Ao longo da minissérie documental “Doutor Castor” (2021), em exibição no Globoplay, um dos entrevistados, o jornalista Juca Kfouri, diz que não é possível pensar no Rio de Janeiro sem pensar em Castor de Andrade. Para ele, seria mais ou menos o mesmo que tentar imaginar a cidade sem o maestro Tom Jobim, o colunista social Zózimo Barroso do Amaral ou o cirurgião plástico Ivo Pitanguy. Algumas pessoas podem até ficar envergonhadas ou constrangidas em elaborar e enunciar tal sentença, uma vez que o personagem em questão, diferentemente dos demais, foi um criminoso condenado. Entretanto, será que existe um motivo plausível para esses sentimentos? Creio que não, pois a fauna de qualquer metrópole é composta por personagens diversos e nem todos são antecedidos por uma reputação ilibada. Dito isto, a pergunta deveria ser: Quem foi Castor de Andrade?

Nascido em 12 de fevereiro de 1926, filho de Seu Zizinho e de Dona Carmem, Castor Gonçalves de Andrade e Silva teve uma educação de qualidade. Estudou no Colégio Pedro II e, mais tarde, na Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Concluiu o curso universitário, montou um escritório de advocacia, mas suas paixões reais eram o jogo do bicho, o futebol e o carnaval. Ou não, segundo algumas das pessoas que conversaram com o diretor Marco Antônio Araújo. Talvez, como muitos narcisistas por aí, sua verdadeira paixão tenha sido ele mesmo. Acreditando-se nessa hipótese, tudo o que Castor fez em vida, incluindo sua atuação como patrono do Bangu Atlético Clube e da Mocidade Independente de Padre Miguel, teve um único propósito: satisfazer essa paixão narcisista.           

Seguindo a cartilha dos bons documentários e da isenção jornalística em relação ao conteúdo, mesmo que o segundo ponto seja para muitos utópico, Araújo ouviu e registrou toda sorte de depoimentos. Entre os entrevistados estão inimigos de Castor de Andrade como a juíza Denise Frossard e o promotor público Antônio Carlos Biscaia; e amigos como o advogado Michel Assef e o cantor Aguinaldo Timóteo. Espalhadas ao longo de, mais ou menos, quatro horas de minissérie (são quatro capítulos de, aproximadamente, 60 minutos cada), essas participações formam um mosaico rico. Homem poderoso, o personagem principal despertou amores e ódios. Sua personalidade era contraditória e ainda que as evidências dos crimes sejam abundantes, dá para compreender por que tanta gente o amou.        

Se acerta nos depoimentos e na maneira como esses foram distribuídos com o intuito de não tentar tomar partido, o DOC deixa a desejar quando o aspecto é o espaço dado a cada uma das (supostas) paixões reais de Castor. O ofício de banqueiro do bicho, ocupando o lugar que um dia fora do pai e da avó, Dona Eurídice, é onipresente. Ainda que na minissérie se discuta a natureza de tal ofício – contravenção ou crime? – ninguém nega que dele advém a origem da fortuna dos Andrade e Silva. Já a atuação do patrono do Bangu é esmiuçada com imagens de bastidores e entrevistas com vários ex-jogadores. Desta forma, é possível traçar um amplo raio-x dos anos dourados do cartola da equipe de futebol. E dos anos dourados do cartola da escola de samba? Apesar de visualizarmos os títulos da Mocidade, faltou o mesmo capricho na hora de radiografar o modo como essas conquistas foram erigidas.

Quando falamos de documentários, sejam eles filmes ou séries, a impressão é que o binômio conteúdo e forma adquire uma importância ainda maior do que em obras ficcionais. Existe uma preocupação excessiva de que o produto final não se resuma apenas a imagens de arquivo e entrevistas. Um exemplo de ousadia é o longa “Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava” (2017), de Fernanda Pessoa. A cineasta faz uso de uma montagem azeitada, que costura cenas das ditas pornochanchadas, para contar a história do Brasil nos anos 70. Só isso e é brilhante. Araújo, não. O seu “Doutor Castor” é convencional, faz o feijão com arroz. Mas mesmo pratos tradicionais podem ser ousados. A prova disso é que ao aproximar imageticamente as aberturas da sua minissérie e a de “Narcos”, da Netflix, o diretor, de um jeito bastante sutil, assume uma posição e diz de que lado está na contenda envolvendo os defensores e os detratores do bicheiro e cartola (do futebol e do samba).     

Voltando à declaração do jornalista Juca Kfouri, qualquer cidadão carioca acima dos quarenta anos (estou com 43) lembra com nitidez de coisas como os gols do ponta-direita Marinho, dos versos de “Vira, virou, a Mocidade chegou” e do julgamento que colocou toda a cúpula do jogo do bicho na cadeia. Os bem mais jovens não têm essas lembranças, logo, a eles é facultada a possibilidade de assistirem ao DOC com a passividade de uma tábula rasa – ainda que, em tempos de globalização, isso pareça impossível – e responderem à pergunta inicial – Quem foi Castor de Andrade? – por si mesmos. De minha parte, assim como não imagino Chicago sem Al Capone, Nova Iorque sem John Gotti ou Medellín sem Pablo Escobar, não imagino o Rio de Janeiro sem Castor.  

Desliguem os seus celulares e boa diversão.                      

Bruno Giacobbo

Jornalista, historiador e crítico de cinema. Um dos últimos românticos, vive à procura de um lugar chamado Notting Hill. Acredita que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defende que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood.

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