Foto: Pinterest

Quando muda o sentido de tudo

Joana acordou atrasada.

Atrasada pro café da manhã, pra aula online do Antônio, para reunião de equipe. Atrasada pra chatice da rotina em quarentena que teimava em persistir. 

Leu a mensagem de sua amiga no whatsapp mas nada respondeu. Correu pro guarda roupa, se vestiu, penteou o cabelo e voou pra cozinha pra dar café às crianças (ela não costumava tomar mais que um café preto pela manhã). Passando pela sala de TV, se deparou com Fábio chorando ao telefone: seu pai foi internado com pneumonia. Complicações do Covid.

Joana sentou ao lado dele, colocou a mão em seu braço. Recostou a cabeça em seu ombro sem dizer uma palavra. Ela sabia o baque que seria.

Seu sogro era um homem de valores: um cara  íntegro e com um enorme senso de justiça. Ele a tratava com um enorme carinho, quase como filha mesmo. A recíproca era verdadeira: ela tinha nele uma figura paterna forte. 

– Me conta…

– Mamãe ligou dizendo que papai piorou da falta de ar e Marcelo levou ele pro Samaritano. Ele ficou por lá… 

Fábio desabou em choro abraçado a Joana. Agarrou-se na sua blusa e encharcou-a. 

– Eu devia ter ido lá no aniversário dele. Máscara, capacete, roupa espacial, mas devia ter dado um beijo no velho. Porra!

– Como, querido? A gente estava longe de lá para protegê-lo. Seu irmão que tava errado.

– Pois é. Aposto que ele que passou o vírus pro pai!

– Fábio, esquece isso.

– Seu irmão é bom filho e lançar isso agora só vai causar confusão… não é hora! Quer tomar algo? Rivotril? 

– Mais tarde. Deixa eu dormir com você? Estou com medo… que vida desgraçada essa!

As crianças estavam com os olhos arregalados vendo o pai chorar daquele jeito.

– Pai, o que houve com vovô Jaime? , perguntou o atento Antônio.

– Ele piorou da gripe e teve que se tratar no hospital. E papai não queria que ele fosse. 

– Gripe influenza ou COVID-19? , perguntou Antônio do alto de seus 8 anos.

– Covid é Coronavírus, Antônio?

– Éee Olga!

– Então vovô pode morrer?

– Cala a boca Olga! Garota chata! 

– Meus amores, Vovô Jaime está no hospital sim e está com Coronavírus, mas os médicos são muito bons e ele não vai morrer.

– Podemos visitar ele lá, papai? , perguntou a doce Olga.

– Não, meu amor. Só quando ele voltar pra casa.

– E se ele não voltar, pai.

– Ele vai votar, filha.

Fábio se trancou no banheiro para chorar. Foi impactante perceber que seus filhos cresceram, sabem tudo, cada vez mais. Estão atentos e fortes. O tempo passou e os bebês de sempre sabem diferenciar influenza de covid. Fábio chorou de medo. Chorou da tristeza de ter detonado seu casamento. Numa hora dessas, é de Joana que ele precisa. É ela que compartilhou parte de sua vida. 

“Que merda eu fiz, meu Deus?”

Joana preparou o café da manhã entre uma lágrima e outra. Fábio ficou em contato constante com o irmão para saber notícias do pai. Ele foi pro CTI e Fábio estava inconformado. Era preciso agora cuidar de sua mãe e ele já estava cuidando disso.

Mais um dia se passou entre telefonemas, lágrimas, reuniões e aulas online.

Joana só viu o necessário em seu whatsapp.

Procurou ficar ao lado do Fábio, pois ele estava visivelmente abalado e buscando notícias do pai o tempo todo.

Quando as demandas do dia acabaram, Joana foi pra sua varanda com seu celular e fone de ouvido para se exercitar um pouco. Abriu o whatsapp com calma e  havia muitas mensagens.

Viu a do Marco, colega de escola que ela reencontrou numa incursão vingativa em aplicativo de paquera:

– Oi, Jô. Como você tá? Melhor? Espero que sim. Quando quiser conversar, tô por aqui… beijo em você!

Joana deixou pra responder depois. No momento, ela se considerava a pior pessoa do mundo só de dar um oi ao Marco. Seu marido estava em profundo sofrimento e precisando dela. Dane-se a loura de lingerie. Ela só queria estar com ele. Joana considerava a hipótese de bloquear  o Marco e nem falar mais. Nunca mais (mesmo sabendo que nunca é um estado utópico do tempo).

Abriu a mensagem da Márcia, uma de suas melhores amigas e confidente:

– Amiga, você ficou quietinha o dia todo e eu imaginei que: ou você tivesse desistido de saber da loura, ou o dia tenha sido muito pesado por aí. Tá tudo bem?

– Oi, Marcinha. Não tá! A covid do Jaime complicou e ele teve que ser internado. Fábio tá acabado. Clima pesado… Mas quero saber sim. Nem sei se deveria querer saber… Não vai ajudar agora… aff..

– Amore, vou deixar um áudio aqui e você ouve se quiser e quando quiser. Se resolver apagar, tem meu apoio também, ok? Te amo. Beijo no Fábio e nas crianças. Fiquem bem e contem comigo. Dr. Jaime é um grande cara e vai sair  dessa!

Márcia deixou um áudio. Eis a transcrição:

“A loura se chama Luiza Carvalho Albertoni e isso você já sabe. Ela é advogada e mora em São Paulo. Ela era do Jurídico do Banco Safra e agora montou seu próprio escritório para atender essa área. Imagino que atenda o banco lá do Fábio. Devem ter se conhecido assim. Temos amigos em comum. Falei com uma menina que conhece ela superficialmente. Me disse que ela se separou há pouco tempo, tem uma menina pequena e é bastante ambiciosa. No Safra dizem que ela era agressiva quando se tratava de negócios. Até aí tudo bem. Mas parece que ela não é fácil com o ex-marido e não facilita pra ele ver a filha. Ele veio pro Rio e trabalha em mercado financeiro também. Agora sobre ela e Fábio eu ainda não descobri nada. Sei que ela estava prospectando bancos aqui no Rio. Vai ver está tendo fechar algo e usando suas armas. Sabe se Fábio decide esse tipo de contratação? Bem, agora não é hora de pensar nisso. Cuida dele e das crianças. Depois falamos. Beijo, amiga”



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