Foto: Urbe Carioca

Existe uma diferença entre ser maravilhoso e perfeito. O Rio de Janeiro é uma cidade conhecida no mundo inteiro como maravilhosa, mas infelizmente está longe de ser perfeita. Nossos problemas são notórios e nosso território é profundamente dividido, com cidades dentro da cidade e regras informais sobrepondo a legislação. Como já comentei outras vezes aqui no Diário, já faz tempo que o Rio de Janeiro são dois. O Rio das belezas naturais e o do caos urbano. O do morro e o do asfalto. O da praia e o do subúrbio. O Rio do cartão-postal e o Rio do boletim de ocorrência.

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Temos confrontos constantes entre policiais e criminosos, gerando uma insegurança paralisante, bairros fantasmas e prejuízos à economia. O transporte é confuso, irregular, desconfortável, lento e inseguro. A educação se desmonta e a saúde tem dificuldade para dar conta da demanda, tanto no setor público quanto no privado. As zonas oeste e norte seguem com problemas graves de saneamento e as praias da zona sul, propagandeadas em todo o planeta, sofrem com o despejo de esgoto. E se chover, aí é caos.

Enquanto isso, governantes corruptos são desmascarados e julgados por seus atos, com disputas jurídicas, pedidos de habeas corpus, ameaças nas entrelinhas e regalias na prisão. Pessoas desempregadas, sem esperança, começam a enxergar o tráfico de drogas ou as milícias como opção. Professores e estudiosos debatem em auditórios de universidade qual seria a solução para evitar o colapso social, porém, ao invés de encontrar saídas, as pessoas se insultam por suas posições ideológicas. Os mais abastados discutem em bons restaurantes se a melhor alternativa é se abrigar na Flórida ou transferir suas atividades para Lisboa.

Mesmo assim, seguimos pagando caríssimo por tudo. Altos impostos para ruas inseguras e mal cuidadas. Altos preços para bares onde nos tratam mal. Altas tarifas para ônibus quebrado e sem ar-condicionado. O carioca não tem direito a conforto? O turista não deve querer voltar? Os governos inertes pouco fazem. Alegam falta de recursos. Não deixa de ser real a crise econômica, mas falta eficiência, desburocratização e ética na gestão.

Essa semana, após passar o dia das mães com a minha, peguei um ônibus que sofreu duas vezes no percurso: Um protesto no Alto da Boa Vista contra a precariedade dos próprios ônibus impediu os veículos de passar pela área. Após desviar a rota e seguir o Rebouças, quase nos chocamos com um carro enguiçado no meio do túnel. Era uma senhora que não sabia usar o freio de mão e quase causou uma tragédia. Pelo ônibus ter feito um caminho distinto, precisei pegar outro. Durante a baldeação, assisti a um quase-assalto.

Ao me aproximar do meu destino, só me lembrava de uma música de 1997 do Planet Hemp, Zerovinteum, que dizia: “Rio, cidade desespero, a vida é boa mas só vive quem não tem medo, olho aberto a malandragem não tem dó, Rio de Janeiro, cidade hardcore. (…) Polícia, cocaína, Comando Vermelho, Sarajevo é brincadeira, aqui é o Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, demorô, é agora, pra se virar tem que aprender na rua, o que não se aprende na escola”.

Estamos longe da perfeição, mas como a cidade é maravilhosa, pagamos caro para viver mal desde que o DDD seja 021. Até quando?

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