Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

Eu sempre ouvi minha mãe dizer que o luto deve ser vivido. Ela dizia que “pular” o luto poderia dar problemas mais tarde. Tenho certeza de que ela não falou exatamente assim, mas foi assim que a adolescente Bia entendeu e agora reproduz aos que a leem.

Mas  o que é luto? E o luto é algo sentido ou vivido quando pessoas de que gostamos morrem?

Não, a ideia de luto não se limita apenas à morte, mas ao enfrentamento das perdas reais e simbólicas durante o desenrolar da nossa existência.

Assim, o luto pode ser vivenciado por meio de perdas físicas e psíquicas tanto na esfera pessoal quanto na profissional, social ou familiar do indivíduo.

O simples ato de crescer, como no caso de uma criança que se torna adolescente, traz dor, bem como o declínio das funções orgânicas que advém do natural envelhecimento de todos nós. Ou seja, vivemos micro e macro lutos o tempo todo e os mesmos têm durações distintas e, espera-se, condizentes com o tamanho do estrago psíquico e afetivo em cada um de nós.

O luto é o tempo que precisamos para voltarmos a fazer parte dos biomas afetivos em que vivemos. Ou sobrevivemos.

Ser alegre é melhor do que ser triste, não se duvide. Mas pra se viver de alegrias, pequenas que sejam, é necessário ter estado triste antes. Ou ficar triste depois.

A vida é a costura do triste com o alegre. Uns mais tristes e outros menos. Dizem por aí que felicidade é genética e eu bem acredito. Tem gente que é feliz por nada e outros infelizes com tudo.

Mas o que importa nisso tudo o que eu disse (ou tentei dizer) é entender a tristeza, apoiar o luto em silêncio (sim, aprendi, “de olhar”, que pessoas em luto a gente conforta melhor com o nosso corpo e não com palavras) e parar de achar que o sentimento de infelicidade deve ser combatido com alegria e positividade excessiva.

Não, mesmo para você que nasceu irremediavelmente feliz e otimista, o mundo não é um oásis lindo, as pessoas não são tão boas, a vida quase nunca é justa e nem tudo no final dá certo. Entendido isso, fica mais fácil apoiar com gestos, atitudes e até palavras, sem fazer mal a ninguém.

Ué, apoio a quem triste está, pode fazer mal a alguém? Você tá louca, Bia?

Talvez eu seja louca desde que nasci, mas posso afirmar que palavras excessivamente otimistas e Instagrams excessivamente plásticos e coloridos, podem fazer mal à saúde dos psiquicamente mais normais que sofrem com lutos e tristezas.

Falo da positividade tóxica.

O excesso de positividade, de palavras alegres, de apostas iluminadas no futuro e de “tenho certeza de que vai dar tudo certo” pode gerar uma ansiedade indescritível nos que são objetos de tais movimentos.

Quando alguém começa a descarregar seu otimismo exagerado em cima de mim, eu não só me inibo com minha falta de esperança, como também me culpo de me sentir assim.

A alegria e positividade de pessoas hoje foi amplificado nas redes sociais, sobretudo no Instagram onde as vidas são sempre incríveis e o ângulo da câmera cria o contexto de felicidade.

Você já experimentou estar pra baixo, na pior, e ir pro Instagram? Você pode até sentir uma invejinha qualquer, mas o que de pior você sentirá é uma sensação de sufocamento por não ser autorizada a estar triste.

A positividade em excesso intoxica. O mundo feliz de papel também.

Silenciemos nossas angústias e nossos mini lutos (aqueles menos óbvios, já que o luto óbvio é bem melhor aceito!) porque se compartilharmos para tentarmos ao menos achar um sentido de pertencimento, seremos vistos como alguém muito infeliz e que precisa de tratamento urgente.

Alguém que está fixado no lado ruim das coisas.

Um pessimista patológico.

Um deprimido precisando de tratamento químico.

Entenderam a toxicidade do positivismo em excesso?

Isso é tendência e caiu em algumas redes: não dá pra ser triste – somente feliz.

E é dessa positividade tóxica e perigosa que devemos correr, para vivermos todos os lutos e tristezas que quisermos e onde quisermos.

Mas olha, se quiser se sentir mais identificado nos momentos de luto e sofrimento, vai pro Twitter.

Lá, há brigas, polarizações e xingamentos, mas há também gente com empatia que dá suporte e energia positiva na medida certa, sem adoecer ninguém.

Lutemos contra a positividade tóxica que, além de fazer mal, é um saco!

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