Foto Cleomir Tavares/Diário do Rio

Nesta quinta-feira, 7 de outubro, uma votação na Câmara de Vereadores mostrou claramente uma faceta elitista da administração Paes. Neste dia foi votado o veto da Prefeitura a um projeto de vários vereadores (PL 41/2021), que proibia o uso de arquitetura hostil em nossa cidade.

O que isso quer dizer? A ideia do projeto, que foi inspirado na corajosa atuação do padre Júlio Lancelotti, em São Paulo, era evitar que o Poder Público continuasse a tratar moradores em situação de rua de maneira excludente e desumana. Não é por meio de pedregulhos, hastes de metal, cacos de vidro, grades e objetos semelhantes que a administração pública deve tratar esse grave problema.

Atualmente, estima-se que cerca de 17 mil pessoas vivam ou durmam nas ruas da cidade. Elas não estão ali porque gostam, mas por fruto das contingências sociais de uma sociedade injusta e desigual como a nossa. É uma tragédia humana, que deveríamos tratar com políticas públicas de acolhimento e não com mais exclusão.

No Rio de Janeiro, convivemos com isso há anos. E os projetos higienistas que procuraram esconder ou segregar os pobres, como se varressem a “sujeira social” para baixo do tapete, não conseguiram resolver o problema. Os exemplos são conhecidos, com destaque ao “bota-abaixo” de Pereira Passos, no início do século XX, e a política de remoções de favelas do governo Carlos Lacerda, nos anos de 1960, que expulsaram os pobres do Centro e da Zona Sul, liberando os terrenos remanescentes dos antigos cortiços e favelas para a especulação imobiliária.

O atual prefeito parece ser herdeiro dessa linhagem que concebe a cidade como mercadoria. Os mais necessitados são um “entrave” a ser extirpado. Podemos lembrar da sua atuação à época das Olimpíadas, quando removeu a Vila Autódromo para instalar equipamentos esportivos que se transformaram em elefantes brancos – atualmente abandonados e degradados. Ou mesmo a política implementada no chamado “Porto Maravilha”, na Zona Portuária, hoje praticamente desabitada, porque sua ocupação privilegiou os prédios corporativos em detrimento da moradia social.

Portanto, não é de surpreender que nosso alcaide tenha vetado um projeto tão simples, barato e de impacto relevante para os menos favorecidos. A falta de sensibilidade social do Executivo volta e meia aparece.

Em um momento em que, por conta da pandemia e da política ultraliberal do governo Bolsonaro e de seu ministro “Paulo off shore Guedes”, vivemos uma situação econômica difícil, de inflação e carestia como há muito não acontecia, parte o coração ver cenas de pessoas disputando restos de ossos e de pelanca para se alimentar. É evidente, a olhos vistos, o crescimento da pobreza em nossa cidade.

O correto seria o Executivo Municipal investir em políticas públicas continuadas de assistência, melhoria das condições dos abrigos, expansão da rede de proteção social, educação e geração de emprego e renda. Mas, enquanto isso não acontece (será que vai ocorrer algum dia?) não podemos ignorar a realidade que nos cerca impondo cercas. A cidade “coração do meu Brasil” está se tornando hostil.

Por fim, vale destacar que este projeto foi aprovado pela ampla maioria dos vereadores (teve apenas três declarações de votos contrários). Agora, na votação da derrubada do veto da Prefeitura, por conta da pressão do prefeito e dos “interesses” que cercam a relação com o legislativo municipal, 23 vereadores mudaram de lado e votaram pelo arquivamento.

Quem perde com isso é o povo do Rio de janeiro. Atitudes como essa nos deixa cada vez mais distante do que diz seu hino, que a intitula “cidade maravilhosa”. Maravilhosa para quem?

Este é um artigo de Opinião e não reflete, necessariamente, a opinião do DIÁRIO DO RIO.

graduado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Educação pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e doutorando pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Chico Alencar tem mais de 30 de atuação na política institucional. Foi deputado federal por quatro legislaturas (2003 a 2019), deputado estadual (1999 a 2003) e voltou a ser vereador em 2021

3 COMENTÁRIOS

  1. O atual prefeito da cidade sempre foi um elitista ligado aos interesses
    de grandes grupos financeiros. Será que é preciso dizer que a expansão da população em situação de rua se deu nos dois mandatos anteriores dele, sem que os seus governos tomassem nenhuma medida para contê-la? É engraçado que nesses governos houve muito tempo para demagogia política, como por exemplo, pedir para assumir (municipalizar) dois hospitais, até então, estaduais da zona oeste (que hoje são destaque pela má gestão), mas porque ele não pediu uma parceria com o governo do estado do seu (também então) amigo governador Cabral, para um trabalho de contenção do aumento da população de rua, já que além de tudo esse era também um problema de segurança e saúde pública, haja vista que na época esse aumento estava bastante ligado à um grande aumento do consumo de crack na cidade?

  2. Ricardo é café com leite. Tenta algo mais hard, tipo a Pavuna. O discurso é bonito. Mas a realidade é que a esquerda pouco se ocupa das necessidades dos pobres. Enquanto o peão quer transporte decente e uma escola que de ao seu filho condição de disputa, eles estão preocupados com banheiro misto, se o bandido é bem tratado, ou seja, coisas que seriam válidas após a resolução das coisas básicas. São totalmente dissociad os da realidade.

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