Cláudia Chaves: Delicado – O orgulho de ser o que é

Com orientação dos artistas da Cia dos Atores (Marcelo Olinto, Gustavo Gasparani, Marcelo Valle e Cesar Augusto), eles fizeram 9 meses de trabalho, de pesquisa iconográfica, dramaturgia, preparação de ator até entrar em sala de ensaio no final de 2021 com o abrandamento da pandemia

Foto: Claudia de Ribeiro

“Por que vocês não contam a própria história”? A partir da provocação de Gustavo Gasparani, supervisor de dramaturgia, o grupo formado por Gabriel Sanches, Wesley May, Laura Araújo e Pedro Marquez decidiram se dedicar a construção de dramaturgia a partir do conto “A Noiva da Morte”, de Nelson Rodrigues. Delicado, uma pérola de encenação, reúne todos os elementos que  fazem um espetáculo marcante: interpretação, cenário, figurinos, trilha.

Com orientação dos artistas da Cia dos Atores (Marcelo Olinto, Gustavo Gasparani, Marcelo Valle e Cesar Augusto), eles fizeram 9 meses de trabalho, de pesquisa iconográfica, dramaturgia, preparação de ator até entrar em sala de ensaio no final de 2021 com o abrandamento da pandemia.

Os elementos rodriguianos estão todos lá: a  família cerceadora, a repressão ao desejo, a busca pela essencialidade pessoal em uma trama que aparentemente fala de banalidades cotidianas, pequenas coisas, embates aparentemente normais. No original, Alipinho nasceu em uma família de mulheres, superprotegido. É obrigado a se casar.  Na véspera da união, tomado por uma tristeza e um desejo de liberdade, Alipinho decide usar um vestido de noiva, preparando-se para o seu momento mais glorioso.

A direção de César Augusto permite que os atores não exagerem e nem sejam melodramáticos. É a marca de Nelson: os exageros, os embates, a solidão  se tornam consistentes  pela movimentação  em cena , pela  voz, pela expressão corporal. E a escolha pelos quatro personagens parecerem solistas é uma bela solução para que se evidencie que o drama é único.

Os procedimentos escolhidos fazem com que o manifesto LGBTQIAP+ se transforme em arte o que facilita, e muito, o engajamento. Fica claro  que os personagens saem de um lugar subterrâneo para a luz do palco, para o meio da sociedade para denunciar a violência e a repressão. A drag que se monta em cena, os personagens que cozinham, a noiva sentada no alto da plataforma, a mestre de cerimonias vestida de apresentador vão intercalando as ações e as revelações daquilo que os angustiam. E no mês do Orgulho LGBTQIAP+, assistindo Delicado todos nós sentimos enorme orgulho de poder aplaudir  essa bela fábula.

Serviço:

Local: Sede Cia dos Atores
Endereço: R. Manuel Carneiro, 12 – Lapa, Rio de Janeiro – RJ
Quintas às 20 h

Jornalista, publicitária, professora universitária de Comunicação, Doutora em Literatura, Bacharel em Direito, gestora cultural e de marcas. Mãe do João e do Chico, avó da Rosa e do Nuno. Com os olhos e os ouvidos sempre ligados no mundo e um nariz arrebitado que não abaixa por nada.
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