exibir notificações no visor, ela jamais veria nenhuma mensagem sem abrir o celular!) e se pegou pensando: “ podia ver uma mensagem da loira aqui pra poder falar com Marco sem culpa!

Marcinha, tá ai?
– Oi, amiga. Tô sim. Tudo bem?
Sim! Aquele cara que estudou na minha escola me adicionou no whatsapp.
Jura? Isso quer dizer que você acabou dando seu numero pra ele! E tá bem com isso?—– Não, tô culpada, com medo. Mas alguma coisa não tá me deixando parar.
Sei… eu sei que alguma coisa é essa. A mesma alguma coisa que o Fábio teve. Entende ele agora? 
Ué, mas só tô nessa porque ele começou… 
Ah tá. Você só tá curtindo essa onda por culpa do Fábio. Ele te obrigou, certo? Jô, se liberta! Você não se torna ruim por isso. Continua sendo a mesma mãe, mulher, filha e profissional maravilhosa de sempre. Por favor, né?
Sei não… Fábio quer conversar… eu acho que só consigo recomeçar qualquer coisa se ele me contar tudo em detalhes. Mas ele não quer. Então não tem conversa…
Por que você quer saber de tudo em detalhes?
Quero saber se ele gosta dela. Óbvio que ele mente. Ele vai dizer que não. Preciso entender essa historia.
Então vai fundo, amiga. Consigo te entender. No fundo você não sabe o tamanho que ela tem na vida dele. Tenta ao menos descobrir o nome todo dela pra gente fazer uma devassa básica na vida dessa vaca rsrs.
Ok, vou tentar.

O dia chegou ao fim. Depois do jantar, as crianças foram pra cama da mãe e perguntaram pelo pai. Chamaram por ele e ele deitou com os três como nos velhos tempos. Riram e falaram de desenhos animados.
As crianças adormeceram e Fábio as levou pro quarto deles.
Depois voltou pro quarto do casal:

Podemos conversar agora, Jô?
Não tem conversa. Tem você começando a contar toda essa história pra mim. Quem é essa mulher e o que vocês realmente têm? 
Ok, Jô. Eu não acho que vá ajudar. Eu não tô à vontade. Eu sei que tô errado e isso aqui vai nos magoar mais ainda.
Fábio, ou você me conta, ou não tem recomeço. Só fim. Há quanto tempo você tá com ela?
Jô, eu não tô com ela. A gente se fala, falava, por internet só.
Há quanto tempo, Fábio?
Há uns 3, 4 meses. 
Então foi antes do Coronavírus, o que me magoa mais ainda. Não tem nem a desculpa da vida limitada que temos levado. Você é um escroto.
Jô, você tá me imaginando um filha da puta que eu não sou. Não premeditei nada. Sempre te amei. Sempre respeitei o que temos e coloquei você e as crianças no centro da minha vida. Ela me adicionou no Linkedin querendo fazer negócio com o banco. Conversamos por lá, ela me mandou seu projeto  por email e, pra tirar dúvidas, adicionei ela no whatsapp.
Nossa, entre o projeto e a lingerie, deve ter acontecido muita coisa hein?
Sim, ela é divertida, tem um humor ácido. Num dia tenso no banco e aqui em casa, percebi que somente ri com ela pelo whatsapp. Dai me peguei procurando interagir com ela pra ficar mais leve.

Neste momento, Joana arremessou um pote de hidratante no Fábio. De surpresa, com ódio. Ele se assustou pois quase acerta na cabeça do pobre.

Seu escroto!!! Enquanto eu tô ralando com a casa, com o ganha-pão e com seus filhos, você busca “leveza” pelo celular? Escrotooo!
Você tem razão, Jô. Eu to errado. Mas não sou um escroto. Tanto que tô aqui te dizendo a verdade. Desculpa, amor. Eu não quero te perder. Não quero perder a vida que eu tenho.
Mas quer ter seu joguinho de leveza né? Então tá, vamos abrir a relação. Você busca seus momentos de alegria na internet e eu começo a buscar também. Fechado?
Que isso, Jô?? Eu já parei de falar com ela.
Mentira. Mentira. Você sabe que não dá pra ser assim. O pior é que você deve ter contado pra ela que eu vi vocês. Quero que morram! Morram!
Jô, a gente vai sair dessa. Assim que essa quarentena passar, vamos viajar. Vamos pra Costa Rica? Sempre falamos nisso, né?
Qual o nome dela?
Oi?
Me passa o nome dela!
Luiza Carvalho Albertoni. O que vai fazer com isso? Procurar ela nas redes? Fazer a louca com ela?
Você não me conhece mesmo, né? Esqueceu o background da mãe dos seus filhos. Tá me confundindo com a sua turminha nova. Sai do quarto. Me deixa sozinha.
Ok, Jô. Mas eu te amo. 

Jô chamou a Márcia no whatsapp e pediu pra ela pesquisar tudo sobre a tal Luiza, pois ela não tinha coragem para tanto – tinha medo do que encontraria.

Pode deixar, amiga. Amanhã, fuxico tudo e te passo a ficha. Beijo e dorme bem.

Jô, não fechou o whatsapp. Abriu na mensagem do Marco. Ele tava online. Foi mais forte que ela. Afinal, pensou ela, eles poderiam se tornar amigos.

Oi Marco, desculpa a demora. O dia foi pesado. Minha história com aquele aplicativo é longa… e você já deve estar indo dormir.
Que nada. Durmo tarde. Sou todo ouvidos. Pode começar.

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