Carnaval por Gwenael Piaser

O que vou dizer hoje é para vocês, pierrôs e colombinas, que vão cair na folia. A alegria é saudável ajuda a prolongar a vida. Pessoas amargas, deprimidas, morrem cedo, porque a depressão é o sinal de um voto de morte presente. Mas a alegria tem um preço, às vezes caro demais, muitas impagável.

Isso é algo muito sério e vou direto ao ponto: o Carnaval é uma festa contagiante – aqui, em todos os sentidos! Ele possui uma magia inebriante que nos enfeitiça a todos, de tal maneira que pode nos levar a praticar atos impensados.

O Carnaval é a avenida que conjuga diversas alegrias que mobiliza sentimentos enlouquecidos, irresponsáveis em suas consequências. No Carnaval ninguém está preocupado com o bom senso, com o certo ou errado, com o perigoso ou o seguro. É o momento onde as pessoas fazem uma suspensão da realidade para viver exclusivamente as suas fantasias.

Portanto, eu lhes comunico, meus queridos foliões, A AIDS está viva. O ser humano é capaz de tudo, o melhor e o pior, e todo cuidado é pouco. Hoje existem alguns portadores do vírus do HIV que, por terem se sentido lesados ao se fazerem infectar, sentem-se no direito de infectar outros. Esse ato insano é realizado de maneira consciente, eles saem para festas com o objetivo consciente de transmitir o vírus para os seus parceiros. Trata-se de um ato perverso, assassino, que cresce a cada dia mais. A cabeça desses infelizes dizem o seguinte: “se fui infectado, tenho o direito de infectar alguém”, ou seja, uma vontade consciente de passar adiante a Aids.

O número de pessoas infectadas cresce cada vez mais e, portanto, pessoas ainda morrem de AIDS. O mais grave nesse processo em andamento é que estamos nos acostumando a ele. Esse sintoma assinala o pior e já não causa mais horror! Há trinta anos esta enigmática síndrome galopa por aí percorrendo todos os territórios do planeta sem escolher seu hóspede pela raça, idade, cor, religião, sexo ou posição sócio-econômica: qualquer um serve como hospedeiro pois a AIDS não é elitista; só quer alojar-se numa libra de carne.

Cedo se constataram os meios de transmissão desse vírus: sangue com sangue ou esperma com sangue. Esta equação é irrefutável! Governo e imprensa sempre insistiram na prevenção e numa redução de danos. Não se pode afirmar que esse conhecimento tenha sido totalmente assimilado pela humanidade, no sentido de uma verdadeira conscientização que impedisse uma disseminação do HIV. A não tomada de consciência se inscreverá como fator causal de uma disseminação. Se a via pela qual a doença se transmite é conhecida, por que não conseguimos vencer este exército invisível? O que acontece, mesmo com tantas informações, para continuarmos tendo cada vez mais novos casos de pessoas com HIV? Por que será que, em alguns setores da sociedade, a curva que denota a contaminação ainda é ascendente? Milhares de pessoas ainda estão morrendo de AIDS. E dezenas de milhares ainda morrerão por causa de um não querer saber sobre a realidade da infecção. Há uma loucura sistêmica que é calcada numa falsa ignorância e recusa de saber sobre o incontornável da transmissão do vírus. Essa negação sistemática diante da morte fez nascer, na atualidade, a assim chamada “terceira onda” de uma infecção pelo vírus do HIV. Ela certamente será mais forte e consistente na sua virulência de disseminação. Não devemos creditar o surgimento de novos casos a fatores sociais, o que nos levaria à cômoda posição de colocar a culpa nos nossos governantes. Os órgãos públicos têm feito até demais no sentido de tentar barrar a onda de infecção. Isso não basta. Esse trabalho surtirá efeito positivo se houver um trabalho permanente junto à sociedade em geral, numa implicação particular de cada um de nós.

Mesmo sabendo da existência da AIDS, qual fator nos escapa que, na maioria das vezes, nos conduz a uma posição tão onipotente e de risco que acabamos por nos fazer infectar pelo vírus? Pacientes que desenvolveram esta síndrome puderam relatar, no só-depois, que sabiam exatamente o momento e o parceiro em jogo na sua infecção viral. Relataram que poderia ter sido diferente, ou seja, de alguma maneira, reconheceram que participaram ativamente na produção da infecção. Uma tomada de consciência nesse sentido será relatada sempre depois do acontecido. Às vezes, o antecipar-se ao fato torna-se difícil, senão impossível, para alguns sujeitos. Por isso mesmo, quando olhamos de perto toda essa questão, verificamos tratar-se de algo mais. Quer dizer, alguma coisa nos transcende e se apresenta como um verdadeiro desejo de morte. Esse desejo hostil que habita o cerne do ser humano é desconhecido pelo senso comum. Há, sim, em algumas situações, um se fazer contaminar, vale dizer, um fator inconsciente por onde o sujeito acaba se traindo. Por alguma razão particular a cada um, esquece-se da vida e de tudo mais. Neste ponto, certamente, mas não somente nele, temos na experiência da vida mais uma comprovação de um questionamento efetivo da máxima judaico-cristã, “amarás o próximo como a ti mesmo”. O se fazer contaminar e contaminar intencionalmente o outro testemunha uma indelével dissidência desse princípio. Outros fatores têm sido detectados, como a presença de uma infinidade de sites na internet, que promovem exacerbadamente sexo desprotegido e uma promiscuidade sem fronteiras. O fantasma de uma violência sexual que dormita nos porões da alma humana tem sido atualizado nas conexões sem limites. Parece que aqui cria-se um novo liame social em direção à morte. Como, também, os exageros da mídia ao reportarem os avanços no tratamento da infecção têm promovido, nas cabeças onipotentes, uma espécie de atrevimento facilitatório. Mais infecções! Ou seja, é a nossa subjetividade que está cada vez mais presente na criação de uma disseminação do vírus. É lógico que já podemos comemorar alguns benefícios da ação das novas drogas, as quais têm conseguido prolongar a vida de milhares de pessoas infectadas. Os modernos e avançados tratamentos transformaram a infecção pelo HIV, de uma sentença de morte anunciada, em uma doença crônica e, com isso, muitos pacientes se beneficiaram. Inclusive registram-se muitos casos de pessoas que estão infectadas há mais de vinte anos vivendo uma vida normal. Um fato interessante, e que tem sido observável em inúmeras pessoas portadoras desse vírus, é que elas passaram a se autorizar cada vez mais na sua vida erótica e afetiva. Neste sentido, a boa pergunta já não é se alguém ainda morre de AIDS – na medida em que sabemos que a resposta é afirmativa – mas sim, por que ainda hoje alguém se faz infectar e, mesmo assim, [apesar de tratamentos possíveis…] acaba morrendo de AIDS?

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