Os filmes em estrutura coral são compostos por histórias, aparentemente independentes, que correm em paralelo, mas que, lá pelas tantas, convergem para o mesmo lugar. “Profissão Mulher”, de Cláudio Cunha, lançado em 1982, inverte esta lógica: parte do ponto de encontro, uma festa de fim de ano, no dia 31 de dezembro, em uma agência de publicidade, no Rio de Janeiro, para percorrer caminhos diversos. Ali, em meio ao clima de alegria e melancolia, natural desta época do ano, vamos conhecendo os personagens, masculinos e femininos. No entanto, é em torno delas que o enredo gira. 

São quatro as personagens que servem de fio condutor para a história: Natália (Patrícia Scalvi), uma conceituada diretora de criação paulistana “perdida” em terras cariocas; Luiza (Simone Carvalho), uma modelo em início de carreira, sonhadora e romântica; Sandra (Wilma Dias), uma modelo experiente, a grande estrela da agência; e Vera (Lady Francisco), uma secretária recatada e tímida. Elas formam um mosaico plural. Mulheres com sonhos, medos, desejos e esperanças, inseridas no mundo voltado para a estética e machista da publicidade.

Adaptação do livro “O Animal dos Motéis”, de Márcia Denser, o longa-metragem começa com uma narração em off na voz do próprio diretor. É um momento cheio de bossa, em que ele faz uma brincadeira com as palavras amada e amante, referindo-se, propositalmente, a sua outra película passada no Rio: Amada Amante (1978). É também um prenúncio em relação ao foco da história. As principais mulheres do longa-metragem estão, todas, em busca de alguma coisa ou de seu lugar no mundo. 

Apesar de ocupar um cargo de chefia, Natália é menosprezada pelos companheiros de trabalho que a enxergam como uma alcoólatra. Liberada sexualmente, parece não se importar com o que os outros pensam. Luiza é linda e tem o futuro pela frente, mas é insegura quanto às coisas do coração. Implora pela atenção de um colega que está muito mais interessado em bajular a dona da agência. Já Sandra esbanja confiança e vive reafirmando sua independência, só que, no fundo, teme a solidão. Deseja um amor verdadeiro e vê a idade como um inimigo. Ainda que isto não seja explícito para o público, seu espelho é Vera. 

Os homens, em contrapartida, são quase todos fracos e vis. Este é o caso de Dias (Mário Cardoso), o personagem que enrola Luiza, e do representante comercial vivido pelo ator Otávio Augusto. Natália o conhece ao sair da festa de fim de ano e eles estabelecem, instantaneamente, uma abusiva relação baseada no álcool e no sexo. A exceção que confirma a regra é o diretor de arte Telmo (Cláudio Marzo). O cara se preocupa com as colegas de firma, oferece carona e quando tem a chance de se deitar com uma delas, conscientemente, não o faz porque sabe que será um erro. 

A escolha do elenco feminino era de suma importância para que tudo funcionasse. E todas, Patrícia Scalvi, Simone Carvalho, Wilma Dias e Lady Francisco se revelam acertos absolutos. Todavia, o destaque vai para Patrícia Scalvi, provavelmente, a estrela da Boca do Lixo com mais recursos dramáticos. Sua melhor atriz (já que o título de maior estrela é, inequivocamente, de Helena Ramos). Uma cena, protagonizada junto com Otávio Augusto, que termina em um melancólico e colérico orgasmo solitário, em plena noite da Cinelândia, é o paradigma da autossuficiência em tempos de emancipação feminina. 

O filme mostra o processo de empoderamento dessas mulheres. Não é fácil. Ocorrem tropeços pelo caminho. A felicidade não é certa para nenhuma delas. Pode ser, inclusive, que algumas não a vislumbrem, mas a vida é assim. Seria bem mais estranho se todas terminassem suas tramas felizes. Ao fim de tudo, fica a sensação de que as histórias não se fecham (ou não se fecham adequadamente). Não vejo como um problema, mas como algo derivado tanto da inversão estrutural dos filmes corais, como da constatação de que só a morte é capaz de fixar um ponto final em todas as histórias.

Desliguem os celulares e boa diversão.



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