Parque do Flamengo & Man

Um mergulho profundo na obra do mais importante paisagista do século XX é o que espera o visitante de O tempo completa, que ocupará os 1.200m² de área expositiva da Casa Roberto Marinho, a partir de 30/10. São cerca de 130 peças, entre desenhos, fotografias, plantas de projetos, croquis, maquetes, documentos e pinturas, inéditos e clássicos, de Roberto Burle Marx, selecionados pelo olhar atento dos curadores Lauro Cavalcanti e Isabela Ono.

A primeira exposição do acervo do instituto deixa clara a contemporaneidade da narrativa que o paisagista, pintor, desenhista, escultor, litógrafo, serígrafo, designer de joias, explorador botânico, arquiteto e urbanista criou em parceria com seus colaboradores e transformou em missão ao longo de seus 85 anos de vida.

Cavalcanti revela a intenção de ressaltar a faceta precursora de ativista do artista plástico que reivindicou a conservação das florestas brasileiras: “Burle Marx foi um incansável precursor na defesa do meio ambiente. Incorporou à sua atividade, na condição de maior paisagista mundial, a missão de proteger as florestas e os biomas nacionais. É esse legado que homenageamos”, afirma Cavalcanti, diretor da Casa Roberto Marinho.

A escolha para receber a exposição não é aleatória: os dois Robertos — Marinho e Burle Marx — foram amigos por toda a vida e coube ao paisagista assinar os jardins da residência do jornalista, em 1938. O projeto é da mesma época do paisagismo do Ministério da Educação e Saúde, atual Palácio Gustavo Capanema, no Centro do Rio de Janeiro, considerado uma obra-prima pela forma como adaptou aos trópicos o traço internacionalista de Le Corbusier.

Com as curvas dos jardins, as sinuosidades das divisórias internas e a solução volumétrica de entrecruzamento de seus blocos, Burle Marx, Lucio Costa e Oscar Niemeyer evitaram que o edifício do ministério fosse apenas mais uma de tantas importações europeias entre nós. Ali começou, em grande escala, o Modernismo carioca e brasileiro”, observa Cavalcanti.

O projeto do Palácio Gustavo Capanema, uma das joias do acervo do Instituto Burle Marx, divide espaço com um total de 120 mil itens que registram o passo-a-passo da obra monumental construída, ao longo de quase nove décadas, pelo paisagista e seus colaboradores, como o próprio Lucio Costa, a artista botânica Margaret Mee, o botânico Henrique Mello Barreto e o arquiteto e paisagista José Tabacow. O legado que chega até nós também conta com a dedicação incansável do maior parceiro e amigo de Burle Marx, Haruyoshi Ono, considerado a semente do Instituto.

“A exposição trabalha com essa ideia tão atual de construção coletiva. Em uma análise dos projetos do Burle Marx com meu pai percebe-se o desejo de ter cidades mais verdes, acessíveis e inclusivas, que privilegiam espaços de contemplação e encontro”, afirma Isabela Ono, curadora adjunta da mostra e diretora executiva do Instituto Burle Marx.

O tempo completa traz memórias do paisagista e artista plástico desde que, ainda na juventude, viajava pela caatinga em busca de plantas para as praças que desenhava em Recife. Uma seleção cuidadosa, já que o acervo do Instituto guarda – só em projetos – mais de dois mil: alguns realizados, como o Parque do Flamengo, e outros que jamais saíram do papel.

O Instituto Burle Marx entende o seu acervo como sementes que inspiram as trocas de conhecimento para repensar a experiência de vida nas cidades e favorecer óticas plurais, afirmativas e colaborativas”, observa Isabela.

Para a curadora adjunta, O tempo completa é o marco inicial não apenas da parceria do Instituto Burle Marx com a Casa Roberto Marinho, mas também da divulgação do acervo por toda a sociedade: “Somos uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos e precisamos de apoio para compartilhar esse patrimônio tão relevante. A partir da contribuição do legado de Burle Marx e seus colaboradores, o Instituto busca aprender, interagir e ampliar suas parcerias, se conectando a iniciativas de promoção do direito à cidade e equidade que permitam pensar em novas possibilidades de existência em coletividade”, afirma Isabela.

A exposição se espalha por dois grandes setores: o térreo, que é dedicado à formação de Burle Marx; e o primeiro andar, que abriga as obras concebidas com os colaboradores. Entre os projetos clássicos no Rio de Janeiro, estão o Parque do Flamengo e o Museu de Arte Moderna, a Avenida Atlântica, o Largo da Carioca e o Jardim Zoológico. De outros estados, veremos o Palácio do Itamaraty e os parques Ibirapuera e da Pampulha. A mostra inclui também projetos residenciais, públicos e internacionais para países como Itália, França, Alemanha e Venezuela, entre outros.

Na sala consagrada às pinturas, há trabalhos de períodos diversos que revelam o percurso do artista da figuração até a abstração. A exposição se encerra com um grande painel que ilustra a relação total de obras assinadas pelo paisagista paulistano.

Burle Marx dizia ‘o tempo completa’ quando se referia à participação orgânica das espécies na criação da beleza. Mas, também, nos alertava que os lentos processos da milenar natureza podem ser destruídos em simples horas pela ignorância e pela ação mecânica violenta”, lembra Cavalcanti, que sugere aos visitantes apreciarem a exposição como uma “oração ao tempo”. “É uma forma de nos sentirmos parceiros desse legado em nossa passagem pelo planeta”, completa o curador.

SERVIÇO:
O tempo completa: Burle Marx, clássicos e inéditos
Abertura: 30 e 31 de outubro de 2021, das 12h às 18h

Instituto Casa Roberto Marinho
Rua Cosme Velho, 1105 – Rio de Janeiro
Tel: (21) 3298-9449
Visitação: terça a domingo, das 12h às 18h
(Aos sábados, domingos e feriados, a Casa Roberto Marinho abre a área verde e a cafeteria a partir das 9h.)

Ingressos: R$ 10 (inteira) / R$ 5 (meia entrada)
Às quartas-feiras, a entrada é franca.
Aos domingos, “ingresso família” a R$ 10 para grupos de quatro pessoas.

Link para agendamento on-line:
http://www.casarobertomarinho.org.br

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