Foto: Marcus Vinicius, Calçadão de Campo Grande

A grave crise econômica que o país atravessa resultou em inúmeros fechamentos de estabelecimentos comerciais nos últimos anos. No estado do Rio, são milhares de casos de lojas que tiveram que fechar as portas devido ao número baixo de clientes e, consequentemente, a pequena margem de lucro dos comerciantes.

Indo na contramão deste cenário que assola o comércio em todo estado, os calçadões, tradicionais centros de varejo popular, que concentram diversas lojas e estão espalhados por várias regiões da cidade, e na Baixada Fluminense, conseguem a proeza de aquecer a economia dessas regiões.

Seja em Campo Grande e Bangu, na Zona Oeste, em Madureira, na Zona Norte, ou até no município de Caxias, na Baixada Fluminense. Os calçadões são locais onde a crise econômica não chegou. Mesmo com o alto valor dos aluguéis cobrados nos imóveis dessas localidades, os espaços para empreender são disputadíssimos pelos lojistas.

E mesmo dividindo as atenções com grandes centros comerciais, como os shoppings do entorno, os calçadões se mantêm firmes graças a uma clientela fiel que sempre encontrará bons produtos, e, geralmente, pagando mais barato por eles.

Um outro ponto que facilmente se observa na dinâmica do comércio nos calçadões é que raramente alguma loja fica vazia durante o horário de expediente. O fluxo de clientes é intenso durante todo o dia. Isso sem contar a enorme variedade de produtos e serviços à disposição da população. São desde grandes marcas com suas lojas gigantescas até pequenas e médias empresas oferecendo, de um simples lanche, até um tratamento completo de beleza, por exemplo.

O cotidiano do comércio nos calçadões é tão distante e inverso ao atual cenário econômico geral que nem mesmo a Federação do Comércio de Bens Serviços e Turismo do Estado do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ), instituição que representa os interesses de todo o comércio do estado, dispõe de muitas informações sobre as vendas na região. É quase como se existisse uma realidade paralela acontecendo nesses locais.

Dono de uma loja de roupas no calçadão de Bangu há 5 anos, o comerciante Luis Figueiredo, relata que enquanto muitas pessoas reclamam da crise, os lojistas dos calçadões enxergam oportunidades de faturamento.

Aqui a gente faz dinheiro! O movimento nessa área é muito intenso. Nós não podemos nos queixar. É claro que, às vezes, o movimento fica menor em algumas épocas do ano. Mas no geral e sobretudo no Natal, Dia das Mães e Dia das Crianças, o movimento fica absurdo. E cabe a nós atrairmos os clientes. Nós colocamos uma caixa de som com microfone e vamos anunciando as ofertas. Não adianta reclamar, nós trabalhamos muito e é por isso que os clientes sempre voltam“.

O diretor da Sérgio Castro Imóveis, Cláudio Castro destaca que as maiores quantias referentes às luvas – valor que o comerciante paga ao proprietário da loja para comprar o ponto comercial e a partir daí pagar o aluguel – são praticados nos centros comercias populares.

Muito se fala sobre o suposto esvaziamento da cidade durante o período de crise, mas a verdade é que os grandes centros de comércio popular não sofreram praticamente nada. São verdadeiros formigueiros humanos. É bem verdade que existe uma certa dose de informalidade, mas que continua dando certo e bem sucedido. Não é incomum fecharmos locações nas áreas de comércio popular com mais de R$1 milhão sendo pagos apenas em luvas. O único lugar onde a figura das luvas continua persistindo, quando se faz uma locação de imóvel, é nos centros de comércio popular. Esses centros comerciais são tão pujantes que não raro se vê pagamentos de luvas no valor de R$1 milhão, R$ 2 milhões, até de R$ 4 milhões. Isso só demonstra a força do comércio popular do Rio de Janeiro“.

Calçadão de Campo Grande

O gerente de negócios de varejo da Sérgio Castro Imóveis, Marcus Vinícius Ferreira, que atua com locação de imóveis para o varejo há 11 anos, conta que o metro quadrado, em Campo Grande, por exemplo, custa de R$25 a R$30 mil, mais valorizado que em muitos lugares da Zona Sul.

As transações nessas áreas são milionárias. Recentemente alugamos um imóvel com luvas de R$2 milhões na Zona Oeste. Por dia, em média, passam cerca de 100 mil pessoas pelo calçadão de Campo Grande e 85 mil em Madureira, ou seja, o comércio não para nunca. Existe, inclusive, uma grande rede de lojas de departamento tentando se posicionar em Campo Grande e não está conseguindo devido ao alto nível de competitividade por uma loja nesses locais“.

Para o analista político e colunista do DIÁRIO DO RIO, Bruno Kazuhiro, o comércio nos calçadões, sobretudo o de Campo Grande, segue forte, principalmente, pelos preços mais baixos que atraem clientes de outras regiões.

O Calçadão de Campo Grande tem uma potência econômica forte. Dificilmente uma loja fica vazia por muito tempo. As grandes redes estão cada vez mais indo para lá. Os preços são mais acessíveis e gente de outros bairros compram em Campo Grande. Nascido e criado ali, passei pelo Calçadão diariamente por 20 anos e nunca vi movimento baixo”.

O historiador e administrador da página Suburbano da Depressão, Vitor Almeida, comenta a questão geográfica como um dos pontos, entre outros, que contribuem para o sucesso do comércio nos calçadões.

Vejo que existe nisso alguns fatores importantes, e cabe destacar dois: as óbvias opções de preços mais baixos, tanto no atacado quanto no varejo em se tratando de lojas de vestuário e utensílios, e opções de comida barata e relativamente boas após as compras. Além, claro, da proximidade desses calçadões de bairros com grande número de habitantes, seja na capital ou em outros municípios da região metropolitana. E vale destacar que aos shoppings permanecem naquele imaginário de que são lugares onde se vai para o lazer, encontros ou afazeres menos informais. Ninguém se arruma com a melhor roupa para ir ao calçadão, por exemplo”.

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