*Por Leonardo Ladeira

No momento em que a Prefeitura realiza o Plano de revitalização do Centro do Rio, com objetivo de atrair novos moradores para o núcleo histórico da cidade, lembramos que muitos personagens famosos já viveram na região.

A maioria das pessoas que passa apressadamente pela Travessa do Comércio, próxima à Praça Quinze, por exemplo, desconhece que ali morou uma das mais famosas personalidades da cultura brasileira: a cantora Carmen Miranda.

Travessa do Comércio, onde Carmen Mirando morou

Nascida em Portugal em 1909, Carmen Miranda veio para o Brasil com apenas 10 meses de vida. Seu pai, José Maria Pinto da Cunha, decidiu mudar-se para o Rio de Janeiro para fugir da crise econômica que assolava Portugal. Seu José veio sozinho, e logo que chegou, conseguiu um emprego em uma barbearia no Centro da cidade. Instalado, mandou buscar a esposa, Maria Emília, e as duas filhas pequenas, Olinda e Carmen, que haviam ficado em Portugal.

Pao-do-Ouvidor
Cada vez mais, o Shopping Paço do Ouvidor se fortalece como ponto de encontro no Centro do Rio. Passa no Paço.

Nos primeiros quatro anos de Rio de Janeiro, a família Miranda residiu em vários endereços, de São Cristóvão à Lapa. Até que, em 1925, mudaram-se para um sobrado na Travessa do Comércio, nº 13, de propriedade da Santa Casa de Misericórdia.

No início do século XX, a velha travessa colonial (antigo Beco da Praia) já era um dos mais importantes núcleos de imigrantes portugueses do Rio, como descreveu o escritor Ruy Castro na biografia da cantora: “(…) Era uma rua de secos e molhados, onde alguns viviam, todos comerciavam, e o cheiro vinha do mar”.

A família Miranda alojou-se no segundo andar do sobrado (o térreo era ocupado por um armazém de propriedade de outro português). A casa possuía uma boa sala com cozinha adjacente, quatro quartos e um único banheiro. Ali, D.Maria começou a fornecer pensão de almoço.

Carmen e Aurora na Travessa do Comércio

E foi morando neste sobrado que Carmen despontou para o estrelato. Um dos frequentadores da pensão ouviu a jovem cantar e a levou para conhecer o violonista Josué de Barros, considerado seu padrinho artístico. Em pouquíssimo tempo Carmen se apresentaria em um festival beneficente no Instituto Nacional de Música, em estações de rádio e gravaria seus primeiros discos. Em janeiro de 1930, duas semanas antes de fazer 21 anos, ela estourou nacionalmente com a marcha “Ta-hí (Pra Você Gostar de Mim)”. E tudo isso ainda morando na Travessa! Com o sucesso da “Pequena Notável”, a família mudou-se, em 1931, para uma casa mais confortável em Santa Teresa.

A casa onde morou Carmen Miranda, na Travessa do Comércio, próximo ao DIÁRIO DO RIO

Imóvel invadido

Em maio de 2020, a antiga residência de Carmen Miranda foi saqueada por uma quadrilha de invasores profissionais especializada em dilapidar imóveis históricos para vender pedaços dos mesmos. O interior do sobrado que abrigou a pensão da mãe de Carmen ficou completamente bagunçado e destruído após a ação dos invasores, que, segundo testemunhas, venderam madeiras, janelas e o forro do prédio. Após a denúncia de invasão feita pelo DIÁRIO DO RIO, agentes especializados da Guarda Municipal lacraram o imóvel. Com a pandemia da Covid-19 e o esvaziamento do Centro, muitos prédios da região foram fechados ou abandonados, o que favoreceu o quadro de deterioração e decadência do Centro.

Esperamos que a antiga casa da ‘Brazilian Bombshell’ viva dias melhores, assim como todo o núcleo histórico do Centro do Rio.

Entrada da casa de Carmen Miranda

Vocação turística

A Travessa merece se transformar em pólo turístico, cultural e gastronômico por ser um dos poucos locais na cidade que, de certa forma, preserva os traços dos tempos do Rio antigo. Todo o conjunto é caracterizado não apenas pelos velhos sobrados, calçamento de pedra e antigas luminárias e gradis, mas também pela reunião de várias atrações de interesse histórico-cultural, como a pequena Igreja de N.Sra.da Lapa dos Mercadores, o Arco do Telles e a Livraria Folha Seca.

Em breve estará funcionando também na velha Travessa a sede do DIÁRIO DO RIO, que será instalado no primeiro prédio à direita de quem entra pelo Arco do Telles. O imóvel histórico será restaurado e abrigará, além da redação do jornal, um espaço de colaboração criativa, um estúdio e possivelmente um bar.

Carmen aprovaria com certeza!

*Leonardo Ladeira é jornalista e pesquisador do patrimônio histórico e cultural do Rio de Janeiro.



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