Antes de abordar o assunto principal desta coluna, preciso fazer uma confissão: geralmente, eu não costumo gostar de comédias escrachadas e dotadas de forte apelo popular. A verdade é que, para mim, essas produções quase sempre soam pouco engraçadas. Acredito que essa falta de empatia se deva, principalmente, à ausência de conexão e de sintonia com o que vejo nas telonas, ou seja, com aspectos que surgem quando nos identificamos ou nos enxergamos na história que está sendo contada. Dito isto, posso dizer, sem medo de ser achincalhado pelos leitores do Diário do Rio de Janeiro (ou não), que a minha relação com o ator e comediante Paulo Gustavo, vítima da COVID aos 42 anos, começou tardiamente.

Críticos e cinéfilos, de uma maneira geral, são bichos estranhíssimos. Ao mesmo tempo em que alimentam idiossincrasias bastante particulares, na hora que cismam com alguma coisa, não há santo que os demova de seus propósitos. Foi assim comigo, durante essa pandemia, quando cismei que precisava colocar em dia a filmografia de uma série de cineastas considerados de suma importância e foi assim quando concluí que não poderia mais fugir do Paulo Gustavo. Essa resolução ocorreu no finalzinho de 2019, quando seu último longa-metragem, “Minha Mãe é uma Peça – 3”, estava prestes a estrear nos cinemas fluminenses. Simplesmente não era possível assistir ao capítulo derradeiro de uma trilogia sem ter visto os anteriores. E foi aí que descobri o erro que estava cometendo.

Os dois capítulos iniciais, “Minha Mãe é uma Peça: O Filme” e “Minha Mãe é uma Peça – 2”, lançados, respectivamente, em 2013 e 2016, levaram milhões de espectadores aos cinemas. O terceiro prometia ser um sucesso ainda maior. Alguma razão deveria ter. As pessoas não poderiam estar todas loucas. Até a crítica especializada, geralmente xiita e exigente com esse tipo de filme, fazia coro. Investido do meu propósito, maratonei os dois primeiros e chamei a minha mãe, que se chama Dona Fernanda e não Dona Hermínia, a protagonista da trilogia, para ir comigo ao Espaço Itaú de Cinema, na Praia de Botafogo. O resultado? Adoramos. Na volta para casa, recomendamos o filme para o meu pai e o meu irmão.      

Qual era o segredo do Paulo Gustavo e de seus filmes? Responder que era o talento é chover no molhado. É claro que ele era imensamente talentoso. Mal comparando, o comediante brasileiro tinha o mesmo dom para a composição de personagens que o americano Eddie Murphy, óbvio que cada um dentro de sua realidade. Por isso os arquétipos são diferentes. E aí é possível dizer que os de Paulo eram realmente únicos. Tipos como Senhora dos Absurdos, Ivonete, Mulher Feia, Maria Enfisema e Valdomiro Lacerda foram criados com o intuito de fazer rir, pois o riso, como declarou o próprio ator, em 2017, em suas redes sociais, é um bom modo de abordar temas controvertidos e incômodos. No entanto, Dona Hermínia paira absoluta e rainha sobre todos os outros. É nela que reside o tal segredo.

Lembram o que falei lá em cima sobre conexão, sintonia e identificação? Então, ainda que seja inspirada nas avós, nas tias e, principalmente, em Dona Déa Lucia, mãe de Paulo Gustavo, Dona Hermínia lembra, um pouquinho que seja, a mãe de todos nós. Ao término da sessão, não perguntei para minha se ela tinha se identificado com a personagem. Entretanto, pelos seus risos durante a sessão, desconfio, fortemente, que sim. De minha parte, me identifiquei com as situações presentes nos três longas-metragens. Ao longo dos meus mais de quarenta anos de convivência com Dona Fernanda, eu já fui um pouco Juliano, um tiquinho Marcelina, só não fui o Garib. Esse, definitivamente, não sou eu.

O humor de Paulo Gustavo rompeu barreiras. Era popular, mas dialogava com todos. Afinal, que mãe não é uma peça? Não importa se ela é de Copacabana ou de Icaraí. Quem conheceu uma mãe conheceu (quase) todas. Em tempos tenebrosos e sombrios, pessoas que fazem do humor o seu ofício são extremamente necessárias, seja pela habilidade de falar a verdade de uma maneira desconcertante, seja pela capacidade de provocar risadas. Em um programa televisivo, no final do ano passado, Paulo afirmou que rir é um ato de resistência. Nada mais perto da verdade. Rindo não nos levamos tão a sério e percebemos que estamos na vida para aprender. Rindo encontramos forças para superarmos as fases ruins. Rindo seguimos em frente, como estamos fazendo neste exato momento. Claro, seria mais fácil se ele estivesse aqui. Contudo, seus filmes não se foram. Eles sempre existirão como uma peça de resistência e como uma forma de matarmos as saudades.

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