*Roberto Anderson Magalhães

O momento é de mergulho numa crise sanitária largamente antecipada que, enquanto ocorria em outros países, era observada um tanto passivamente pelo governo brasileiro. A emergência da Covid-19 nos alcançou no estado de inadequação, que há séculos nos caracteriza, com a nossa tremenda desigualdade social. A gigantesca concentração de renda, as terríveis condições de moradia, saneamento, escolaridade e renda da população mais pobre são indignas de um país que é parte das 20 economias mais ricas do mundo, e que pretende entrar para o clube dos países desenvolvidos, a OCDE.

Dado o alarme de que o novo coronavírus havia chegado nas malas da classe média alta que, a despeito do dólar nas alturas, continuou a frequentar as principais cidades do mundo, foi decretado o isolamento social, em marcha acelerada para quarentenas mais rígidas. Com sacrifícios, a classe média vem se isolando em suas casas, prevenindo-se do contágio que inicialmente ronda os bairros mais afortunados.

E os pobres? Como realizam o distanciamento social requerido aqueles que moram em favelas, em áreas tão sem nada, como o Brejo, na Cidade de Deus, chamado de “favela da favela”? Como se isolam os que vivem amontoados, longe dos nossos olhos, às vezes com mais de uma dezena de pessoas no mesmo cômodo? Como manter a assepsia das mãos se a água não está chegando a diversas comunidades? Tememos pelas vidas desses brasileiros, apanhados por uma crise sanitária tão devastadora, nessa situação de miséria.

Como sempre, à ausência do poder público, as comunidades reagem bravamente com auto-organização. Lideranças vão surgindo, tentando preencher lacunas, como a falta de sabão, carência de mantimentos, a falta de informações. É emocionante ver o esforço heroico de quem coloca uma caixa de som numa bicicleta e sai pelas vielas alertando seus vizinhos para o perigo que se aproxima. Setores da sociedade se preocupam e doam para essas organizações, na esperança de que o pior possa ser evitado.

Mas devemos nos perguntar como admitimos que as coisas chegassem a esse ponto? Como naturalizamos que 22% da população de uma metrópole, como o Rio de Janeiro, viva em favelas? Que os poucos programas de urbanização dessas áreas tenham sido interrompidos por outras prioridades, como a Copa e as Olimpíadas. Como aceitamos que a água tratada não chegue a todos, que o esgoto não seja recolhido em quase 20% dos domicílios da cidade, e que, desse esgoto recolhido, menos de 50% seja tratado? Em termos de saneamento, o Rio de Janeiro ocupa a desonrosa 50a posição entre as 100 maiores cidades brasileiras.

Como aceitamos que as pessoas sejam obrigadas a viver em becos escuros, onde grassa a
tuberculose? Como aceitamos que não haja programas abrangentes de renda mínima para
esses brasileiros? É nessas condições que eles enfrentarão a ameaça da Covid-19.
Para piorar a situação, duas abordagens de como encarar a pandemia se confrontam. No Brasil esse confronto de visões tem sido disruptivo para a República. Seguindo orientações de epidemiologistas e da OMS, governadores e prefeitos, à medida que seus territórios foram sendo alcançados pela pandemia, passaram a adotar isolamentos e quarentenas, como estratégia de fugir do caos nos hospitais, tentando baixar a curva de contaminação.

Essa abordagem, ao priorizar vidas, aceita os efeitos danosos sobre a economia, que a paralização de atividades trará. Em diversos países esses efeitos têm sido minimizados com a injeção de recursos públicos, que mantenham a saúde das empresas, e garantam a renda dos trabalhadores impedidos de trabalhar.

No entanto, contrariando as recomendações dos epidemiologistas, a atuação do seu Ministro da Saúde, e as ações já implementadas por governadores e prefeitos, o presidente Jair Bolsonaro passou a defender a prioridade da atividade econômica, mesmo sabendo do risco de perda de milhares de vidas. Ele segue um percurso de desdém à gravidade da Covid-19, à qual qualifica como “gripezinha”. O que são essas vidas frente à necessidade do capital de continuar a se reproduzir e à necessidade de que a roda da economia não pare? Como não se cogita o aumento de gastos públicos, na escala que a emergência exige, desqualifica-se a perda de alguns milhares de vidas.

Numa situação em que os cidadãos, em sua maioria, estão confinados, em que as ruas estão vazias, em que o temor pela vida é o sentimento dominante, e em que, mais grave, o presidente é contra todos, é preciso que pensemos o país, a cidade que desejamos construir após nos liberarmos das restrições impostas pela pandemia. O que temos hoje, além de injusto, é incapaz de proteger as vidas de todos. É hora de refletirmos sobre a nossa aceitação de um estado de coisas que se prova errado. E é hora de, por enquanto, batermos panelas.

* Roberto Anderson Magalhães é arquiteto e urbanista, professor de Urbanismo na PUC-Rio, e foi candidato a vice-prefeito da Cidade do Rio de Janeiro nas eleições de 2016.

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