Rayssa Leal, skatista medalha de ouro nos jogos de Tóquio (Foto: Reuters)

É tempo de Olimpíadas. A cada quatro anos este ciclo se repete. Muda-se o país, os atletas veteranos dão lugar aos mais jovens, novos recordes são estabelecidos. Nas conversas das famílias, nas redes sociais e nas páginas dos jornais os desempenhos de atletas e equipes ganham o merecido destaque. O interesse pela competição esportiva cresce a cada nova edição, graças ao alcance das transmissões das provas, atraindo os olhares de milhões de pessoas ao redor do mundo.

A novidade deste ano foram o surfe e o skate, que fizeram sua estreia no Japão. Nas duas modalidades, o Brasil foi destaque, faturando duas medalhas de prata no skate e uma de ouro no surfe. Ambas tiveram que superar a barreira do preconceito para chegar aos Jogos Olímpicos. Até pouco tempo, ainda eram encaradas como coisa “menor”, sem grandeza para participar do maior evento esportivo do mundo.

No skate street, Rayssa Leal, menina negra, maranhense, de apenas 13 anos, se consagrou como a mais nova medalhista brasileira. A outra medalha do skate street foi  conquistada por Kelvin Hoefler, de 27 anos, cria do Guarujá, litoral de São Paulo, e filho de policial com dona de casa.

No surfe masculino, Ítalo Ferreira faturou o ouro. O surfista é filho de um pescador e de uma dona de casa de Baía Formosa, pequena cidade do litoral do Rio Grande do Norte. Lá, ele aprendeu a surfar nas tampas das caixas de isopor que o pai usava para guardar os peixes que pegava para vender.

O segredo do sucesso para estes desempenhos excepcionais talvez esteja exatamente no aspecto que faziam o surfe e o skate serem consideradas modalidades esportivas menos nobres: são esportes permitidos aos humildes. Para praticá-los, ninguém precisa ser sócio de clube, não é necessário muito recurso, ter treinadores ou equipamentos caros. Bastam as ruas, as ondas, o talento e muita vontade.

Vontade que foi determinante para que Rebeca Andrade conquistasse a primeira medalha da história da ginástica brasileira. Também negra, brilhou com ritmo, graça e leveza ao executar seu número de ginastica de solo ao ritmo do funk. Para chegar ao pódio, foi preciso muita resiliência, após passar por três operações no joelho que quase interromperam sua carreira.

São exemplos bonitos que mostram a potência que o Brasil seria se contasse com uma política pública consequente voltada para o esporte. Teríamos, a cada edição olímpica, vários Ademar Ferreira (ouro em 1952/1956), José Telles da Conceição (bronze em 1952), Aída dos Santos (1964/1968), Nelson Prudêncio (prata 1968/bronze 1972), João do Pulo (bronze1976/1978), Joaquim Cruz (ouro 1984/prata 1988), Robson Caetano (bronze 1988/bronze 1996), Daniele Hypólito (200/2004/2008/2012/2016), Daiane dos Santos (2004/2008/2012), Diego Hypólito (2008/2012/prata 2016), entre outros exemplos de atletas de origem humilde e que se tornaram referência nos esportes olímpicos.

Esses(as) bravos(as) desportistas são exceções que confirmam a regra de que o nosso país investe mal no esporte. Caso contasse com uma política de Estado para a área, o Brasil deveria contemplar, como prioridade quase absoluta, o esporte social, para onde deveria ser direcionada a maior parte dos recursos públicos do setor. Investimento que seria voltado ao atendimento das camadas mais pobres da população – e praticado nas escolas e bairros populares, celeiros de nossos craques.

No entanto, o que se vê há muitos anos é o investimento de altas somas no esporte de alto rendimento. Um contrassenso em um país tão desigual como o nosso. Gasta-se muito, para pouco retorno no quadro geral de medalhas de uma Olimpíada. Se tivéssemos uma base esportiva consolidada, fruto de uma política democrática, que buscasse a massificação da prática esportiva, teríamos realidade bem diferente da que estamos acostumados e, provavelmente, melhoraríamos nossa colocação entre os participantes olímpicos.

A história já mostrou que esportistas talentosos nós temos, mas é preciso dar apoio e estrutura para que possam florescer. Infelizmente, as perspectivas são as piores possíveis. Esse governo acabou com o ministério dos Esportes e sua política econômica tem sido a de cortes profundos nos investimentos sociais. O funil de aptidões, ao invés de alargar, fica mais estreito e difícil de ser transposto.

Mesmo contra todas as adversidades, é comovente ver a determinação dos nossos esportistas. Uma bela lição de garra e amor ao esporte.

graduado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Educação pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e doutorando pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Chico Alencar tem mais de 30 de atuação na política institucional. Foi deputado federal por quatro legislaturas (2003 a 2019), deputado estadual (1999 a 2003) e voltou a ser vereador em 2021

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