Foto: Reprodução

Este ano o Sambódromo está vazio. A iluminação com as cores das escolas de samba deixa no sambista grande saudade, mas leva esperança por um carnaval em 2022 com segurança e saúde. Tradicionalmente, na sexta-feira anterior ao início da folia, o prefeito entrega a chave da cidade para o rei Momo. Desta vez, devido a pandemia, o Rei Momo passou a chave ao prefeito que, na sequência, a entregou para duas profissionais da Rede Municipal de Saúde, Adélia Maria dos Santos e Joelma Andrade.

Em sua rede social, o prefeito Eduardo Paes (democratas) mostrou-se triste, porém confiante. É com esse sentimento que as escolas de samba do Rio aguardam 2022 para levar para avenida seus enredos. O tom crítico e de retorno às origens da cultura afro, prevalece entre as agremiações do grupo especial. 

A campeã Unidos do Viradouro levará para avenida o enredo “Não há tristeza que possa suportar tanta alegria”. Desenvolvido pelos carnavalescos Marcus Ferreira e Tarcísio Zanon, a vermelha e branca de Niterói contará como foi o carnaval de 1919, quando os foliões foram às ruas para comemorar o fim da gripe espanhola, que resultou no considerado maior carnaval do século 20. O enredo é inspirado no livro “O carnaval da guerra e da gripe”, do escritor e jornalista Ruy Castro. Por este motivo, a escola pretende fazer um paralelo do sentimento dos cariocas no ano de 1919, com o carnaval de 2022, em que se acredita poder, finalmente, comemorar o fim da pandemia da Covid-19.

Já a vice-campeã, Grande Rio aposta novamente em enredo religioso de matriz africana. “Fala, Majeté! Sete Chaves de Exu”, dos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora. A escola de Caxias levará para avenida as histórias e manifestações artísticas e culturais do orixá, e com isso, mais uma vez, agora de maneira indireta, a agremiação pretende combater o preconceito religioso e dar voz aqueles que foram historicamente impedidos de falar. Para isso, o enredo será divido em sete momentos, dentre eles os fundamentos africanos de Exu, mostrando sua relação com o mito do Zumbi.

“Batuqe ao caçador” é o enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel. Ideia original do jornalista e pesquisador Fábio Fabato, que tem o Oxóssi, padroeiro da escola como tema central, que no sincretismo religioso é São Sebastião, será desenvolvido pelo carnavalesco Fabio Ricardo. O enredo com temática afro é esperado há tempos pela comunidade da zona oeste. Nas palavras da sinopse da agremiação é um “Enredo dedicado aos ritmistas de ontem, de hoje e de sempre que compõem a alma de nossa escola…”

O Baobá, árvore gigantesca e milenar de origem africana será o norte do enredo da Portela. “Igi Osè Baobá” dos carnavalescos Renato Lage e Márcia Lage vai contar a história e a simbologia da árvore, conhecida como árvore da vida. A planta representa resistência e por isso, o seu legado cultural e sua relevância também serão contados por meio da ancestralidade, identidade, memória e religiosidade. A azul e branco de Madureira ainda irá abordar a questão dos escravos vindos para o Brasil e sua relação com a árvore.

Última escola a divulgar seu enredo, a Estação Primeira de Mangueira prestará homenagem à três grandes nomes da escola: o compositor e fundador da verde e rosa, que inclusive escolheu suas cores, Cartola; o intérprete de voz inconfundível Jamelão, e o mestre-sala Delegado. Intitulado “Agenor, José e Laurindo”, nomes de batismo dos baluartes, o enredo de Leandro Vieira busca valorizar os saberes e artistas populares da comunidade mangueirense, em momento propício, uma vez que 2021 acontece o centenário do Mestre Delegado. A Mangueira pretende, ainda, fazer uma espécie de reparação em sua história, pois não prestou homenagem aos outros dois grandes nomes do enredo e passaram em branco em seus centenários.

Outra agremiação que irá prestar homenagem a um artista da comunidade é a Unidos de Vila Isabel. Em enredo carregado de emoção “Canta, canta, minha gente! A Vila é de Martinho” dispensa explicações por se tratar de um dos nomes mais emblemáticos, que integra a agremiação desde 1965. O enredo esperado há tempos pela comunidade será desenvolvido pelo carnavalesco Edson Pereira, que terá aresponsável pela missão de exaltar o trabalho do cantor, compositor, músico e escritor. O enredo contará ainda, a história de amor entre a Vila e Martinho, que atualmente é presidente de honra da escola, já foi diretor de carnaval, compositor e intérprete.

“Meninos eu vivi… Onde canta o sabiá, onde cantam Dalva e Lamartine” é o enredo da Imperatriz Leopoldinense, que vai homenagear o carnavalesco Arlindo Rodrigues, que completaria 90 anos em 2021 e faleceu no ao de 1987 e ajudou a escola a conquistar campeonato em 1981 com o enredo “O teu cabelo não nega”, reeditado pela escola em 2020 como “Só dá Lalá”, em que novamente lhe rendeu o campeonato, dessa vez da Série A. A missão caberá a carnavalesca Rosa Magalhães, que irá relembrar os trabalhos de Arlindo e com isso, fazer uma reverência a Dalva de Oliveira e Lamartine Babo, ícones do carnaval do Rio.

O acadêmicos do Salgueiro, seguirá na abordagem da negritude. Com o enredo “Resistência” desenvolvido por Helena Theodoro e pelo carnavalesco Alex de Souza, a escola vai mostrar como o povo negro lutou para preservar sua cultura, sobrevivência e fé. A vermelho e branco também vai abordar a questão da abolição da escravidão, em partilhar no Rio e a suas consequências, que acabaram não possibilitando melhorias sociais. A proposta da agremiação é demonstrar e comprovar que os negros apesar de libertos, ficaram sem moradia, emprego e os demais problemas em consequência à este processo, que persistem até os dias de hoje.

Na mesma linha é o enredo da Beija-Flor de Nilópolis. ‘Empretecer o pensamento é ouvir a voz da Beija-Flor’, é uma abordagem antirracista e de exaltação de pensadores negros e da própria comunidade. O intuito da deusa da passarela é falar de igualdade. Para isso, o jornalista João Gustavo Melo, autor da sinopse do enredo, levou em conta referências bibliográficas de obras de personalidades negras como o jornalista e sociólogo Muniz Sodré, a filósofa e escritora Djamila Ribeiro, a jornalista e economista Flávia Oliveira e o cantor e compositor Emicida.

O Paraíso do Tuiuti vai levar para avenida um enredo voltado para a proteção e defesa dos animais. Do carnavalesco Paulo Barros, “Soltando os bichos”, a escola vai mostrar a questão ecológica, focando na preocupação com o futuro do planeta. Apesar da ótica séria envolvendo a proteção dos animais, a agremiação de São Cristóvão pretende abordar a temática de maneira leve e lúdica, partindo do ponto de vista das crianças. O enredo é um chamado para necessidade da harmonização da convivência entre os homens e os animais.

“Wanarã – a reexistência vermelha” é o enredo da Unidos da Tijuca. Desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos, o objetivo da escola do Borel é contar a história da lenda do guaraná, uma das mais populares da cultura brasileira e da formação do povo indígena Sateré Mawé. A proposta é levar uma mensagem de renovação, de reinvenção. De acordo com o carnavalesco, “é a sabedoria ancestral indígena que fala para todas as gerações”.

A São Clemente pretende passar uma mensagem positiva envolvendo a solidariedade, respeito e generosidade. O enredo “Ubuntu”, filosofia africana de origem nos povos Bantu significa humanidade e trata da relevância dos laços entre as pessoas. Desenvolvido pelos carnavalescos João Vítor Araújo e Tiago Martins em parceria com o historiador Marcos Roza, o enredo da agremiação tem como essência a abordagem da busca pelo bem-estar coletivo.

Com todos os enredos do grupo especial escolhidos os artistas populares e sambistas aguardam ansiosamente pelo retorno das atividades nas quadras, nos barracões e nas ruas da cidade. O Rio é do samba, das comunidades, dos tantãs, dos tamborins. O que as agremiações esperam é ver o sambódromo lotado e festejando o momento maior da preparação de todo seu trabalho desenvolvido ao longo do ano.

Costa do mar, do Rio, Carioca, da Zona Sul à Oeste, litorânea e pisciana. Como peixe nos meandros da cidade, circulante, aspirante à justiça - advogada, engajada, jornalista aspirante. Do tantã das avenidas, dos blocos de carnaval à força de transformação da política acreditando na informação como salvaguarda de um novo tempo: sonhadora ansiosa por fazer-valer!

5 COMENTÁRIOS

  1. Nenhum enredo pelo centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, tema que deu título ao Estácio em 1992.
    Triste. Não que os enredos propostos sejam menos importantes, mas a ausência completa deste tema chama atenção.

  2. Vergonhoso, Demagogia! Grupo Globo que há anos viveu e continua vivendo às custas do Carnaval, principalmente, o carioca, — pois não se vê luz no túnel que ela vá deixar o osso junto às escolas de samba.
    Que deveria ser administrada por empresários, Roberto Medina por exemplo, que realiza tão bem e com competência o RockinRio.

    Enfim, viu-se a Ambev, entre outras empresas e alguns governos envolvidos com a festa,— e o Grupo Globo nada, só aguardando a hora das transmissões meia boca para encher seus cofres com os milhões em publicidade. “Nenhuma ajuda aos ambulantes e os envolvidos com o Carnaval”.

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