Crítica Literária: O amor e suas contradições

O Quarto de Giovanni foi escrito pelo americano James Baldwin (1924 – 1987) e lançado no Brasil em 2018 pela Companhia das Letras, com tradução de Paulo Henriques Britto. A primeira edição do livro foi lançada em 1956 nos Estados Unidos pela Dial Press.

A história é narrada pelo personagem David, que está em sua casa, no sul da França. Logo no primeiro trecho, o autor traz um tom de suspense à narrativa, com o objetivo de prender o leitor:

“Estou parado à janela deste casarão no sul da França ao cair da noite, a noite que vai me levar à manhã mais terrível da minha vida.”

David começa, então, a se lembrar de seu passado, quando morava com o pai nos Estados Unidos. Foi em seu país natal que, ainda jovem, teve sua primeira experiência homossexual. Esta experiência, vivida com um amigo, provocou sentimentos de culpa e vergonha em David, sendo um dos principais motivos para que mais tarde ele tenha ido morar na França. Uma fuga que acaba se transformando num reencontro com o que ele queria tanto esquecer:

“Hoje, creio que, se na época eu fizesse ideia de que o que eu ia terminar encontrando acabaria sendo o mesmo do qual havia passado tanto tempo fugindo, teria ficado na minha terra. Por outro lado, acho que, no fundo do coração, sabia muito bem o que estava fazendo quando peguei o navio que ia me levar à França.”

Em Paris, David inicia um relacionamento com Hella, uma jovem também americana. Quando ele pede a namorada em casamento, ela resolve fazer uma viagem para pensar no assunto. Enquanto Hella está na Espanha, David vai a um bar com um amigo e conhece Giovanni, o novo garçom. Eles iniciam uma relação de amizade que evolui para algo mais ao mesmo tempo em que David faz de tudo para negar seus sentimentos.

Porém, David, sem dinheiro, vai morar no pequeno quarto de Giovanni. E o quarto se torna cenário de uma vida cheia de culpa, vergonha e angústia por parte de David – o que resulta em um personagem repleto de contradições, que, ao mesmo tempo em que se sente atraído por Giovanni, também sente repulsa por ele (ou pelo que sente por ele):  

“Eu estava terrivelmente confuso. Às vezes dizia a mim mesmo: esta é mesmo a sua vida. Pare de lutar. Pare de lutar. Ou então pensava: mas estou feliz. E ele me ama. Estou protegido. Às vezes, quando Giovanni não estava perto de mim, eu pensava: nunca mais vou deixar que ele me toque. Então, quando me tocava, eu pensava: não faz mal, é só o corpo, não vai durar muito.”

James Baldwin consegue prender a atenção do leitor com pequenas pitadas de suspense. Logo de início, sabe-se que algo ruim aconteceu com Giovanni, mas não se sabe o quê. E o autor consegue levar a tensão sobre este personagem cativante e misterioso até o fim do livro, revelando seu destino em pequenas doses ao longo da trama.

Numa entrevista, Baldwin afirmou que O Quarto de Giovanni “é menos sobre a homossexualidade do que sobre o que acontece quando você tem tanto medo que acaba não conseguindo amar ninguém”. Por sua temática homossexual, O Quarto de Giovanni foi rejeitado e duramente criticado pela editora de seu primeiro romance, Go Tell It on The Mountain, que tratava de questões raciais.

A edição brasileira do livro conta com um prefácio escrito por Colm Tóibín, além de um ótimo posfácio pelo antropólogo Hélio Menezes e um perfil de James Baldwin pelo sociólogo Márcio Macedo.

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Nota: 5 (de 5)

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Livro: O Quarto de Giovanni
Autor: James Baldwin
Editora: Companhia das Letras
Tradução: Paulo Henriques Britto
Páginas:230

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