Com a possibilidade de uma nova quarentena devido ao recrudescimento da Covid, é impossível não olharmos para trás e não nos lembrarmos dos primeiros dias da pandemia. Após o decreto promulgado em 13 de março de 2020, começamos um confinamento rígido que durou cerca de quatro meses. Durante esse tempo, saíamos apenas para fazer o necessário e o indispensável. Posteriormente, com a melhora do quadro geral do Rio de Janeiro, a rigidez inicial deu lugar a medidas mais flexíveis, mas o período de março a junho foi complicado. Trancados dentro de casa, os cariocas tiveram que inovar em suas rotinas para suportar o enclausuramento. Para algumas pessoas até que foi fácil. Para outras nem tanto. E é em momentos como esse que a arte pode ser tanto uma válvula de escape, quanto um espelho da realidade.

Ao longo de sua carreira e através de uma expressiva filmografia composta por quase 50 filmes, a diretora belga Chantal Akerman soube retratar como poucos artistas da história do cinema as angústias do dia a dia. A maior parte de suas obras, em grande medida autobiográficas, é protagonizada por mulheres “aprisionadas” pela rotina, pelas convenções sociais e pelas obrigações de cunho profissional ou familiar. Suas personagens são “heroínas” comuns, feitas de carne e osso, sem superpoderes, consequentemente, sujeitas ao sucesso e ao fracasso de suas empreitadas diárias. Dito isso, em “Exploda Minha Cidade” (1968), ótimo curta-metragem que está disponível no YouTube, não seria diferente.

Com quase 13 minutos de duração, o curta foi rodado quando a cineasta cursava o primeiro período da faculdade de cinema, no Instituto Nacional Superior de Artes do Espetáculo e Técnicas de Difusão (INSAS), em Bruxelas. Estrelada pela própria realizadora, essa pequena pérola, praticamente esquecida diante do fascínio das pessoas por produções mais famosas como a obra-prima “Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce, 1080 Bruxelles” (1975), mostra uma jovem confinada em seu apartamento. Para não dizer que esse é o único cenário, logo no começo enxergamos a personagem entrando no edifício, pegando sua correspondência e hesitando entre tomar o elevador ou subir pelas escadas. Depois disso, mais nada. Todo o desenrolar da trama ocorre na cozinha do imóvel.

O curta foi realizado sem falas. Há uma trilha sonora composta de ruídos diversos: o badalar de um relógio na parede, a mordida em uma pera, o som de uma faca rompendo uma lata e outros, não identificáveis. Lá pelas tantas, a jovem esboça uma canção sem palavras. E só. Simultaneamente, ela realiza afazeres domésticos metódicos como cozinhar um macarrão. Essa é a toada até o clímax que, obviamente, não vale ser contado antes da hora. Neste jogo de sons e imagens, percebemos um grande domínio dos elementos fílmicos por parte de uma Chantal, na época, com apenas 18 anos. A então estudante de cinema já intuía que, muitas vezes, as imagens falam por si mesmas, dispensando assim a utilização de palavras.      

Tanto em um curta-metragem como “Exploda Minha Cidade”, quanto em um longa-metragem como o supracitado “Jeanne Dielman”, o confinamento e o metodismo das ações de suas protagonistas, as “heroínas” de carne e osso (sujeitas ao sucesso e ao fracasso), não são oriundos de uma pandemia como a que estamos vivendo. No entanto, isso não diminui a força da mise-en-scène. Muito pelo contrário, já que a inspiração para essas e outras histórias vinha da vida da diretora que sofria de depressão, daí a constatação inevitável de que grande parte de suas obras eram autobiográficas.

Em 2015, três meses após o falecimento de Natália Akerman, sua mãe e maior incentivadora profissional, a cineasta infelizmente cometeu suicídio. O baque deve ter sido muito intenso para alguém que já sofria de uma doença tão séria. Hoje, revendo seus filmes, às vezes, eu me pergunto: Como seriam as protagonistas de Chantal Akerman se ela tivesse vivido o suficiente para enfrentar tudo o que estamos enfrentando?

Desliguem os celulares e boa diversão.



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