Por Ednardo Cláudio Benevides

O mês de fevereiro está marcado pela data de aniversário do cantor Cauby Peixoto. Em que pese o seu falecimento, fãs e admiradores fazem questão de registrar os 90 anos de nascimento daquele que tanto contribuiu para a cultura brasileira.

Adjetivos não faltam para ele, mas sem dúvidas o mais justo é “professor”. E não poderia ser outro, uma vez que ele era mesmo aquele que ensinava, fosse pela gentileza com a qual tratava seus fãs, pela forma que se apresentava ou pela sua disciplina com a voz, que dada a singularidade, deve mesmo ser chamada de instrumento musical. E seja qual fosse o arranjo, lá estava a voz do Cauby Peixoto, embalando tantas e tantas melodias…por várias décadas.

O cantor cercado pelas fãs, década de 1950. Foto: Acervo do Astro Cauby Peixoto


Com uma família musical, não faltaram influências e contato com a música. Lá no início dos anos 1950 ele iniciara o seu estrelato com sucessos como “Blue Gardenia”, e em 1956, “Conceição”, sua obra prima. As fãs, enlouquecidas pelo ídolo, algumas vezes chegavam a rasgar as roupas do cantor, tamanho o frenesi que o cantor causava ao cantar – recordista de capas de revista, com certeza. E por falar em anos 1950, o “rock’n’roll” dos Estados Unidos fez a revista “Time” considerar Cauby Peixoto como o “Elvis Presley brasileiro” – registre-se que no ano de 1957 o próprio Cauby gravou a música “Rock’n’roll em Copacabana”, considerado o primeiro do gênero com uma letra genuinamente brasileira. Outra vez, outro sucesso.

Observando a carreira de Cauby Peixoto, é evidente que ele teve a singular capacidade de se adaptar à mudança de estilos. Mudanças nada sutis, como, por exemplo, do perfil da Rádio Nacional, com uma voz grave, tonitruante, para uma voz mais sutil, como se deu nos anos da Bossa Nova. Pois ele gravou em ambos estilos e em tantos outros. O amor à música e ao palco ficam evidentes nessas transformações de ritmo – e vários idiomas – pelos quais as décadas traziam e levavam, ao mesmo tempo em que faziam com que esse novo desafio fosse tido mesmo como uma oportunidade de aproveitar outros pontos da voz, do estilo, do vestuário.

O cantor ao lado das cantoras Angela Maria e Emilinha Borba – Divulgação


Como poucos que souberam lidar com as mudanças, Cauby Peixoto não reclamou dos ventos, apenas ajustou a vela e velejou com outros estilos e com cantores de outras gerações – A gravação de “Bastidores”, de Chico Buarque no LP “Cauby! Cauby!” de 1980 é um perfeito exemplo. Isso se deve, também, à personalidade pacífica do cantor. Por tantas entrevistas ele dizia que não se aborrecia, não se exaltava. O seu foco era apenas a música, o palco e procurava agradar os fãs com uma mescla de sucessos já consolidados com novos sucessos em sua voz, como se o presente e o passado se encontrassem.

O fato é que Cauby fez do tempo um aliado, não um inimigo, de modo que talvez por isso o tempo o preservou – para a alegria de fãs e admiradores. As roupas que vestia nas suas apresentações eram indubitavelmente condizentes com o tamanho de sua personalidade e de seu talento. Talento esse que é lembrado e preservado por infindáveis fãs daquele que foi o maior cantor do Brasil.

*Ednardo Cláudio Benevides é Advogado, pesquisador cultural e entusiasta da História da MPB

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