Crítica Literária: O encontro entre razão e intuição

Em junho de 1978, o jornalista Jonathan Cott foi ao apartamento de Susan Sontag em Paris entrevistá-la para a revista Rolling Stone. Cinco meses depois ele reencontrou Sontag, dessa vez no apartamento dela em Nova York, para dar continuação à conversa. A entrevista foi parcialmente publicada em 1979 e, na íntegra, 34 anos depois, no livro Susan Sontag – Entrevista Completa Para a Revista Rolling Stone, publicado no Brasil pela editora Autêntica, com tradução de Rogério Bettoni.

Susan Sontag (1933-2004) foi uma ensaísta, romancista, cineasta e ativista norte-americana. Na longa entrevista, Jonathan Cott utiliza como ponto de partida dois de seus livros mais conhecidos, que haviam acabado de ser publicados: Sobre fotografia e A Doença Como Metáfora – a ideia para este último surgiu durante o tratamento pelo qual a escritora passou para se curar de um câncer. Susan fala sobre o momento difícil em que escreveu Sobre Fotografia:

“Quando enfim consegui trabalhar, cerca de seis ou sete meses depois de receber o diagnóstico de câncer, eu não tinha terminado de escrever os ensaios de fotografia, mesmo que já tivesse o livro pronto na cabeça, e todo o esforço final era executar o livro, escrevê-lo com o devido cuidado e de maneira viva e atraente – mas escrever algo com que eu não estava conectada no momento quase me enlouqueceu. Eu só queria escrever A doença como metáfora, porque todas as ideias desse livro surgiram rapidamente no primeiro ou segundo mês depois que fiquei doente, então precisei de fato me obrigar a me concentrar no livro sobre fotografia.”

Mas a entrevista vai muito além dos dois livros. Susan fala com clareza e disposição sobre diversos assuntos, como envelhecimento, liberdade, sexo, leitura, criação, escolhas, enfim, sobre a vida. Descrevendo seu processo criativo, a escritora diz não fazer distinção entre pensamento e sentimento, afirmando que suas criações nascem de um encontro entre razão e intuição:

“Tenho a impressão de que o pensar é uma forma de sentir, e que o sentir é uma forma de pensar. (…) Esses estereótipos de pensar versus sentir, cabeça versus coração, masculino versus feminino foram inventados numa época em que as pessoas estavam convencidas de que o mundo seguia numa direção específica – ou seja, rumo à tecnocracia, à racionalização, à ciência, etc. –, mas foram todos inventados como uma defesa contra os valores românticos.”

Susan deixa claro que é contra qualquer ideia que limite e aprisione as pessoas, como a polarização masculino-feminino ou juventude-velhice, por exemplo. E fala também sobre a importância do respeito às diferenças culturais:

“O mundo é complicado e não pode de modo nenhum ser reduzido ao modo que você acha que deve reduzi-lo.”

A entrevista de Jonathan Cott é uma ótima oportunidade para conhecer o pensamento daquela que é considerada uma das mais influentes intelectuais dos últimos tempos. Uma excelente leitura, que desperta a vontade de ler todas as obras de Sontag.

Livro: Susan Sontag – Entrevista Completa Para a Revista Rolling Stone
Autor: Jonathan Cott
Editora: Autêntica
Páginas: 128

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